F ui testemunha de sua presença, aqui na nossa capital. Vindo de Alagoa Nova, com quatro anos de idade, para aqui morar, foram os bondes que...

Fui testemunha de sua presença, aqui na nossa capital. Vindo de Alagoa Nova, com quatro anos de idade, para aqui morar, foram os bondes que mais me chamaram a atenção. Veículo seguro, limpo, nada de fumaça, o bonde corria seguro sobre os trilhos, quase sempre apinhado de gente. Gente sentada nos bancos, gente trepada nos estribos, gente pobre, gente rica, era gostoso ser passageiro dele, com o motorneiro lá na frente, e o cobrador, vez por outra, chegando para a cobrança. Aquela zoada fazia a gente dormir. Bondes para todos os bairros: Tambiá, Trincheiras, Cruz das Armas, Varadouro, que descia até o comércio da rua Maciel Pinheiro.

Muita gente gostava de pegar o veículo em movimento, o que implicava num grande perigo. Mas isso ficava para os mais jovens. Chamava-se “amorcegar” o bonde. Gente da alta sociedade não escolhia outro transporte. E uma senhora, professora, e, por sinal solteirona, pelo fato de haver alcançado o veículo, em movimento, e ter gritado “peguei-te”, ficou com esse apelido. Passaram a chamá-la, simplesmente “Dona Pegueite”. Foi o preço do seu arrojo.

Mas a verdade é que o bonde era o transporte mais procurado por todos, sobretudo pela segurança que ele oferecia. Ainda não havia táxis. Havia os carros de aluguel, que ficavam na praça do Ponto de Cem Réis, aguardando fregueses.

Se você desejava dar um passeio, lendo um livro ou um jornal, o bonde era a melhor opção. Um passeio terapêutico. Tinha gente que ia até o fim da linha saboreando aquele momento de muita paz. E não faltava namoro, namoro que terminava em casamento, como foi o caso do memorável arquiteto Clodoaldo Gouveia, com a sua Isaura, minha sogra.

Viajar lendo, viajar dormindo, viajar sonhando, viajar refletindo, o bonde proporcionava tudo isso. Vez por outra, o bonde parava para mudar o trilho, E quem fazia esse serviço era o motorneiro. Não me esqueço de um cobrador que apelidaram de “Caju Azedo”. Ora, vejam que maldade...

Bonde, que depois alcançou a praia de Tambaú, naquele tempo ainda deserta, só sendo procurada pelas famílias ricas para o chamado veraneio.

O bonde não chegava para quem queria. E como era gostoso ouvi-lo, altas horas da noite, correndo pelos trilhos! Todos os bondes desaguavam no Ponto de Cem Réis. Era a sua parada obrigatória.

O escritor Ascendino Leite, no livro “Minha Cidade” relembra, com muito humor, a presença daquele transporte na nossa vida cotidiana, e a chegada festiva dos bondes ao Ponto de Cem Réiis. cujos trilhos foram, estupidamente, arrancados, quando ainda hoje o bonde marca presença nas grandes metrópoles estrangeiras.

Agora é encerrar a crônica com o título acima: “Ah, sim, os bondes!” Bondes que ainda correm na imaginação do cronista. Bondes de “Pegueite”, de “Caju Azedo”. Bondes de todas as classes sociais. Bondes bons para pensar, refletir, sonhar, namorar.

Se você chegou até aqui, certamente está procurando um texto curto e simples para ler, em inglês, com o objetivo de aprender um pouco mais ...

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Se você chegou até aqui, certamente está procurando um texto curto e simples para ler, em inglês, com o objetivo de aprender um pouco mais o idioma. Comece, então, por essa pequena história.

E u estou ansioso para vê-la. Eu ou ele? Acho que é ele, o menino que ainda há em mim. Mas, ela veio de longe. Nasceu numa selva. Não sei se...

Eu estou ansioso para vê-la. Eu ou ele? Acho que é ele, o menino que ainda há em mim. Mas, ela veio de longe. Nasceu numa selva.

Não sei se foi casada. Viveu muito tempo trabalhando para os outros, sem receber gratificação. É verdade que foi muito aplaudida pelas multidões de vários países. Mas o que ela desejava mesmo era viver no país onde nasceu. Melhor dizendo, viver no seu habitat, longe das multidões, dos refletores, do barulho.

O leitor perspicaz, sem dúvida, já sacou. Estou me referindo à elefanta que veio morar em nossa cidade e que está se preparando para se apresentar ao público. Está hospedada, como já noticiaram, no Parque Arruda Câmara, ainda se aclimatando, para depois se apresentar ao público, notadamente, ao público infantil ou aos adultos com espírito de criança.

