Numa madrugada do ano de 1982, partimos de Teresina para Porto Velho, quase quatro mil quilômetros de distância. Ivan, Josafá, Mingo e...

Uma viagem na viagem

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Numa madrugada do ano de 1982, partimos de Teresina para Porto Velho, quase quatro mil quilômetros de distância. Ivan, Josafá, Mingo e eu, a bordo de uma caminhonete comprada na véspera. Tão ansiosos que nem emplacamos a possante; achávamos que a nota fiscal da concessionária bastaria. Não bastou.

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Logo no primeiro posto da PRF, dona confusão se fez presente. Após muita conversa, os gentis policiais concordaram em liberar a expedição, porém aplicando uma multa. Multa salvadora, porque fixamos o papel no para-brisa e, dali em diante, era só explicar, nos sucessivos postos da PRF, que já havíamos sido liberados lá atrás. E, pela estrada afora, seguimos bem contentes, apelando para que as granas que nossas famílias nos mandavam estivessem esperando no banco da próxima cidade, o que raramente acontecia. Era um sufoco, até que Mingo lembrou de uma grana que fora obrigado a esquecer em um banco de Rondonópolis. Foi nossa salvação.

Porém, a estrada para chegar até Porto Velho ainda estava sendo construída. Do Mato Grosso em diante, os tratores rasgavam a selva e dezenas de caminhões faziam fila para levar suas preciosas cargas, quase sempre rebocados pelos tratores nos seguidos atoleiros. E nós? Rebocados pelos caminhões rebocados.

Dali para a frente, nada de cidades, nem povoados. Comer o quê? A solução foi negociar, por dias seguidos, com os caminhoneiros o que podiam nos vender. Chovia constantemente. A lama
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impregnava tudo. Avançávamos poucos quilômetros por hora. A água era reservada para beber. O que não daríamos por um banho! Comunicação, zero, porque não existiam celulares. Dormíamos em redes penduradas nas laterais dos caminhões.

Naqueles dias que vivemos ao léu, lembro de lamentarmos a falta de notícias das famílias e do mundo, da falta de água e de comida decente, e muito mais. Porém, o que mais lembro era Mingo reclamando da falta de Coca-Cola. Resmungava o tempo todo. Nos longos dias e noites de abandono, chegamos mesmo a fazer as contas de quantas Coca-Colas ele consumia por semana, só para animá-lo.

Hoje, relembrando aqueles dias, mais do que nunca valorizo a solidariedade dos desconhecidos caminhoneiros, que nunca nos abandonaram.

E, finalmente, chegamos à primeira cidade: Vilhena. Gastei um **Alma de Flores** no primeiro banho. E fomos à forra na pizzaria, pouco importando que fosse dia de feijoada. Comemos tudo junto e repetimos muitas vezes. Mingo, enfim, tomou litros de Coca-Cola.

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Naquela noite, uma dor: soubemos que Elis Regina havia morrido alguns dias antes. "— Pelo menos para nós ela viveu mais alguns dias" — consolou-nos "My Name".

Ah, infame!

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