A leitura do mundo sempre me inibiu. São tantas, diversas e necessárias, que teimei em conter as minhas, quando afloram, para meu própr...

O ofício e a hesitação

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A leitura do mundo sempre me inibiu. São tantas, diversas e necessárias, que teimei em conter as minhas, quando afloram, para meu próprio uso. Daí a inibição ante assuntos fora do meu domínio, da minha vivência.

Cedo, embora a muito custo, consegui elaborar um texto que a chefia de redação julgara apto a compor a coluna de sueltos e mesmo o editorial do jornal. Não me seria fácil; sentia-me como ainda me sinto
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hoje: sem desenvoltura no trato da maioria dos temas ou assuntos, eu próprio consciente da imaturidade profissional e desprovido de formação acadêmica.

A realidade das redações em que lograra ingressar mostrava-me isso. O Norte com José Leal, autodidata com anos e anos de trato com as luzes da História do seu estado, do seu país e mesmo das matrizes de nossa colonização. Ele, ao lado de Dulcídio Moreira, havia não somente acompanhado os lances da Segunda Grande Guerra, como vivido, dada a grande responsabilidade, através da radiotelegrafia de então, de captar e apurar o noticiário de cada dia da guerra europeia, sofregamente acompanhada pelo Nordeste brasileiro, com sede em Natal, de uma base aérea cedida aos americanos em troca do apoio à instalação de nossa siderúrgica pioneira.

Com vinte e poucos anos, eu tinha minhas ideias, mas a visão histórica era mais dos livros do que própria. Percebia muito bem esse desfalque, não por entre as páginas da historiografia, mas da literatura, com
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sua prosa rica de tipos, de situações, do homem por fora e por dentro. Os Thibault, de Roger Martin du Gard; O mundo que eu vi, de Stefan Zweig — o mundo da Primeira Guerra Mundial.

Mas, quando Sá Leitão Filho, um dos editorialistas, teve de se ausentar de A União para dedicar-se à advocacia, tremi nas bases ao ser chamado pelo velho Wilson Madruga, nosso redator-chefe, avisando que ia indicar-me para revezar o editorial com Juarez Macedo. Era uma promoção, sem dúvida, mas lhe pedi para pensar. Um ou dois anos antes, eu tinha sido levado ao governador, autoridade muito além dos meus cálculos, por conta de manchete meio engraçada que abrira com o fracasso de um foguete interplanetário americano, em cuja manchete, em vez de “cair”, saiu o debochado “gorou” da nossa linguagem popular, marcadamente paraibana. O foguetão que não explode gora; o ovo podre é goro.

Não é difícil que esse receio antigo tenha me trazido para a crônica, para a primeira pessoa do prosador que sonhei ser, liberto do padrão, do autocontrole que o comentário impessoal, sem assinatura, minimizado como suelto, nos obrigava.

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