As nossas colunas sociais, a começar pela do amigo e vizinho de página, Abelardo Jurema, não noticiaram a sua chegada à nossa capital. Mas não faltará oportunidade para que o colunismo social lhe dê o merecido destaque à aparição pública da mais nova pessoense. E eu já estou imaginando a nossa elefantazinha sendo objeto do noticiário, não só dos jornais, da TV, mas até da Internet. Tomem nota do que estou dizendo, a nossa, hoje paraibana elefantazinha (que tal promovermos um concurso para a escolha de seu nome?), vai se constituir numa das nossas melhores referências turísticas. O menino que há em mim está ansioso para vê-la, agora no seu verdadeiro ambiente. Não mais num circo, mas rodeada de árvores e outros animais.

O prefeito Cartaxo não deve ficar indiferente ao acontecimento turístico e ecológico. Espero vê-lo no parque, na ocasião de seu debut. Mais ainda, espero vê-lo fotografado junto da agora paraibana elefantazinha. O próprio governador Ricardo também deve estar presente ao poético evento.

Mas vamos terminar a crônica. Que o atual diretor do Parque Arruda Câmara procure dar maior realce a essa aparição pública da nossa elefantazinha. Que os nossos colégios levem as crianças até aquele paraíso verde, que espero não esteja contaminado pela poluição sonora e outras sujeiras.

E o nome da jovem? Repito: que tal um concurso para sua escolha? Mas, o importante, agora, é a sua aparição pública. Vamos vê-la?

D epois da Rua Nova, que motivou tantas evocações que o tempo ainda não conseguiu apagá-las, que tal apertarmos a memória e desvendar outros...

Depois da Rua Nova, que motivou tantas evocações que o tempo ainda não conseguiu apagá-las, que tal apertarmos a memória e desvendar outros caminhos adjacentes e que tanto me encantaram, a começar pela Igreja São Francisco, cujo pátio mereceu minha reverência, mas que eu, juntamente com a meninada de minha infância, fi-lo campo de futebol? Campo de pedra e não de grama. Pedra histórica, mística, merecedora de nossa reverência. E a meninada correndo pra lá e pra cá, gritando e muitas vezes soltando nomes feios. Lá no alto a histórica igreja, com o seu convento, nos convidava à reflexão, à oração, ao silêncio. E que dizer daqueles azulejos evocando passagens do Evangelho? E do chão histórico, pisado por numerosos padres e freiras?...

A igreja agora olhava, não para a Rua Nova, mas para a profana Duque de Caxias, onde o Carnaval era a maior atração, que, a exemplo de sua vizinha, a Rua Nova, mantém, ainda, seu aspecto colonial, e esbarra na praça João Pessoa, famosa por suas retretas, e que já foi jardim publico, toda cercado de grades.

Carnaval na Rua Direita, com seus blocos, lança-perfumes, confetes, serpentinas. Com as pessoas nas janelas dialogando com as do corso. O tradicional carnaval era, sem dúvida, a maior atração turística da Capital. Mas a Rua Nova não a invejava. De festa bastava-lhe a da Padroeira. Não invejava nem os bondes que corriam nos trilhos da Rua Direita até o Ponto de Cem Réis.

Os bondes, por que diabo arrancaram seus trilhos? Bondes que corriam por toda a cidade: Tambiá. TrIncheiras, Comércio, Tambauzinho. Bondes, coisa do passado? Mentira. Até hoje as modernas capitais européias os mantêm. Transporte seguro, limpo e por que não dizer: poético.

E a Lagoa, lá no belo Parque Sólon de Lucena, que também tem a sua história? Foi lá que meu pai comprou um sítio, paraíso de minha infância, e onde acampavam os circos que vinham de fora, para alegria da meninada e desespero dos gatos. E por que o desespero? Ora, ora, é que o dono do circo dava entrada gratuita ao menino que trouxesse um gato para matar a fome do leão. Que horror!...

Mas, está bom de encerrar estas notas do nosso cotidiano, que começaram na Rua Nova e terminaram na Lagoa. A verdade é que em matéria de festas, a Rua Nova e a Duque de Caxias foram insuperáveis. Só a Festa das Neves ainda tenta perdurar, conquanto sem aquela beleza de outrora. Que me diz o grande cronista das nossas evocações, o arguto e lírico Carlos Pereira? E, aqui pra nós, depois que descobriram Tambaú, a cidade sofreu grande mudança na sua vida social.

