Pois é... Um incidente de pequena monta entortou o calendário festivo e, em razão disso, a Capital da Paraíba terá o mais tradicio...

Folia na Quaresma

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Pois é... Um incidente de pequena monta entortou o calendário festivo e, em razão disso, a Capital da Paraíba terá o mais tradicional dos seus carnavais no sábado e no domingo que já nos chegam. Isso, quando a parte mais católica do País estará envolvida nos assuntos da Igreja. Falo, neste caso, das orações e dos jejuns. Trato das penitências da ala mais fervorosa. As multidões, de resto, não são dadas a sacrifícios
Carnaval Tradição de João Pessoa ▪ Ala Ursa Várzea Nova ▪ YT @culturapb-8777
espirituais, nem aqui nem na Conchichina, com o perdão da expressão tomada do tempo dos bailes de salão.

Lembremos. Na noite de 16 de fevereiro, quando do desfile da Ala Ursa pela Avenida Duarte da Silveira, um lance de arquibancada afundou sem grandes problemas além do medo e da correria do distinto público. “Peso em excesso”, diagnosticou o Corpo de Bombeiros que, de imediato, interditou por completo aquelas instalações, posto que seguro morreu de velho. Êpa!... E lá me vem outra expressão do tempo de Pierrôs e Colombinas.

O fim de semana, portanto, chegará a moradores e visitantes com algo além das praias, dos bares e da Bica, denominação popular do Parque Arruda Câmara, um Jardim Zoobotânico tido como a segunda maior opção de lazer da cidade depois dos banhos de mar. Chegará com o desfile interrompido de clubes de frevo, escolas de samba e tribos, grupos, estes últimos, que os pernambucanos têm como “Caboclinhos”. O acesso, como sempre, será gratuito, o que pode explicar o sobrepeso nas arquibancadas.

Carnaval Tradição de João Pessoa ▪ Tribo Tupi Guarani ▪ YT @TonnyFilmmaker
Os que isso nunca viram não devem esperar, é claro, a suntuosidade do carnaval de contemplação feito nos centros maiores com carros alegóricos capazes de tirar o fôlego, fantasias exuberantes, muitas celebridades e, vez ou outra, enredos polêmicos. Que o diga o Rio de Janeiro.

Os que por aqui gorjeiam não gorjeiam como lá, diria o poeta, desta vez, com palco invertido. É que os mais ricos cantam e dançam de melhor modo lá fora. Aqui, o Carnaval Tradição,
Carnaval Tradição de João Pessoa ▪ Blocos carnavalescos ▪ YT @Videomakeroficialll
assim inscrito no calendário turístico (mas não muito, acentuemos) é feito de agremiações em dificuldades financeiras brutais e, portanto, na crucial dependência de verba pública. Não que as escolas de samba cariocas, ou paulistas, dispensem os auxílios dos Tesouros Federal, Estadual e Municipal, apesar de outros patronatos não muito católicos. Por aqui, patrocínios privados sob o primeiro sol das três Américas? Nem pensar.

De todo modo, teremos desfiles carnavalescos na Quaresma paraibana. E não há como condenar isso. Afinal, depois de um ano de preparativos ao custo de suor, lágrimas e desembolsos pessoais, é preciso que todos estejam na avenida. Lembremos de que eles têm as flâmulas, as paixões e os campeonatos do futebol. Há quem por eles chore e brigue.

Confesso que não tenho blocos da minha preferência. Quando saí de casa para vê-los, assim o fiz, profissionalmente, a fim de contar cada uma daquelas histórias no jornal do dia seguinte. Nunca torci por escolas de samba cariocas, apesar de guardar na memória enredos indispensáveis à difusão universal da miséria gritante e dos males da censura. Mais do que sambas eram hinos contra a desigualdade e a injustiça. E as televisões do mundo cobriam (e cobrem) isso.

Ensaio 2026: Ala Ursa Várzea Nova ▪ YT @gustavodesouza_pb
Em suma, não gosto do carnaval de contemplação, seja, graciosamente, em arquibancadas que estalem e cedam, seja nas do Sambódromo, ao custo dos olhos da cara. Prefiro o carnaval participativo e no tempo correto, historicamente correto.

Quando moço, eu e meus iguais botávamos nosso bloco na rua. A exemplo do incrível Sérgio Sampaio, autor da música satírica, com “um quilo mais daquilo” e “um grilo menos disso”. Raul Seixas, não menos formidável, ajudou a popularizar aqueles versos metafóricos
Sérgio Sampaio: Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua (1973) ▪ YT @musicaboa248
e os generais não podiam fazer nada. Eles não percebiam as metáforas.

No nosso modesto jeito de brincar, eu e os meus nos dávamos por muito satisfeitos com bombos, uns poucos instrumentos de sopro, caras meladas, bebidas de graça no entra-e-sai das casas e com estandarte preparado por uma alma caridosa sorteada entre as costureiras de ocasião. Aquilo, sim, era festa popular. Tínhamos, então, a companhia de ursos e papangus.

Tenho dificuldade, hoje, em explicar para filhos e neto os carnavais dos meus 20 e poucos anos. Os blocos de sujo pela manhã, os corsos vespertinos em carros, camionetas, jipes de capotas arreadas e, à noite, os bailes de salão orquestrados para o deleite das famílias. Dançámos entre confetes e serpentinas e tacávamos lança-perfumes no pescoço das garotas. Tínhamos paixões de carnaval, com duração de quatro dias, embora algumas pudessem levar os apaixonados a compromisso posterior com o padre, ou com o juiz de paz.

Meus filhos, infelizmente, pouco conhecem, nesse campo, além da industrialização das prévias carnavalescas com abadás, camisas e ingressos bem pagos. Sabem da privatização dos espaços públicos e da segregação
Carnavais antigos ▪ YT @UmaHistoriaMais
dos “pipocas”, os sem-grana, os que pulam na insegurança do asfalto sem a proteção dos camarins e dos cordões de isolamento.

Sabem eles de críticas a tudo isso e, não menos, da defesa que se faz, abundantemente, do carnaval fora de tempo, o motor econômico que gera bilhões de reais por impulsionar o turismo, a indústria, o comércio, o emprego e os serviços em parte voltados para a confecção de camisas, abadás e bandanas.

Meus filhos e meu neto não viram o que eu vi, nem dançaram como dancei. Mal reparam na minha tristeza, mesmo quando recorro a velhas fotografias, algumas delas com a Colombina que me enfeitiçou, fazendo com que nascessem. Eu os perdoo, pois desconhecem o amargor das quartas-feiras. Nunca tiveram os passos e compassos no tempo exato, aquele que ia dos sábados gordos às terças seguintes. Pulam fora de época, como farão, incidentalmente, os blocos paraibanos do Carnaval Tradição. Meu Pierrô paraibano, enquanto isso, faz cair uma lágrima pelo seu Carnaval. Um Carnaval morto.

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