Entrei no pub sem grandes expectativas, nada me levou até lá por informações prévias, fossem elas dos raros amigos que cultivava, ou por ...

Entrei no pub sem grandes expectativas, nada me levou até lá por informações prévias, fossem elas dos raros amigos que cultivava, ou por indicações de críticas jornalísticas. Entrei por entrar, talvez pela melancolia que havia dado o ar de sua graça, o que não era algo incomum ocorrer comigo.

Saí de casa sem objetivos definidos. Saí por simplesmente achar que seria pior ficar, onde apenas morava e pouco havia a fazer, salvo o de apenas receber os impactos comprando a edição do dia do The Guardian,

Gavetas saem da parede, armazenam letras de blues, blusas e pequenos aparelhos de jantar, feito casinhas de crianças. Ao lado, quadros e...

Gavetas saem da parede, armazenam letras de blues, blusas e pequenos aparelhos de jantar, feito casinhas de crianças. Ao lado, quadros e uma placa de carro caída numa noite torrencial quando os céus desabaram num aguaceiro. Ela seria um futuro número da sorte? Em outro ponto, o candeeiro pende sem iluminar. E se vê espalhados jarros e plantas e o aroma de um incenso raro trazido à margem de um rio distante. Era feito beijo de hortelã que os lábios pediam.

Fortino Mario Alfonso Moreno Reyes. Sabem não? Então, vamos encurtar: Cantinflas. Isso mesmo, aquela metralhadora verbal que encantava o ...

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Fortino Mario Alfonso Moreno Reyes. Sabem não? Então, vamos encurtar: Cantinflas. Isso mesmo, aquela metralhadora verbal que encantava o público do cinema em partes diversas do mundo. O mexicano que saiu da extrema pobreza para a fama quase universal.

Lembrei dele ao me deparar, há pouco, com a informação de que seu nome está dicionarizado. Aparece no Dicionário da Real Academia Española para definir “pessoa que fala, ou atua,

O ano era 1973 e aqui em João Pessoa um comerciante soube que o jovem S.B. estava terminando suas férias e voltaria ao Rio de Janeiro, ond...

O ano era 1973 e aqui em João Pessoa um comerciante soube que o jovem S.B. estava terminando suas férias e voltaria ao Rio de Janeiro, onde residia. O comerciante propôs que ao invés de voltar de avião ele fosse dirigindo uma Kombi que se destinava ao irmão. Tratava-se de uma Kombi daquelas antigas, que apresentava folga na direção e péssimo sistema elétrico (6 amperes), tanto assim que para buzinar ou ligar os faróis era necessário cuspir no dedo e apalpar os fusíveis a cada meia hora. O jovem S. B. gostou de economizar a grana da passagem e convidou o amigo A.G. para acompanhá-lo.

Nasci em João Pessoa em 1949, mas passei os cinco primeiros anos de minha infância em Alagoa Grande, para onde meus pais foram transferido...

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Nasci em João Pessoa em 1949, mas passei os cinco primeiros anos de minha infância em Alagoa Grande, para onde meus pais foram transferidos. Papai, coletor federal; mamãe, professora do grupo escolar e dona da única escola de datilografia da cidade, que, aliás, funcionava no terraço da nossa casa. Portanto, usava o trem João Pessoa—Alagoa Grande—João Pessoa com a mesma freqüência com que usava os bondes da capital.

Nunca mais vi Nadege. Nome pouco comum, não? Pois a conheci, há tempo; morava no final da Rua da República. Foi ela a responsável pela ave...

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Nunca mais vi Nadege. Nome pouco comum, não? Pois a conheci, há tempo; morava no final da Rua da República. Foi ela a responsável pela aventura, digamos oficial ou oficiosa, da erupção de meu primeiro poema.

Erupção mesmo, posto haver um vácuo profundo, uma cratera de criatividade que nunca explorara. Somente lia os augustos anjos versejadores, dentro do paraíso ou parnaso literário dos livros didáticos.