Carnaval na antiga Rua Direita, Festa das Neves, na Rua Nova, retretas na praça João Pessoa, do jeito como eram, agora não passam de um sonho...

Eles fumavam e bebiam muito uísque e conhaque. Portavam pistolas e lâminas fatais, guardadas elegantemente no bolso interno do paletó. Mas...



Eles fumavam e bebiam muito uísque e conhaque. Portavam pistolas e lâminas fatais, guardadas elegantemente no bolso interno do paletó. Mas, por outro lado, não falavam palavrões... não ficavam dizendo termos vulgares a cada cena. Era assim o chamado Film Noir. Boas histórias detetivescas, com excelentes interpretações, envoltas em mistérios e muitas sombras.

A nunciada a sua vez de falar, ele ergueu-se da mesa, sem muita pressa, mas com um sorriso de homem em paz com a vida. Pegou o microfone e c...

Anunciada a sua vez de falar, ele ergueu-se da mesa, sem muita pressa, mas com um sorriso de homem em paz com a vida. Pegou o microfone e começou sua palestra. O tema era sobre paz, saúde e amor. Que trindade temática admirável. E ilustrou sua fala com vários slides. A voz mansa já era uma mensagem de paz. Contagiada com aquele clima, a assistência atenta não perdia uma palavra do orador.
Disse ele que a paz é fruto do amor fraternal, que o ódio é que faz o homem adoecer. Que a maior terapia de todos os tempos é o amor. Ensinou ainda que há necessidade de, vez por outra, a gente lançar um olhar retrospectivo, um olhar para dentro de si, e constatar nossos erros. E citou Santo Agostinho que recomendou uma conversa consigo mesmo, antes de dormir. Lembrou ainda as bem-aventuranças do Sermão da Montanha proferido por Jesus, aquele sermão que, segundo Gandhi, substituiria todas as bibliotecas do mundo.
Paz e saúde. Paz de espírito, saúde do corpo. E nunca um palestrante se identificou tão bem com o tema. Ele mesmo, o orador, era aquilo que falava. Um homem de muita paz com a sua consciência. Nunca se irritou, nunca falou mal de alguém, nunca demonstrou desânimo, nunca, ao pegar no arado, olhou para trás, como lembra o Evangelho.
Numa palestra, vez por outra, alguém não resiste ao sono, a um ligeiro cochilo. Mas, sob o efeito de sua palavra, todos os assistentes estavam atentos e silenciosos.
A verdade é que o mundo, cada vez mais, está carente de saúde e paz. Que gritem os jornais, o rádio, a TV, a Internet. Mas o Mestre disse que aquele que perseverasse até o fim, seria salvo. A solução portanto, está na receita: “Orai e vigiai para não entrardes em tentação”. A tentação do ódio, do orgulho, do egoísmo, da inveja, da maledicência.
Mas ele está acabando a palestra e eu a crônica. Deixou o microfone, voltou a ocupar a cadeira onde esteve sentado, numa sutileza de quem caminha sobre nuvens. Ele não é outro senão Marcos Lima, atual presidente da Federação Espírita Paraibana, Nunca a palavra sintonizou tão bem com o exemplo. Esqueci-me de dizer, ele toca violão que é uma beleza. Canta e toca. Só vendo e ouvindo. Mais esta: vestia camisa escura, decerto, para falar claro...

S eu nome mesmo era José Lins do Rego. Popularizaram-no para Zé Lins. E o primeiro livro que me chegou às mãos e aos olhos foi “Menino de E...

Seu nome mesmo era José Lins do Rego. Popularizaram-no para Zé Lins. E o primeiro livro que me chegou às mãos e aos olhos foi “Menino de Engenho” - Que delicia de leitura! Como desejei ser aquele menino. Mas, cá pra nós, minha infância, lá no sítio da Lagoa, foi muito mais bonita.

E sabe quem me deu o livro? Minha mãe, a quem devo o gosto pelas letras. Graças a ela, grande contadora de histórias, minha infância foi uma beleza. E quando eu adoecia de asma, era ela quem, sentada na cama ia excitando a minha imaginação com belas histórias. História de bruxas, de fadas, de bichos que falam, de feiticeiras, de papa-figos, de princesas... Eu gostava tanto dessas narrações, que chegava a desejar que a asma se prolongasse.

