MONÓLOGO PARA A MORTE Morte, quando o seu silêncio interromper a minha escolha pelo silêncio, e me impedir de seguir artífice das c...

Só o vento sabe ouvir os conselhos da areia

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MONÓLOGO PARA A MORTE
Morte, quando o seu silêncio interromper a minha escolha pelo silêncio, e me impedir de seguir artífice das contradições humanas frente à beleza, espero ter forças para fechar os olhos. Sei que falo para sua indiferença biológica, mas é no costume da fala que me mantive lúcido, vasculhando este simulacro de eternidade chamado consciência. Não estarei sob uma pedra, nenhum féretro irá dispor dos meus ossos, ocuparei uma fenda no princípio de minha despedida e causarei um sorriso de amor em minhas adoradas almas-irmãs. O que roubei do eterno, neste lapso do acaso em que o ar se achegou à minha inquietação, tentei compensar com olhos de devorar náufragos e perseguir ninfas. (ponto posto não permite o resgate) PASSATEMPO
Quisesse o molde pertencer ao homem que soubesse impor ao tempo um rolar descompassado; mas qual sabido entenderia a arte de responder os ponteiros aos acordes do Sol? Pensando bem, somente o vento sabe ouvir os conselhos da areia. O humano se presta à liga dos anzóis diante da plasticidade do abismo. FLUIDO E CONSCIÊNCIA
Quantas vezes fui água despercebida no derramar de uma enchente Sem a suspeita dos olhos, fluía sem a consciência de empreender caminhos nos descabidos do mundo Mas já quase nada de anônimo restou comigo É que me ergui no assombro dos dias, fui este acaso que brota no portal de um corpo e se surpreende ao interpretar um sorriso Aprendi dos passos que levam e trazem surpresas, e que se passa muito rápido pela beleza — e isto é um desatino E me debrucei nas pontes e não me desfiz em salto E me escutei a discutir mistérios Tornei-me um cúmplice seduzido pela enormidade do abismo, buscando entender se a despedida justifica tamanha paixão pela vida. PAGADOR DE PROMESSAS
Era rente, a reta inevitável ao abismo, e a suspeita, um aviso do fim dos ladrilhos, pedia uma pausa, mas avançava percorrendo o nada. — Não se percebe que a certeza também descarrilha. UM DESAPARECIMENTO
Não se rói a corda do destino, mesmo sendo ele uma criação humana. Não se ignora um consolo ou um estímulo. ADEUS
Pouco a pouco iniciaram os acenos. A morte, esta intrusa obstinada, se lançava sobre as mãos jovens em sua busca inútil de alcançar a vida. E olhávamos para o acaso e nos rebelávamos. Alguns olhos já não retornavam à nossa casa; faltavam ao melhor da vagabundagem, e permanecíamos em uma inabalável incredulidade no tempo. (Mas os sorrisos contam para a certeza da existência, e principiava a saudade.) Antes conseguiam contar as ausências, mas o atordoamento fez tombar os dedos, e passamos a repisar caminhos, de mãos dadas, na perene estrada ao evanescer das cores em nossa memória. ENCONTRO
Tenho encontrado algumas casas onde posso deitar na terra, sentir as raízes dos homens; o distrato com as causas perdidas. Os que partem, os que festejam, os passos aleatórios, o anonimato de algumas vozes, são o feixe das vidas que aprendo — o nome das casas. É no reboco, no desmantelo das tintas, que estão as histórias, o emaranhado do tempo das mãos, o limite dos segredos das paredes. Tranco a porta quando encontro estas casas, busco em seu silêncio a traição das verdades transitórias e se algum nome se confunde com o meu.

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