Um dos efeitos da Copa é fazer com que pessoas que nunca foram a um campo de futebol, e acham que “pe...

Cena da Copa

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Um dos efeitos da Copa é fazer com que pessoas que nunca foram a um campo de futebol, e acham que “pelada” é sinônimo de mulher nua, se tornem de repente fervorosas adeptas desse esporte. Sobre isso tenho uma história interessante, que me foi contada por um parente de um dos protagonistas. Troquei os nomes para evitar processo. Vamos lá.

Marido e mulher assistem na sala a um dos jogos do Brasil. Ela nunca se interessou por futebol; lembra aquela grã-fina de Nelson Rodrigues que, ao entrar num estádio pela primeira vez, pergunta: “Quem é a bola?”. Mas agora está motivada, devido à intensa exposição que a mídia tem feito sobre o campeonato mundial. Chegou até a comprar uma camisa com as cores nacionais para se integrar à torcida.

Enquanto o marido beberica cerveja (por sinal, de uma marca patrocinadora do evento), ela aproveita a cobertura pré-jogo para aprender um pouco sobre esse esporte, que atualmente é o foco da atenção do mundo e, especialmente, do Brasil.

Em dado momento interrompe Josué, que se deleitava com o segundo copo:

– Zué, por que falam tanto nesse tal de Laçarote?
– Não é Laçarote, Zuleide. É Ancelotti, o técnico da Seleção. Aquele que vive mascando chicletes.
– Mas bem que os nomes se parecem. E por que ele masca chicletes?
– Para diminuir a ansiedade.
– Devia fazer como você e tomar Rivotril…

O marido pede silêncio, que a partida vai começar. Zuleide se enternece com a execução do Hino Nacional. Escuta-o atenta, mas não a ponto de deixar de fazer duas observações. A primeira é sobre “aquele jogador que parece Jesus Cristo. Sinal de que vamos ganhar...”.

– É Alisson, o goleiro. Espero que faça mesmo milagre.

O outro comentário vem com alguma malícia:

– Aquele ali de preto não está cantando…
– Aquele não é um jogador. É o juiz.
– E por que o juiz não pode cantar?
– Porque... Deixa pra lá.

Começa a partida. Zuleide permanece um tempo calada, parece se concentrar no jogo. Volta a falar para pedir ao marido que lhe explique o que é esse tal de “impedimento”.

– É quando o atacante se coloca na frente da defesa do time adversário.
– Na frente ou atrás?

Josué embatuca. Ia tentar explicar melhor quando Zuleide, ao ouvir o grito de “Gool!, corre em direção a ele e começa a agitar a bandeira, gritando: “Brasil!, Brasil!, Brasil!”.

Vendo que o marido não se empolga, olha-o com surpresa até saber o motivo:

– Não foi do Brasil, Zuleide! Foi do Marrocos…

Ouvindo isso ela vai até o quarto e, pouco depois, volta com a bandeira do país adversário.

– O que é isso?! – pergunta Josué, perplexo. – Comprei também, ora. Não custa ser prevenida.

Felizmente o Brasil empata, e Zuleide volta a empunhar o pequeno estandarte pátrio. Para alívio de Josué, que não deixou de admirar o pragmatismo da esposa.

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