No texto anterior, tratamos de paralelismo sintático para observarmos a relação de simetria entre elementos constituintes de uma oração, de um período ou de um parágrafo. Agora, abordaremos o paralelismo semântico, que não se limita à igualdade das funções gramaticais; ele exige a coerência das ideias, o alinhamento das categorias mentais e a afinidade lógica dos conceitos dispostos lado a lado. Trata-se de relacionar textualmente elementos que de fato
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pertençam ao mesmo universo de valores.
Imagine ler em uma crônica que determinado personagem "perdeu o chapéu, a paciência e a vida". Um chapéu é um item material trivial; a paciência é um estado psicológico passageiro; a vida é a própria existência biológica. Misturá-los causa um choque de expectativas. Machado de Assis, mestre da ironia, imortalizou o recurso em Memórias Póstumas de Brás Cubas ao escrever que o protagonista "morreu de uma pneumonia e de uma ideia grandiosa". Ao nivelar a causa biológica e a obsessão intelectual, Machado cria um curto-circuito semântico que fundamenta o tom satírico da obra.
Ainda na mesma obra, afirma o narrador-personagem: “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”, frase na qual um leitor atento entenderá que a quebra da relação semântica é proposital (e genial) para dizer que, na verdade, Marcela visava apenas se aproveitar do dinheiro alheio. Uma forma sutil e elegante de afirmar isso, não?
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Para compreender melhor o efeito do paralelismo semântico, é importante recorrer ao conceito de campo lexical, entendido como o conjunto de palavras pertencentes a uma mesma área de significação. Em uma barbearia de João Pessoa, por exemplo, encontra-se a expressão “barba, cabelo e amigos”. Nota-se, à primeira vista, uma quebra na sequência lógica, já que “barba” e “cabelo” pertencem ao universo da estética, enquanto “amigos” se desloca para o campo das relações sociais. Contudo, o rompimento é proposital: a frase sugere que a barbearia não é apenas um espaço de cuidado pessoal, mas também de convivência e amizade.
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Na música “Eduardo e Mônica”, da banda Legião Urbana, Renato Russo canta: “Eduardo e Mônica era nada parecido/ Ela era de Leão e ele tinha dezesseis”, em que, além da licença poética para romper com a concordância verbal e nominal, o autor se vale das diferenças das personagens para subverter o paralelismo semântico, reforçando a assimetria do casal.
Há, entretanto, situações em que a ausência de paralelismo semântico parece ocorrer de maneira não intencional, comprometendo a clareza do enunciado. Observe alguns exemplos:
Hoje chove em João Pessoa e em Pernambuco.
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Nesse caso, há uma incongruência entre os termos comparados: “João Pessoa” é uma cidade, enquanto “Pernambuco” é um estado. O ideal seria manter a equivalência semântica: "Hoje chove em João Pessoa e em Recife" ou "Hoje chove na Paraíba e em Pernambuco".
Quebrei um copo, um jarro e um dedo.
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Os dois primeiros elementos são objetos; o último, uma parte do corpo humano. A associação produz estranhamento involuntário. Uma possível reformulação seria: "Quebrei um copo e um jarro. Além disso, fraturei o dedo".
Nesse caso, a reorganização sintática e a substituição do verbo “quebrar” por “fraturar” conferem maior precisão vocabular e eliminam a inadequação semântica.
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O paralelismo semântico é mais um dos muitos recursos que a língua dispõe para conferir efeitos de sentido a um texto. O bom redator sabe romper de forma intencional, para gerar humor, ironia, crítica social ou expressividade estética. Por outro lado, a quebra involuntária do paralelismo tende a provocar ambiguidades e estranhamentos que podem complicar a comunicação e a vida, entendeu?