Contam-nos as tradições do Além que, certa feita, aportou nas praias da vida espiritual um fidalgo de cartola invisível e punhos ...

A virilidade da alma e o punhal da ilusão

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Contam-nos as tradições do Além que, certa feita, aportou nas praias da vida espiritual um fidalgo de cartola invisível e punhos de ferro, ainda convulsionado pelo espasmo daquele domínio que a Terra chama de “honra”. Batia no peito a proclamar sua virilidade, enquanto suas mãos, no plano extrafísico, ainda pareciam rubras com o fluido vital daquela que ele chamava de “sua”. Na ignorância das leis do Espírito, ele acreditava que a destruição do corpo da amada selaria sua vitória definitiva sobre a autonomia alheia, reafirmando uma ilusão de honra que o tempo certamente destruirá.

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Pobre caminhante. Em seu paroxismo de posse, tentara interromper o progresso de outra alma com o golpe seco da matéria, julgando que o próprio direito pode invadir o espaço alheio em termos de justiça. Ignorava o varão o que a academia contemporânea e a doutrina espírita ensinam em uníssono: a força bruta não é o selo da masculinidade, mas o atestado efetivo de falência da razão.

O recém-chegado, estranho quanto ao mundo espiritual, foi conduzido a uma sala de reflexão, onde as paredes pareciam projetar as lições. Ele, que via a mulher como objeto, transformara a reificação do outro em funesto feminicídio, sem perceber que, ao anular a alteridade, desintegrava sua própria dignidade diante das leis universais.

— Onde está o meu direito? — bradava ele aos mentores presentes. — Eu era o senhor, o sujeito universal de que falava a velha metafísica!

Um dos instrutores, com a calma de quem já viu milênios de equívocos, respondeu-lhe:

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— Meu amigo, já devia saber que o Espírito não tem sexo. Perante as Leis Universais, não existem direitos diferentes para as expressões do sexo. O gênero — que caracteriza o ser encarnado — é, na verdade, um recurso pedagógico da Lei Divina. Você, que hoje se orgulha de uma virilidade agressiva, ontem trajou a túnica da fragilidade e amanhã, possivelmente, retornará ao mundo sob a égide do feminino para aprender que a verdadeira força não reside no músculo que fere, mas no caráter que edifica. O punhal da violência, lançado contra sua esposa, tirou dela a vida orgânica, mas feriu sobretudo a sua dignidade espiritual... Quantos dramas lhe assomam à existência... Quantas dores tecidas pela ilusão... Afastado voluntariamente do amor, que não soube expressar ou compreender, você tornou-se um réprobo moral cuja punição será engendrada na própria consciência. Doravante, será desafiado pelas dores e pelos sacrifícios que lhe permitirão expiar os erros e retificar o próprio entendimento. Será convidado a defender o direito feminino e sofrerá o desdém dos que ainda pensam como você... O erro cometido será seu convite a retificar as leis com o sacrifício do próprio orgulho. Será espezinhado e desafiado. Receberá afrontas e gracinhas que lhe ferirão o egoísmo equivocado e construído pelas próprias ilusões. Mas será no trabalho de defender o direito alheio que você compreenderá a noção do respeito a si e aos outros...

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O fidalgo estacou. A estatística factual da sociedade brasileira, com seus famigerados 6 feminicídios por hora, surgiu diante dele como um tapete de sombras. Cada número era uma alma cuja trajetória fora interrompida pelo ideal da razão masculina, distorcida e criminosa. O futuro exigia a retificação de direitos e a mudança de mentalidades. O fidalgo silenciou sua defesa e preparou a própria mente para uma nova experiência na carne. Silenciara em sofrimentos e cobranças. Após anos de dificuldade, em que a própria consciência respondia pelos crimes cometidos e pelas acusações de verdugos obsessores a lhe atormentarem a lembrança, voltaria enfim ao corpo de carne. Mas agora em berço feminino. Aprenderia a defender o direito próprio sob as vestes femininas...
A crônica da humanidade pede hoje, com urgência, uma educação para a paz. Não basta punir o braço; é preciso converter a mente. O verdadeiro homem, sob a ótica da filosofia espírita, é aquele que reconhece na companheira de jornada uma isonomia
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absoluta de direitos. A diversidade de funções — o cuidado, o labor, a maternidade ou a política — são apenas “especializações funcionais” para o progresso coletivo, e jamais pretextos para a usurpação da liberdade.

A virilidade real não se prova no controle do outro ou na sua submissão, mas no autodomínio das próprias sombras. É a ética do cuidado substituindo a dominação pela força. Enquanto o homem e a mulher não entenderem que a violência é um resquício da barbárie e que a igualdade é um imperativo da Razão e do Amor, continuarão a chegar ao Além com as mãos manchadas e o coração vazio, mendigando a luz que apagaram no lar que deveria ser o seu santuário.

Lembramos, pois, que o direito da mulher é o direito do homem. Iguais perante a justiça divina, devem ser concebidos como detentores de dignidade inalienável, assim como todos os demais gêneros identitários. Somente quando reconhecermos a soberania do outro em relação às próprias escolhas, sem as amarras da posse materialista, é que a sociedade humana poderá, finalmente, dizer-se civilizada.

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