Voltando a Zé Lins, cujos livros devorei, sabendo que se tratava de um paraibano, aí foi que me tornei não apenas um leitor, mas um admirador. E o que mais me fascinava era a leveza da linguagem. O homem escrevia como respirava. Uma linguagem linear. Diziam que ele claudicava um pouco no português, diferente de Graciliano Ramos. Ambos frequentavam com assiduidade a livraria José Olimpio, no Rio, e, certo dia, quando lá estavam, apareceu uma jovem atrás de comprar uma gramática portuguesa. Mal a jovem acabou de falar, Zé Lins interveio com muito humor, dizendo para o livreiro: “Se não tiver uma gramática, um livro de Graciliano serve”. A risada foi geral.

José Lins do Rego! Como o admirei e admiro. Uma grande alegria na minha vida foi quando era repórter do jornal A União e fui entrevistá-lo, numa casa lá na Duque de Caxias. E fiquei muito feliz quando o ouvi dizer, lá do interior da casa: “É A União que quer me entrevistar? Quanta honra!” Estava eu, frente a frente, com o autor de ”Menino de Engenho”, livro que deleitou minha infância. Este foi um grande momento na minha vida.

Sua personalidade de homem simples, que escrevia como quem respira, era o que me encantava, assim como aquele seu entusiasmo pelo Flamengo carioca. Um entusiasmo de menino. Ele, que nunca deu um chute numa bola...

Zé Lins era assim, ora alegre, ora triste, sem formalismos, sem protocolo, sem fingimento. Álvaro Lins, rigoroso critico, quando leu “Fogo Morto” do escritor paraibano, bradou, entusiasmado, que se tratava de uma “obra-prima”.

O site WorldMapper apresenta uma curiosa relação de mapas políticos, mostrando os territórios dos países de acordo com as suas respectiva...



O site WorldMapper apresenta uma curiosa relação de mapas políticos, mostrando os territórios dos países de acordo com as suas respectivas classificações nos mais diversos temas.

A Rua Nova dorme o seu sono histórico, com suas casas de portas e janelas agarradinhas umas às outras, mergulhadas num silêncio místico, gr...

A Rua Nova dorme o seu sono histórico, com suas casas de portas e janelas agarradinhas umas às outras, mergulhadas num silêncio místico, graças aos seus templos. Quase não passa carro, ali. As janelas, quando se abrem, é para os mais idosos. E das janelas eles alongam o seu olhar triste e cheio de saudades.
Mas, numa certa manhã, eis que aquele silêncio monástico é perturbado por batidas de martelos. O que está havendo? A garotada logo percebe: estão construindo os pavilhões da Festa das Neves. E haja menino na rua para saudar a novidade. Festa das Neves, Festa da Padroeira, festa que faz a Rua Nova transformar-se na grande atração da cidade. Que a Rua Direita, hoje Duque de Caxias, morra de ciúme de sua vizinha. Mas, por que ciúme, se ela é palco do Carnaval, com confetes, serpentinas e lanças-perfume?
Agora, não é apenas o sagrado que domina a Rua Nova, mas o profano também. São nove dias de alegria. A meninada não cabe em si de contente. A tinta nova dos pavilhões cheira que é uma beleza. As casas já não estão mais fechadas. Muita gente nas janelas olhando os pavilhões se erguendo, emprestando novo visual à velha rua.
Saber que toda a cidade virá participar da tradicional festa... Não se fala nem se pensa noutra coisa. E eis todos os pavilhões já prontos. O maior deles é para a elite. Moças lindas, cavalheiros elegantes exibindo os melhores vestidos e roupas. Gente da elite. E quantos namoros!
Mas a tradicional festa tem suas discriminações. Discriminações sociais. No tradicional passeio pelas largas calçadas, os mais pobres andam pelo lado do Convento São Bento, enquanto os ricos utilizam a outra calçada. Por que esta distinção, esta separação? Nunca ninguém explicou esse natural e espontâneo comportamento.
Era belo ver as pessoas passeando nas calçadas pra lá e pra cá, e as janelas apinhadas de gente. Quanta paquera! Haja sorrisos e mangações... As janelas ficavam apinhadas de pessoas da casa e de fora. E isto ia até meia noite, terminando com a missa na Catedral.
Além dos passeios nas calçadas e divertimentos nos pavilhões, havia a famosa Bagaceira, que ficava lá pelas imediações da Catedral. Ali, a bebedeira dominava. Não esquecer as comidas, o cachorro quente, o amendoim, a pipoca, o algodão doce e tantas outras guloseimas. Dominava o profano, bem junto do sagrado.
Curioso, tanta gente, e nunca se ouviu uma confusão, uma briga, que exigissem a presença da polícia. A Festa transcorria na maior tranqüilidade. E enquanto durava a festa, as janelas continuavam escancaradas. Até os mais idosos iam pra cama mais tarde.
Faltei de lembrar um dos maiores atrativos da Festa: os seus bem feitos jornalzinhos, cheios de humor, mexendo com muita gente.
Mas está na hora de encerrar a crônica, pois a Festa também acabou e uma profunda tristeza domina a velha rua. O silêncio agora é quebrado com as batidas do martelo na madeira. Os pavilhões já estão sendo demolidos.
As janelas voltaram a se fechar. Tudo agora é silêncio. Ainda bem que as meninas do Colégio das Neves voltarão a animar a velha rua, todas as manhãs, com seus sorrisos, suas gargalhadas, sua ânsia de viver.
Agora dá para se ouvir o canto dos galos, nos quintais das casas de porta e janelas. Agora o relógio da Catedral está dizendo que tudo passa na vida, menos a saudade. Agora, o sagrado domina o profano.

