Recordo, tantos anos depois, a ansiedade que tive ao rever a madrinha que testemunhou meu Batismo, em maio de 1954, na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Serraria. A emoção, naquela manhã de domingo, tomou conta de nós dois. Relembramos tantas coisas familiares. Lembranças reencontradas na memória afetiva do menino sambudo que corria pelo terreiro em cavalo de pau, em corrida de argolinhas.
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Foi gratificante esse reencontro de dez anos atrás, selado com demorado abraço, seguido de um “Deus te abençoe”. Durante a conversa, sabendo de minhas andanças pelos livros e da tentativa de escrever sobre nossa gente, madrinha repetia um “Deus seja louvado”.
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Junto à minha madrinha, renovei a presença de mamãe abençoando os doze filhos, no agasalho da noite, acomodados no quarto e nas redes espalhadas pela sala. O “Deus te abençoe” era repetido ao pedido de “benção, mãe”, reproduzido como ladainha.
Mamãe abençoava a todos e, no íntimo, desejava que fôssemos “gente na vida”. Essa expressão significava crescer com dignidade, aprender as lições do bem viver, do partilhar e do fazer amigos.
Sem deixar as lembranças anuviarem, penitenciei-me pela ausência de tantos anos e quase me prostrei de joelhos ao chão frio diante daquela que se tornou mãe espiritual. Algumas décadas ficamos distantes, mesmo que as lembranças não tenham desaparecido.
Prima de meu pai, madrinha Rita carregava consigo a marca da mesma paisagem onde nascemos e crescemos. Foi contemporânea de meus pais e tios. Conviveu com meus avós, formando uma irmandade que a necessidade tornava unida. Testemunhou momentos marcantes na comunidade de Serraria, algumas revelações culturais que vão desaparecendo.
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Desde então, busco rememorar os momentos transformados em imagens adormecidas, para reconstruir o passado que não conheci, tão rico para nossa família.
Mais de uma década depois do encontro com minha madrinha em sua casa, a mesma sensação de outrora se repetia. Era como se estivesse em nossa casa no sítio Tapuio, de muitas lembranças, mesmo que algumas tenham sido tormentosas.
O passado retornou no abraço da minha madrinha. Abraço que renovo no pensamento para manter viva a memória de minha infância, a história de nossa gente.
Recordo-me de suas palavras, que ajudam a fixar passagens cheias de afeto junto aos meus pais, sobretudo à minha mãe, quando esta estava para dar à luz uma criança. Meses antes do parto de mamãe, acontecia a castração dos frangos que ficavam confinados no galinheiro.
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Eu tenho um carinho especial por minhas quatro madrinhas. Foram elas: Severina Branco, de Batismo; Rita Floriano, de apresentação a Nossa Senhora; Maria Neco, de Crisma; e Nair Guiné, madrinha de fogueira no Dia de São João.
Quando falei do desejo de ser afilhado de Nair, esposa de Manso Guiné, mamãe falou que, como ela já era sua comadre, isso se tornaria compreensível.
Queria me redimir de uma trela: dizendo que mamãe estava com dores de parto, chamava Nair às pressas. Não era verdade. Repreendido, as palavras de minha mãe foram um muxição na consciência, mesmo com o pedido de desculpas.
As madrinhas tiveram uma participação inesquecível na minha formação de cristão.
Um dia eu estava com essa tristeza de criança, então fui para perto de minha madrinha Rita. Amaciando minha cabeça com mãos de fada, fez-me emergir na calma e adormecer com a cabeça recostada em seu colo.









