"Passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miúdas. E me encantei. ... que a importância de uma coisa não se mede com fita...

Palco de minhas férias

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"Passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miúdas. E me encantei.
... que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica, nem com balanças, nem barômetros etc.
Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.” (Manoel de Barros)
Certo dia, assistindo a um documentário sobre o poeta do Brasil Central, Manoel de Barros, fiquei enternecida com aquele homem tão simples, de versos singelos e únicos, a dizer que não sabia fazer nada na vida e que o que mais gostava era ficar à toa. Identificação instantânea! Por favor, não me julguem arrogante; estou só me comparando ao não saber fazer nada e ficar à toa… Infelizmente, não sei fazer versos, ainda…

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Manoel de Barros ▪️ Arte: Prosa
Sou desse tipo de gente que, pelo menos, acha que não sabe fazer nada. Falo de ter uma aptidão para fazer coisas em casa ou fora dela, ser prática, objetiva, resolver algo logo, logo. Por isso, sempre gostei tanto das férias, pois aí ficava livre de tudo quanto era trabalho e me entregava ao ócio. Mas, nesses últimos dois anos, mais precisamente, constato que já não sei tirar férias.

E, nesse papo de férias, duas amigas foram para Baía Formosa para descansar, e fiquei a passar o filminho sobre a minha relação com essa praia fronteira entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte, cenário de ocupação de surfistas e amantes das andanças nos anos 80, como eu, Guilherme Faulhaber, Glauce Caldas, José Palhano, Fred Pitanga, Marcelo Souto e tantos outros.

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Baía Formosa (RN) ▪️ Foto; Gustavo Moura
Coincidentemente, encontrei e não o reconheci (depois de mais de 30 anos) Ricardo Madruga, eleito um dos diretores do Sebrae, também frequentador assíduo desse lugarzinho idílico; na época, Ricardo Jorge. Quando nos reconhecemos…, fiquei novamente a pensar no tempo, nas pessoas e nos lugares. E em como o tempo ruge! Como tão sabiamente brada outra amiga.

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Baía Formosa (RN) ▪️ Foto; Gustavo Moura
A primeira vez que fui a BF, ela era uma vila de pescadores e surfistas. Chicó e Joca Moura, ainda meninos, foram alguns dos divulgadores do recanto. Como era 1980, estava numa fase de madrugadas. Saímos daqui à noitinha, mas parando em todos os botecos estrada afora. A parada para macaxeira com carne de sol, em Mamanguape, era obrigatória. Resultado? Chegamos a BF às 3 horas da manhã e nos arreamos num terraço qualquer. Para meu espanto, de manhã conheci seu dono: Jorginho Ribeiro Coutinho, gente boa e amigo de infância, que até hoje não entendeu nada daqueles hóspedes intrometidos. Era uma época ainda de “bom dia”, “boa tarde”, e nós não nos enfezávamos tanto com os vizinhos, intrometidos ou simplesmente com jovens irreverentes.

De tanto que gostávamos de ir para BF, José Caldas, pai de Glauce, construiu uma casa para que as filhas (Glauce e Mary), o genro (Gui Faulhaber) e nós, amigos de todas as horas, tivéssemos um lugar ao sol, em frente às pedras andarilhas de BF. E tínhamos Ieda e Décio Moura, com os filhos e namoradas; Raquel Cordeiro, Marconi Serpa e Lúcia; Valois; a poetisa Violeta Formiga (conversamos algumas vezes à beira-mar); Welligton, dono da última casa; Joca Macaco, Bitu, Ana Paula (Fina Fatia), Ana Cláudia Cantizane, Cristina Klosterman, Elze Quinderé e tantos outros. Sem falar nos moradores locais: D. Regina, D. Vandete, Zé Pretinho (depois surfista e viajante).

