A pandemia não foi de todo embora; persiste em casos esparsos, que assustam e às vezes matam. Ainda assim, é grande a pressa das pessoas p...

Alívio e culpa

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A pandemia não foi de todo embora; persiste em casos esparsos, que assustam e às vezes matam. Ainda assim, é grande a pressa das pessoas para voltar ao antigo normal. Isso se explica pelo longo tempo em que o coronavírus privou-as de liberdade, modificando hábitos, dificultando a convivência e fazendo a maioria se enfurnar em casa.

A casa existe como um contraponto da rua, é o lugar para onde se volta depois de sair (com todas as ressonâncias simbólicas que esse gesto possui).
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Önder Örtel
Ficar nela todo o tempo é não sair e, consequentemente, não voltar. O resultado disso é o tédio, o exaspero, a recorrência de ações previsíveis que pouco gratificam o espírito.

Muitos aproveitaram a quarentena para se dedicar mais às tarefas domésticas (aprendendo a cozinhar, por exemplo) ou aprimorar eventuais habilidades artísticas; a quarentena era uma boa oportunidade para trabalhar no esboço de uma tela ou tirar da gaveta o rascunho de um romance. Outros resolveram estudar uma língua estrangeira e acabar em definitivo com o complexo de, neste mundo globalizado, não saberem nada de inglês.

Independentemente do que se tenha feito, muito se aprendeu durante a pandemia sobre os homens – seus caprichos, temores, escolhas irracionais. Entre essas, a do negacionismo. Ainda não consegui entender o que leva certas pessoas a ir de encontro ao saber científico e negar a eficiência da vacina para debelar o vírus. Contestam a ciência sem nenhum embasamento, apenas pelo gosto de se insurgir contra o bom-senso e depreciar as medidas profiláticas. Essa postura ignorante e mesquinha não se ajusta a uma espécie que hoje manda civis ao espaço sideral.

Algumas vezes, como aconteceu entre nós, essa atitude partiu da autoridade máxima da nação. Quem devia inspirar o bom comportamento, visando ao bem da coletividade, preferiu dar o exemplo contrário. O resultado foi a maior disseminação do vírus e o aumento do número de mortes.

"Debate" ocorrido durante uma das sessões da CPI da Covid, presidida pelo senador Omar Aziz (PSD-AM) e relatada pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL)

Para punir os responsáveis pelo morticínio, instalou-se uma CPI cujos efeitos são imprevisíveis. A despeito dos testemunhos e provas, há muito ceticismo quanto à punição dos culpados. Em parte porque a comissão se transformou numa rinha política na qual há quem deseja punir os responsáveis pela inépcia na condução da pandemia e há quem se opõe a isso. Em parte porque o trabalho da comissão vem se estendendo demais e multiplicando o seu foco. Pode então perder a eficácia.

Se o que não nos mata nos fortalece, como disse o filósofo, os sobreviventes da pandemia sairão dessa experiência mais fortes. Mas será um tipo de fortaleza marcado pelo ressentimento e pela culpa, que turva um pouco o alívio de continuar por aqui quando tantos injustamente se foram.

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