O café fita o teto , desatando sua última fumaça, enquanto observo a pressa do mundo pela janela. Lá fora, os passos correm com a aud...

Valsa delicada

efemeridade tempo afeto finitude encontros humanidade
O café fita o teto, desatando sua última fumaça, enquanto observo a pressa do mundo pela janela. Lá fora, os passos correm com a audácia de quem se julga eterno. Há um sussurro urgente que abafamos todas as manhãs para conseguir abrir os olhos: a certeza de que somos efêmeros. Nascemos com o crepúsculo já desenhado nas pálpebras.

Viver sob a sombra da própria despedida é o mais bonito e doloroso paradoxo humano. Poderia ser o abismo do vazio, o silêncio do "nada importa". No entanto, a sabedoria do tempo nos sussurra o oposto: é a escassez que molda a preciosidade. O diamante não brilha por capricho, mas pelo milagre de sua raridade. O ouro reluz pelo peso de sua ausência nas calçadas. Nossa existência segue o mesmo compasso místico, porque somos um sopro breve, um risco de luz suspenso entre duas eternidades de breu.

Se os nossos dias são moedas de um tesouro finito, onde estamos derramando essa riqueza?

Quase sempre, trancamo-nos nos castelos de areia do próprio ego, colecionando certezas fúteis e pequenas vaidades de poeira. Esquecemos que a vida não ecoa no vácuo. Quando Jean-Paul Sartre escreveu que "o inferno são os outros", não legou uma praga ao mundo, mas um espelho. Ele sabia que o olhar alheio nos esculpe e desvenda. Mas, alargando as margens desse pensamento, o outro é também a nossa única balsa contra o oceano da própria insignificância.

Se eu sou um instante que passa, e você também, o espaço que nos separa e nos une torna-se o solo mais sagrado do cosmos.

Afastar o abismo que nos distancia de alguém não é mera cortesia ou verniz social; é um ato de adoração metafísica. É enxergar que a alma que caminha à nossa frente carrega a mesma gravidade existencial, os mesmos assombros sob o lençol e o mesmo relógio de areia batendo contra o peito. Quando escolhemos a doçura da escuta e o desarmamento do olhar, estamos, em silêncio, reverenciando a brevidade um do outro.

Não fomos feitos para a economia do afeto. A vida é curta demais para que guardemos o abraço na gaveta, engulamos a palavra que cura ou adiemos o perdão que liberta. Cada faísca de orgulho que alimentamos consome os minutos de uma clepsidra que nunca mais voltará a encher.

Afinal, a existência é uma valsa delicada no convés de um navio que, sabemos, ruma para o fundo do mar. Podemos passar o tempo tropeçando nos passos alheios, amaldiçoando a melodia e disputando um palmo de chão seco. Ou podemos, num gesto de coragem e entrega, estender a mão a quem está ao lado, sintonizar o ritmo dos corações e celebrar a beleza da música enquanto o mar não nos acolhe.

Olho para a xícara esquecida. O calor se foi, e o tempo não abriu exceções; ele avança sóbrio sobre filósofos, amantes, poetas e todos os comuns viventes à espera do próximo amanhecer. Que saibamos, então, gastar a nossa breve herança na única riqueza que desafia a nossa partida: o laço eterno que tecemos nas mãos de quem aceitou caminhar conosco.

COMENTÁRIOS

leia também

Postagens mais visitadas