São instantes nem sempre tão fugidios quanto possam parecer. - Tudo bem, seu Luiz?! Vou indo por algum desígnio oculto, talvez pela s...

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São instantes nem sempre tão fugidios quanto possam parecer.

- Tudo bem, seu Luiz?!

Vou indo por algum desígnio oculto, talvez pela sombra mesma que começa a se estender meando a calçada, quando ouço, bem em cima de mim, o “seu Luiz” de trato familiar. Era por Luiz, e não havia de ser de outro modo que vinham os chamados de minha mãe. Luiz é o que ouço de dona Edith há sessenta e um anos, desde que a ela me apresentei, correndo atrás, entrando na marinete onde a mocinha entrou, descendo na esquina onde desceu, e mal entra em casa ouve-me as palmas e o nome entrando afoitos pela janela da rua São Sebastião, na Torre.

Eu ouvi um grito, um ruído de pneus riscando o asfalto, vi uma bola atravessando a estrada. Olhei para um lado assustado, meu espanto se r...

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Eu ouvi um grito, um ruído de pneus riscando o asfalto, vi uma bola atravessando a estrada. Olhei para um lado assustado, meu espanto se refletiu no espelho, mais assustado do que eu era o rosto de um menino que, poucos metros dali, mirava para debaixo do carro.

Aconteceu perto de casa, essa semana, quando eu voltava de viagem. Eu vinha desligado, pensando no mundo frenético, grande e fascinante que é lá fora.

Já contei mil vezes como conheci Dom José Maria Pires ( 1919-2017 ), o arcebispo da Paraíba de 1965 a 1995, mas – como o tema exige - lá ...

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Já contei mil vezes como conheci Dom José Maria Pires ( 1919-2017 ), o arcebispo da Paraíba de 1965 a 1995, mas – como o tema exige - lá vem a milésima primeira:

por volta de 73, 74, apresentei aos donos do circo cultural - circo, mesmo, destinado a concertos, teatro, cursos, etc - que havia próximo ao final da Ruy Carneiro - e que eram o maestro Pedro Santos, o escritor Adalberto Barreto e o produtor Eduardo Stuckert - um texto teatral em que os quatro hipotéticos evangelistas (ante um mundo sem líderes, mas em que havia a espera messiânica dos judeus), criavam Cristo, assimilando o melhor do pensamento platônico, que dominava os intelectuais de todo o Império Romano.

Para o cinéfilo poder voltar às salas de cinema após mais de dois anos de confinamento é uma experiência de júbilo e contentamento. E esse...

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Para o cinéfilo poder voltar às salas de cinema após mais de dois anos de confinamento é uma experiência de júbilo e contentamento. E esse retorno é um duplo prazer quando se trata de assistir à adaptação de um maravilhoso clássico da literatura para o formato audiovisual.

A transmutação das “Ilusões Perdidas” (Honoré de Balzac, 1843) para as telas (em 2021) é uma experiência que deu certo porque respeita o texto original e dialoga bem com o imaginário das gerações informadas pelos audiovisuais. Entretanto, o seu grande mérito – para o melhor e para o pior — reside na sintonia com o espírito do tempo do sec. XXI, em que a vida

A morte é um acontecimento existencial! Finitude! Essa é uma palavra que minha mãe vinha usando muito nos últimos tempos. Quando fez 8...

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A morte é um acontecimento existencial!

Finitude! Essa é uma palavra que minha mãe vinha usando muito nos últimos tempos. Quando fez 89 anos, sentindo-se indisposta, ouviu do médico, do alto do seu poder maior: “A senhora não tem nada. É a finitude!” E ela, bem contrariada com esse diagnóstico devastador, desde então, não parou mais de falar esse mantra.

Venho em contato com a morte desde a despedida do meu pai, há quase três décadas. De lá para cá, muitas perdas de tios, primos, amigos queridos. No caso do meu pai, lidei muito mal. Tinha 39 anos e a minha crise dos

Caminho pelas veredas literárias de Ariano Suassuna como um caçador de esmeraldas, ansioso por descobrir a pedra valiosa, a recolher ao ...

