Um cordel não "em português", se assim posso dizer, mas português "da gema", vivido e vivenciado no coração da Amazônia. Assim é o cordel que hoje vos apresento, para não perder o tom português. Peço que "ultrapassem" minha digressão até chegar à parte em que falo sobre o referido cordel. Adianto que tudo, na minha mente, tem a lógica da "introdução", desta vez sobre essa linda forma de literatura, o belíssimo cordel, e que, sim!, correu tanto o mundo que agora tem um português escrevendo um sobre
Pátio do Instituto de Letras da UFRGS, em Porto Alegre ▪ Fonte: GMaps
a Amazônia, ilustrado por uma pernambucana e musicado por um gaúcho. Calma, logo tudo será "esclarecido"!
Gratidão total ao que o universo me trouxe neste ano — bem como em outros, por mais desafiadoras que tenham sido certas situações. Tudo é parte do que "nos faz"; tudo fica impregnado em nossas células para dar forma a quem somos, como crescemos e quem seremos. E nisso entra a literatura deste ano — explico: o que o universo trouxe a mim até agora. Muito mais está por vir, no porvir (que tal a tentativa de ser engraçada?).
Como disse um querido amigo de 91 anos, que me apresenta a todos como "esta é minha filha postiça": "Minha querida, acostume-se com a ideia – o que estás colhendo é só o começo. O Criador já designou para ti coisas ainda melhores!". E eu, que já estava grata por tantas bênçãos recebidas, fiquei mais curiosa ainda "pela vida"!
Escada de acesso ao Instituto de Letras da UFRGS, em Porto Alegre ▪ Fonte: GMaps
Vamos aos fatos, como muitos dizem: em abril e maio fui responsável por um módulo sobre o Romantismo europeu na UFRGS, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a qual detém excelente nota na América Latina. Confesso que achei que seria para alunos da chamada — no Brasil — graduação. Mas aí começa a segunda ou terceira surpresa: era para alunos de mestrado e doutorado. Dentre eles, estava um que já é professor de Biologia na mesma universidade, Gonçalo Ferraz.
Gonçalo Ferraz, biólogo, professor e poeta português. ▪ Imagem: YT Matinal
Como é também escritor, queria ouvir algo mais sobre literatura e matriculou-se no "tal" módulo sobre o Romantismo.
Na primeira aula, pedi que os alunos se apresentassem, para conhecê-los um pouco. Nesse momento, Gonçalo mostrou uma caixa com — direi — pequenos cadernos coloridos, forma típica de venda de cordéis. Naquele primeiro dia achei isso muito interessante, mas, por falta de tempo para aprofundar-me na história com perguntas, prossegui com a aula.
Quando gosto de um livro, eu o recomendo. Perguntam-me "qual é o seu livro favorito?" e não sei falar sobre apenas um. Se eu tivesse meeesmo que escolher, acho que falaria sobre "um escritor favorito". E por país. Contaria sobre Charles Dickens (1812-1870), por mais cliché que seja, na Inglaterra. Para manter o cliché, adiciono Jane Austen (1775- 1817), as irmãs Brontë (século XIX) e George Orwell, nascido na Índia (1903-1950). Mais um cliché — adoro: Balzac (1799-1850), Jules Verne (1828-1905) e Jean-Paul Sartre (1905- 1980), na França. José de Espronceda (1808-1842) e Olga Xirinacs (*1936), na Espanha. Mário Cesariny (1923-2006), Mariano Calado (1928-2022) e, é claro, Fernando Pessoa (1888-1935), em Portugal. Da Índia, recomendo fortemente Harivansh Rai Bachchan (1907- 2003).
Brasil? Claro! José de Alencar (1829-1877). Sim! Excepcional, a meu ver. Não posso deixar de incluir na minha lista o genial Machado de Assis (1839-1908) e o grande Ariano Suassuna (1927-2014), não sou sacrílega. Mas serei agora: literatura é (quase) uma religião. Escrever é (quase) uma religião. Coloquei "quase" para não ser 100% herética. Para defender-me, talvez surpresa para quem me conhece, talvez não, finalizei há pouco a leitura do primeiro livro de "Reis", com os momentos finais do reinado de Davi. Spoiler: nenhum livro ou filme terá tanta estratégia e intrigas. Leitura da maior qualidade.
Felisberto Hernández (1902–1964), escritor, pianista e compositor uruguaio. Sua obra reúne memória, cotidiano e elementos fantásticos em contos que influenciaram autores como Julio Cortázar e Italo Calvino.
E, como se deixa no prato o que se gosta mais por último, vamos à minha tese de doutorado: o absolutamente genial Felisberto Hernández (1902-1964), tema de minha pesquisa. E, na onda uruguaia, o autor Mario Benedetti (1920-2009) e seu livro "A Trégua". Fenomenal do princípio ao fim.
