"Passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miúdas.
E me encantei.
... que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica, nem com balanças, nem barômetros etc.
Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.” (Manoel de Barros)
... que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica, nem com balanças, nem barômetros etc.
Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.” (Manoel de Barros)
Certo dia, assistindo a um documentário sobre o poeta do Brasil Central, Manoel de Barros, fiquei enternecida com aquele homem tão simples, de versos singelos e únicos, a dizer que não sabia fazer nada na vida e que o que mais gostava era ficar à toa. Identificação instantânea! Por favor, não me julguem arrogante; estou só me comparando ao não saber fazer nada e ficar à toa… Infelizmente, não sei fazer versos, ainda…
Manoel de Barros ▪️ Arte: Prosa
E, nesse papo de férias, duas amigas foram para Baía Formosa para descansar, e fiquei a passar o filminho sobre a minha relação com essa praia fronteira entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte, cenário de ocupação de surfistas e amantes das andanças nos anos 80, como eu, Guilherme Faulhaber, Glauce Caldas, José Palhano, Fred Pitanga, Marcelo Souto e tantos outros.
Baía Formosa (RN) ▪️ Foto; Gustavo Moura
Baía Formosa (RN) ▪️ Foto; Gustavo Moura
De tanto que gostávamos de ir para BF, José Caldas, pai de Glauce, construiu uma casa para que as filhas (Glauce e Mary), o genro (Gui Faulhaber) e nós, amigos de todas as horas, tivéssemos um lugar ao sol, em frente às pedras andarilhas de BF. E tínhamos Ieda e Décio Moura, com os filhos e namoradas; Raquel Cordeiro, Marconi Serpa e Lúcia; Valois; a poetisa Violeta Formiga (conversamos algumas vezes à beira-mar); Welligton, dono da última casa; Joca Macaco, Bitu, Ana Paula (Fina Fatia), Ana Cláudia Cantizane, Cristina Klosterman, Elze Quinderé e tantos outros. Sem falar nos moradores locais: D. Regina, D. Vandete, Zé Pretinho (depois surfista e viajante).
Ana Adelaide Peixoto e o filho Lucas ▪️ Foto: Gustavo Moura
Lembro de outra ida histórica, em que eu, Juca (ainda não meu marido, mas já meu encantador de estórias…) e Clélia Pereira saímos daqui num fusca e inventamos de ir a Bayeux, no caminho, para comprar cordas de caranguejo. A turma toda da farra lá estava a nos esperar. E viajei no banco de trás, com aqueles bichos pretos todos ouriçados… Mas, na juventude, tudo é motivo de risadas e diversão. Chegando lá, tarde da noite, caldeirão no fogo e tome baticum com os moradores do mangue. Tenho saudades dessa disponibilidade e abertura do ser jovem. Confesso que vivi. Mas confesso também que já perdi essa mesma facilidade de lidar com as férias de hoje.
Ana Adelaide Peixoto e Júlio Jardelino em Baía Formosa (RN) ▪️ Acervo da autora
E, em dias de chuva? Pouco importava: bebíamos, caminhávamos, namorávamos, jogávamos, dançávamos o mais novo hit de Elba Ramalho, ou “Coração Bobo”, de Alceu Valença, ou ainda Pink Floyd e Dire Straits. Minha sacola para BF vivia pronta, pois, quando chegava sexta-feira e Fred Pitanga e Marcelo Souto Maior diziam “Bora?”, eu já estava a caminho de Mamanguape. Pronta para o acaso. Pronta para aquele lugar mágico, lindo, ainda tão silvestre e bucólico, que me enfeitiçava e me fazia perder todas as estribeiras e limites. Cantar e dançar era preciso!
Baía Formosa, no Rio Grande do Norte ▪️ Fotos: Gustavo Moura
Os sonhos e também fantasmas ainda rondam aquele lugar que um dia foi palco de tanta intensidade das minhas férias.
Hoje me contentarei em pintar a casa e dar uns bons mergulhos. Água salgada é preciso, inclusive para clarear o passado, viver intensamente o presente e acolher o futuro.
E moramos todos na Filosofia!
* texto escrito há 15 anos




