T udo o que eu disse, até agora, sobre a Rua Nova foi pouco. A rua da minha adolescência, a rua-museu, a rua que guarda em suas calçadas min...

Tudo o que eu disse, até agora, sobre a Rua Nova foi pouco. A rua da minha adolescência, a rua-museu, a rua que guarda em suas calçadas minhas lembranças, a rua que, por milagre, ainda continua, quase a mesma. Ninguém até hoje teve a coragem de derrubar uma de suas casas, de porta e janela, sem vigilantes, ainda com suas salas de visita. Qualquer pessoa podia bater palmas e gritar “ô de casa”, que alguém respondia: “ô de fora”. E tudo corria na paz do Senhor, com o relógio da Catedral avisando o passar das horas. As calçadas largas, cheias de sombras, serviam de campos de futebol para a meninada. E a bola não era de couro, mas de borracha ou de meia.
O silêncio era sólido. As pessoas deslizavam numa mansidão de sombras. Freiras e padres era o que mais se via. E a meninada quando avistava um padre, com sua batina preta, corria para ele, pedindo “santinhos”. Mas o bonito mesmo era a missa dos domingos, com os fiéis passando para a Catedral, muito bem vestidos. Muita gente indo para as janelas para ver e criticar os passantes. Os das janelas e os da rua se olhavam, se cumprimentavam. Ainda se dava um respeitável “bom dia”. Hoje não se usam mais os cumprimentos anunciando as horas. Hoje os homens viraram robôs. Ontem, tirar um chapéu era um gesto elegante e respeitoso.
E haja fofocas, críticas, sorrisos. O sino chamando o povo para a missa e quase todas as janelas ocupadas. Havia até mulher idosa usando binóculos para verem as pessoas de perto. Ah, a curiosidade humana! Mas isso era só aos domingos. Os dias comuns eram de silêncio.
Outro grande acontecimento, que tirava o silêncio da Rua Nova era a Semana Santa. A catedral se enchia. E haja jejum, nada de comer carne. Os santos todos vestidos de roxo. Uma tristeza mística tomava conta do templo. E na Sexta Feira Santa, a semana terminava com um longo sermão proferido defronte da Igreja de São Bento, em que se evocava Maria, a mãe de Jesus, com muitas lágrimas no rosto. Se não me engano, esse sacerdote se chamava João de Deus.
Rua Nova, hoje General Osório, não passa de um museu urbano. A cidade de ontem está, ali, naquela calçada, naquelas casas de porta e janela, naquele silêncio ainda místico.
E agora, me chega à lembrança um fato que me encantava os olhos e fazia vibrar meu coração. A saída das meninas do Colégio das Neves, ao lado da Catedral, defronte da estátua de Nossa Senhora de Lourdes. As garotas fardadas de blusa branca e saia azul, enchiam a rua com as suas risadas, a sua alegria, a sua juventude. Iam ao colégio sozinhas e muitas delas voltavam acompanhadas dos namorados. Nada de namoro perto do colégio, que as freiras proibiam. O policiamento do colégio era severo. Os rapazes sabiam disso e ficavam, de longe, esperando as namoradas. Meninas lindas, morenas, loiras e abrindo-se para o mundo com a sua alegria, seus sorrisos. Evidente que a Rua Nova também se contagiava com aquela euforia das adolescentes do colégio mais badalado da época, colégio de meninas ricas, cujo prédio ainda hoje existe e onde funciona uma faculdade de medicina.
Rua Nova... Por que diabo mudaram o nome para General Osório, que nem conheceu aquela rua, e que, decerto, nunca esteve na Paraíba? Mas, e a badalada Festa das Neves? Ah, sobre isso tenho muito o que dizer. Aguardem!

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