Dito (ãh... escrito) tudo isso, os leitores podem ter uma boa ideia sobre meus gostos e minha personalidade. Romântica? Não. Mas... adoro um bom romance, escrito ou filmado. Ficção científica? Sou obcecada. Filosofia? Já passou de obsessão para "como o ar que respiro".
E, após discursar sobre todos esses autores "maiores que a vida", e ter deixado muitos fora da minha lista (senão não conseguiria concluir este artigo-crônica), este é um bom momento para apresentar o "Cordel do Corte Raso", que passou a ser uma de minhas leituras — ou escutas — favoritas e que recomendo completamente.
O "Cordel" é "liberado", como nos folhetins de outrora: um capítulo por semana, declamado pelo próprio autor, Gonçalo Ferraz, já mencionado, professor que viveu por quase uma década na Amazônia. Até aí pensaríamos:
"Ah, sim, um cordel, coisa do Norte-Nordeste". Mas ele é português de nascimento, lisboeta. E é justamente por isso que o "Cordel" mais me chamou a atenção.
É primoroso! Cada rima, cada "gancho" da fala anterior — impossível de prever — está indelevelmente interligado, como as raízes de nossas milenares árvores amazônicas ao solo da "terra-mãe gentil", que se destrói todos os dias. Um cordão umbilical arrancado por motosserras.
O corte raso é a remoção completa de toda a vegetação de uma área. E como conhecemos isso! Mas... por notícias de TV. Gonçalo, porém, conhece esse fato ao vivo. E é por isso que seu "Cordel" ganha uma dimensão ainda maior: ele testemunhou esse corte. Daí o nome do cordel.
Nos 26 capítulos (com preâmbulo e epílogo, embalados por um lindo solo de violoncelo de Lucas Duarte e com desenhos de Nena Borges), vamos conhecendo a história — ou estória? — do protagonista Rodrigo Dias Vilar, através de barcos (os recreios amazônicos), contos sobrenaturais e um triângulo amoroso. Como não esperar com curiosidade pelo próximo capítulo?
Conversando com Gonçalo, descobri mais particularidades. E mais impressionada fiquei! Ele me disse, durante um café que não tivemos, que decora os versos e só então grava a declamação do cordel. Sim, foi isso: combinamos um café em uma charmosa livraria, mas, chegando lá, o café havia acabado. Mesmo assim, sentamo-nos e conversamos por uma hora. Eu, pensando em entrevistá-lo para esta crônica. Mas não o fiz: o que ele contou foi muito melhor do que respostas para minhas possíveis perguntas-cliché (de novo um cliché). Trocamos nossos escritos: ele, com os novos cordéis coloridos, impressos, cortados e dobrados manualmente por ele, até o número 11; eu, entregando-lhe meu livro "Psicopata Familiar".
Assim também conheci a livraria Bancaberta, e deixei um livro lá, para que mais pessoas conheçam o "Psicopata Familiar" e se protejam deles.
Após ficar admirada com os detalhes do trabalho de Gonçalo, perguntei de onde vinha a inspiração para as rimas – algumas das quais também decorei. Ele declamou um trecho de um dos cordéis e me disse que a inspiração vem quando está caminhando. Acredito nisso (pois uma vez eu mesma disse algo parecido na TV, em uma entrevista sobre a criação de pinturas; não cabe entrar em detalhes agora). Mas, mesmo concordando com sua resposta, não pude deixar de ficar impactada ao presenciar tão excelente memória por parte de Gonçalo. Dizem que eu tenho uma memória à prova de quase tudo, mas — gasp! — preciso, algumas ou até muitas vezes, escrever sobre ideias, datas, etc. Senti-me até um pouco envergonhada. Aqui, apenas um toque de humor, pertinente à minha personalidade.
Quem quiser ouvir o autor e descobrir o "Cordel do Corte Raso" basta acessar a playlist com esse nome no perfil de Gonçalo Ferraz na plataforma SoundCloud, em qualquer navegador de internet, onde encontrará os capítulos já publicados. Garanto que vocês esperarão pelo próximo episódio com tanta expectativa quanto eu!
Para ilustrar o que digo, deixo aqui um pequeno trecho do Preâmbulo:
Quem já viu nascer o dia
por cima de uma floresta
que abarca todo o horizonte,
ganha uma visão modesta
de outras belezas terrenas,
respeita as coisas pequenas,
dá mais valor ao que presta.
Quem já se perdeu no mato,
guarda a lembrança e lição
que a liberdade sem rumo
tem angústias de prisão
e que a mesma natureza
que nos põe comida à mesa
faz de nós a refeição.
E não se engane o descrente
pois nem tudo o que é comida
se mata de unhas e dentes. (...)
Mas sempre ao amanhecer
a beleza engana o drama
como quem fia de dia
e à noite desmancha a trama
pois a mão que ata e desata
faz como o tronco na mata
que esmaga, mas também ama.