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Ana Adelaide Peixoto e o filho Lucas ▪️ Foto: Gustavo Moura
Durante muitos anos, íamos a BF todo carnaval, Semana Santa, férias, feriadões e feriadinhos. Um ou dois biquínis, um par de havaianas, uma camisola/túnica branca de renda, saiões, camisetas e tops, e pronto, a festa estava feita. Uma das fotos mais lindas que tenho foi num fim de tarde, queimada de sol, com mecha descolorida no cabelo, Lucas pequenino nos braços. Foto do artista Gustavo Moura, habitué também das baladas em BF. Aliás, por conta de um carnaval com Lucas pequeno, tive uma caranguejeira numa noite em que não dormi de medo; esticadas até a praia próxima, Sagi; e tantos outros destinos, como Pipa, que, naqueles tempos, só tinha jangada e homens do mar. Lá acampei, grávida de dois meses de Lucas, saindo atrás dos caboclinhos pela beira-mar. Ah! Que saudade desses carnavais.

Lembro de outra ida histórica, em que eu, Juca (ainda não meu marido, mas já meu encantador de estórias…) e Clélia Pereira saímos daqui num fusca e inventamos de ir a Bayeux, no caminho, para comprar cordas de caranguejo. A turma toda da farra lá estava a nos esperar. E viajei no banco de trás, com aqueles bichos pretos todos ouriçados… Mas, na juventude, tudo é motivo de risadas e diversão. Chegando lá, tarde da noite, caldeirão no fogo e tome baticum com os moradores do mangue. Tenho saudades dessa disponibilidade e abertura do ser jovem. Confesso que vivi. Mas confesso também que já perdi essa mesma facilidade de lidar com as férias de hoje.

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Ana Adelaide Peixoto e Júlio Jardelino em Baía Formosa (RN) ▪️ Acervo da autora
Em Baía Formosa se estabeleceu Rosana Maciel, minha amiga de infância, que há quase uma década virou estrela. Fábio Peixe ficava todo alvoroçado quando chegava de viagem e sabia que lá estávamos. Klebinho, uma vez, tomou uma carraspana tão grande que, por entre redes espalhadas no terraço, confundiu-se com a porta do banheiro — e já viu, né? Xixi ao acordar.

E, em dias de chuva? Pouco importava: bebíamos, caminhávamos, namorávamos, jogávamos, dançávamos o mais novo hit de Elba Ramalho, ou “Coração Bobo”, de Alceu Valença, ou ainda Pink Floyd e Dire Straits. Minha sacola para BF vivia pronta, pois, quando chegava sexta-feira e Fred Pitanga e Marcelo Souto Maior diziam “Bora?”, eu já estava a caminho de Mamanguape. Pronta para o acaso. Pronta para aquele lugar mágico, lindo, ainda tão silvestre e bucólico, que me enfeitiçava e me fazia perder todas as estribeiras e limites. Cantar e dançar era preciso!

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Baía Formosa, no Rio Grande do Norte ▪️ Fotos: Gustavo Moura
Não saberia dizer quantas férias, dias e viagens tive o privilégio de ter em Baía Formosa, mas foram tantas e tão distintas circunstâncias que os anos passaram e nunca mais fui lá. Na década de 90, ainda fui como turista. Lembro da estrada que chegava lá, como era bonita, com suas pontes e mangueiras. E lavadeiras lavando suas roupas na beira do rio. E lembro de como a vida era mais simples. Levava um shampoo, um sabonete, um óleo de urucum, um hidratante, duas mudas de roupa, uma mochila, e tudo estava perfeito para dois, cinco ou dez dias de alumbramento — e para enfrentar diarreias infantis de verminoses e, anos mais tarde, uma hepatite. Brito de D. Vandete ou ainda de tomar uma com D. Regina.

Os sonhos e também fantasmas ainda rondam aquele lugar que um dia foi palco de tanta intensidade das minhas férias.

Hoje me contentarei em pintar a casa e dar uns bons mergulhos. Água salgada é preciso, inclusive para clarear o passado, viver intensamente o presente e acolher o futuro.

E moramos todos na Filosofia!
  * texto escrito há 15 anos

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