Quando o oftalmologista finalmente me disse: “A catarata chegou!”, eu fiquei um pouco atônita. Há alguns anos esperava por ela. Minhas amigas já tinham feito essa cirurgia, e a minha demorou um pouco a se anunciar. Não fiquei triste pela cirurgia em si, mas pelo marcador da velhice que essa cirurgia representa. Meus olhinhos envelheceram. Também pudera!
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Em fevereiro passado, fiz cirurgia de catarata do olho esquerdo. Surpreendentemente, não tive medo. Mas acordei no meio do procedimento, vi muitas luzes brancas e falei, amedrontada: “Estou acordada e vendo tudo!”. Mas não senti mais nada. Chegando em casa, claridade e colírio a cada três horas. A técnica de uma gota certeira no olho operado também é difícil. Levei alguns dias para acertar essa pontaria. Como o tempo passa rápido nessas circunstâncias, e, a cada vez que o despertador tocava, eu dava um pulo e me perguntava: “Que diabo esse bicho tá tocando?”. O cérebro é uma graça! Nos engana a toda hora.
Depois, fiquei um pirata! Um olho com grau e outro sem. Tive que pôr lente de vidro no outro olho e assim vivi os últimos três meses, para, na semana passada, operar o olho direito. Tudo parecido. Acordei também e fiquei vendo as tais luzes e respondendo ao que o médico pedia: “Baixe o olho!”.
Tudo igual. Luzes, colírios e tédio. Sem poder ler ou ver TV, assistir a filmes, fica-se a olhar para o teto por dois dias. Ainda bem que dormia e falava ao telefone, para as tais horas passarem. Mas as do colírio se apressavam. Nesses momentos de solidão, a gente viaja pela vida e
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pelo passado, por certo. Ouço as pessoas falarem que não se deve ficar preso ao passado. É vero! Mas, quando já se fez catarata, um marcador de idade, o presente está intrinsicamente ligado ao passado. E ele volta, permanece, foge, se transfigura, se fantasia, nos assusta e foge de novo. E impõe a sua presença. Aceitemos.
Nesses dias, imersa no não fazer nada, assisti a um filme: Minha Querida Senhorita (Netflix). Uma jovem de família tradicional descobre que é intersexo. Sua jornada é em busca do autoconhecimento, da identidade de gênero e do amor em lugares inesperados. Um outro trabalho me impressionou: a série Pela Metade (Half Man – HBO), sobre dois irmãos não sanguíneos e a influência de um sobre o outro, mas também sobre uma violência sem precedentes na juventude, no sexo e em uma masculinidade tóxica e desesperadora. Os dois exemplos me fizeram refletir sobre a violência que é a vida dos homens e dos papéis preestabelecidos e construídos numa sociedade que impõe e exige esses tabefes vida afora.
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Agora que já se passaram alguns dias, ando com síndrome de abstinência dos meus óculos. Uso esse objeto desde os meus quinze anos. Pouca miopia, mas, muito jovem ainda, beirando os 40, comecei a usar grau para perto. Quando acordo, a primeira coisa a procurar são os meus óculos. Para escovar os dentes e começar o dia. A mesma coisa à noite: a última coisa a me deixar nos travesseiros. Agora, não acredito que possa enxergar sem os óculos (gastei uma fortuna por lentes de última geração, pensando no conforto da velhice), e fico a procurar os meus óculos o dia todo. Sem falar que esqueceram de avisar ao meu cérebro que já não vou precisar mais dos meus óculos para enxergar bem. Ele teima em enxergar nublado! Estou no modo adaptação para esse novo visual. Sem falar que sou viciada em ótica. Em óculos de todos os formatos e cores. O que será de mim? Claro que continuarei a comprar óculos, com a vantagem de que agora não precisarei mais investir em lentes caras e perfeitas. Poderei inovar em óculos mais fashion e lentes amarelas e azuis!
Sem os meus óculos, ando me sentindo nua e sem perspectiva. Sem foco. Acordo tateando as margens da minha cama ou a mesinha de cabeceira e nada. Os meus óculos de pirata não servem mais, e sinto uma falta no meu rosto.
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Um rosto pelado e sem os aros circundando os meus olhos, já com pálpebras caídas e bolsas de gordura indesejadas. Sim, sei que não deveria me detonar dessa forma. Autoestima baixa, que nada, noção de realidade mesmo. O espelho me espiando de perto. Com cabelos brancos à minha revelia, os óculos também poderiam ser uma muleta, um adorno para compor um corpo que cai, literalmente. Agora mais essa: me acostumar com uma outra aparência, como se já não bastassem tantas novas adaptações. Mas fico rezando os meus mantras: “Ana, não reclame, não reclame! Tem coisa pior”. E como tem! Depois de passar por alguns perrengues de saúde nessa vida, não vai ser uma cataratazinha e meus óculos inúteis agora que vou ficar triste e à procura desse objeto não identificado.
Semana que vem, tenho retorno no oftalmologista para checar essas lentes que agora fazem parte do meu corpo amanhecido... e vou pedir uma receita pouca, para providenciar um par de óculos vermelhos ou roxos. Radicalizar logo essa saudade orgânica de uns aros que não mais me pertencem.
Que venham as letrinhas miúdas. Vou devorá-las todinhas!