Os sufis contam uma história que vale mais do que muitos tratados de psicologia.
Numa sala afogada em trevas, acenderam duas velas.
A primeira fez o único trabalho digno de uma chama: iluminou. Não perguntou quem merecia sua luz, não fez discurso sobre generosidade, não exigiu aplausos. Apenas queimou. A luz existe para isso: gastar-se vencendo a escuridão.
A segunda não olhou para a noite. Olhou para a outra vela.
E começou a sofrer.
— Por que ela brilha mais?
Ali nasceu uma tragédia tão velha quanto o homem.
Em vez de alimentar a própria chama, decidiu desperdiçar a existência tentando diminuir a chama alheia. Aproximou-se para derreter a vizinha. Conseguiu um pouco. Mas descobriu, tarde demais, uma lei que a inveja jamais aprende: quem vive perto demais do fogo do outro acaba queimando primeiro.
Quando amanheceu, as duas haviam desaparecido.
A primeira deixou lembrança. A segunda deixou apenas um monturo de cera, um epitáfio ridículo para uma vida consumida numa guerra que nunca poderia vencer.
É exatamente assim que trabalha a inveja.
Ela quase nunca apaga a luz de ninguém. Em compensação, transforma quem a cultiva numa fogueira de ressentimento.
Talvez seja a doença mais humilhante da alma. A ira explode. O orgulho desfila. A ambição faz propaganda de si mesma. A inveja é covarde. Veste elegância, distribui elogios, oferece conselhos, sorri para fotografias e, enquanto bate palmas, rói o próprio coração.
O invejoso abandona a própria colheita para fiscalizar a plantação do vizinho.
Já não enxerga os dons que recebeu. Sofre pelos dons que não recebeu. O talento do outro lhe parece uma afronta. A felicidade alheia vira insulto. O sucesso de alguém lhe soa como um roubo cometido contra ele.
E assim desperdiça a única vida que possui espionando a vida dos outros.
Não existe miséria maior.
Cada ser humano recebe uma história diferente, provas diferentes, talentos diferentes. Deus nunca trabalhou com fotocópias. Revoltar-se contra isso é insinuar, com arrogância infantil, que o Criador administra mal o universo.
É aí que a inveja nasce: quando o homem resolve corrigir Deus.
Mas ela raramente aparece dizendo seu nome. Prefere vestir-se de crítica "construtiva", de ironia inteligente, de preocupação afetuosa, de amizade prestativa. Abraça enquanto mede. Elogia enquanto calcula. Sorri enquanto amaldiçoa. O preço chega sem fazer barulho. Quem alimenta ressentimento termina respirando ressentimento. A amargura muda-se para dentro. A paz pede demissão. A alegria passa apenas para uma visita rápida.
E nem mesmo a desgraça do invejado resolve o problema.
Porque o invejoso não queria justiça. Queria comparação. Derrubado um, ele procura outro. O defeito nunca esteve no brilho das pessoas. Sempre esteve na escuridão que ele se recusou a iluminar dentro de si.
Só existe um antídoto: o amor. Não esse amor de cartão-postal, mas o que sabe aplaudir sem fazer contas, admirar sem diminuir ninguém, aprender sem sentir vergonha e trabalhar sem transformar a vitória do outro numa derrota pessoal.
Em vez de perguntar: "Por que ele?", talvez fosse mais inteligente perguntar: "O que ainda me falta fazer?"
A luz de uma vela jamais diminui a chama da outra.
Também não vale responder à inveja com ódio. O ressentimento adora plateia. Alimenta-se da reação das vítimas. Continuar fazendo o bem é uma vingança sofisticada: vence sem precisar derrotar ninguém.
O invejado pode perder fortuna, prestígio, cargos ou aplausos. Tudo isso se reconstrói.
O invejoso perde algo infinitamente mais raro. Perde a paz.
A inveja é orgulho, egoísmo, ingratidão e revolta fermentando no mesmo veneno. Ela não começa destruindo o mundo. Começa destruindo o coração de quem a fabrica.
A cura é antiga e continua simples: fazer as pazes com a própria história, agradecer o que já recebeu, trabalhar pelo que ainda não conquistou e aprender, enfim, a celebrar a felicidade alheia como quem compreendeu que a luz nunca foi um bem escasso.







