Todo dia, que já é diferente dos demais, pego meu caderno de rascunhos, uma caneta que não arranha o papel, e desço para escrever no banco da praça. Como faziam os poetas antigos, aqueles que tinham o privilégio do tédio e da contemplação, com bem mais competência que eu. Perco mais tempo para escolher a camisa e a calça para sair do que para escrever. Porque quando estamos em frente ao espelho, inicia um embate na busca do contentamento.
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É a falta de paz frequente que nos assola.
Quando finalmente chego na praça, o sol já está alto, desses de meio-dia de janeiro que fazem a gente entender por que existe a palavra "canícula". A praça estava quase vazia, somente um senhor no banco da frente, distribuindo migalhas de pão dormido para os pombos, e uma menina, dessas que ainda usam lacinhos no cabelo, correndo atrás de uma bola de plástico colorida.
A página em branco do meu caderno de anotações me observa com cara de desafio. Passei os olhos ao redor, buscando uma faísca de inspiração. Foi então que vi, ao lado do banco, uma flor amarela que parecia ter engolido um pedaço do sol. Era uma daquelas flores de jardim que a gente compra no vaso, mas ali ela estava solitária, brotada não se sabe de onde. Uma semente levada pelo vento, talvez, ou um descuido de algum jardineiro.
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Fiquei olhando para a sua coragem desmedida de florir no meio do cimento, parecida com a força de um germinar de óvulo à espera de seu parceiro para gerar um novo ser. Pensei em fotografar, pensei em escrever um poema, pensei em arrancá-la para levar para casa e colocá-la num copo d'água, como quem tenta aprisionar a beleza.
Nesse meio tempo, a menina do lacinho passou correndo atrás da bola, parou, voltou. Ajoelhou-se no chão com a graça desengonçada que só as crianças têm. Estendeu a mão, e com a
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mesma naturalidade com que segundos antes corria atrás da bola, colheu a flor. Levantou-se, cheirou a flor, e saiu correndo, a flor amarela dançando em sua mão como uma pequena bandeira.
Fiquei ali, com o caderno aberto, a caneta na mão, e uma súbita e absurda sensação de perda. Quis rir da minha própria tolice. Que direito eu tinha sobre aquela flor? Não era minha, não era de ninguém. Era da vida, apenas isso. E a vida, na sua sabedoria silenciosa, a entregou a quem soube o que fazer com ela no momento exato. A menina não pensou no amanhã.
Não cogitou fotografá-la para o Instagram. Não fez planos de pressioná-la num livro. Simplesmente sentiu a urgência daquela beleza, atendeu ao chamado, e a tornou parte da sua brincadeira. Ela, com a flor na mão, já devia estar em casa, mostrando o tesouro para a mãe, que provavelmente colocaria num copo d'água, fingindo que duraria para sempre.
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Fechei o caderno. Guardei a caneta, não escrevi uma linha sobre o que vi. Ou melhor, escrevi agora, horas depois, não sobre a flor, mas sobre o vazio que ela deixou, e sobre como a vida, para ser plena, precisa ser colhida no instante exato em que floresce, mesmo que seja para murchar cinco minutos depois, esquecida no bolso de um vestido cor-de-rosa. As coisas duram o tempo que devem durar. O segredo não é tentar segurá-las, mas saber reconhecê-las quando elas, por um breve e luminoso instante, resolvem brotar no meio do cimento.