Caminho pelas veredas literárias de Ariano Suassuna como um caçador de esmeraldas, ansioso por descobrir a pedra valiosa, a recolher ao bornal preciosidades das artes por ele lapidadas no reino onde é soberaníssimo. A produção literária dele é mina e fonte de água cristalina que sacia a sede de nossa alma.

Quem bebe no manancial de seus livros será enriquecido e alimentado pela sabedoria de personagens que brotam da terra castigada pelo Sol. Tudo é fonte de inspiração, terra iluminada pelas malacachetas.

O ser humano tem dificuldade de pensar ou agir por conta própria. Necessita de quem o oriente, sugira um roteiro segu...

O ser humano tem dificuldade de pensar ou agir por conta própria. Necessita de quem o oriente, sugira um roteiro seguro nos descaminhos da vida. Essa característica da nossa espécie é que propicia o aparecimento de orientadores espirituais ou guias de comportamento.

Não falta quem se aproveite do nosso natural desamparo para nos vender fórmulas ou manuais de conduta, nos quais estaria a chave para a conquista da felicidade. Só que esse caminho não existe fora de nós; deve ser construído por cada um. Nenhum guru conhece das pessoas o que elas intimamente são, por isso não pode apontar a ninguém o caminho que as faça felizes.

Fiquei em dúvida se escrevia ou não este texto. Às vezes acontece isso comigo. Alguns temas são delicados ou ambíguos, potencialmente cap...

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Fiquei em dúvida se escrevia ou não este texto. Às vezes acontece isso comigo. Alguns temas são delicados ou ambíguos, potencialmente capazes de gerar controvérsias. Fujo deles, tal como fazia um homem sábio, Machado de Assis. Há quem goste de polêmicas, muitos as procuram. Não é o meu caso. Delas, tenho tédio, como Machado, pois aprendi que nunca levam a nada, salvo à radicalização dos pontos de vista em conflito, ou seja, elas pioram muito o que muita vez já era ruim. Discutir futebol, política ou religião? Tô fora. Posso até eventualmente escrever algo relacionado a tais assuntos, mas não com a intenção de polemizar com ninguém. Quem quiser que tenha suas opiniões e seja feliz com elas, se possível for. Mas vamos ao touro que tanta confusão gerou

Ítaca, minha Ítaca, quando as horas se enchem de sombras e um nó se instala na minha garganta, lembro de ti. Nos dias em que as sereias en...

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Ítaca, minha Ítaca, quando as horas se enchem de sombras e um nó se instala na minha garganta, lembro de ti. Nos dias em que as sereias entoam as suas enganadoras cantigas, a tua lembrança é o que me impede de mergulhar no abismo. Meta primordial, Ítaca é a chegada em casa, a volta ao amor mais caro, o olho a contemplar a paisagem quase perdida. É o descanso após a longa jornada de encantos e asperezas.

"Que eu não me esqueça, mas que também não lembre o tempo todo" O primeiro adeus doloroso aconteceu quando deixei a cidade da ...

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"Que eu não me esqueça, mas que também não lembre o tempo todo"

O primeiro adeus doloroso aconteceu quando deixei a cidade da minha infância. Meu pai era um nômade, não aguentava viver muito tempo num mesmo lugar, por isso arranjava trabalhos que lhe permitissem viajar. Eu não acreditava que diria adeus ao grupo escolar que ficava do lado da minha casa, onde Dona Adelaide, a diretora, que morava ali na frente, tocava piano quando estava feliz. E a Maria Cristina, a menina de cachos dourados adotada por ela, uma princesinha, minha primeira paixão, mesmo sem a gente saber o que era aquilo. Por anos guardei nossa foto, num balanço de dois lugares que tinha no jardim da sua casa. Aos meninos da minha rua, cujos rostos desapareceram da minha memória, assim como seus nomes.