C onfesso que não quis acreditar. Mas, depois, repensei: por que não acreditar, se ele foi sempre assim, desde menino, quando fazia questão ...

Confesso que não quis acreditar. Mas, depois, repensei: por que não acreditar, se ele foi sempre assim, desde menino, quando fazia questão de andar de roda gigante, com apenas 4 anos, acompanhado da babá, deixando os pais, lá embaixo, de mãos geladas de medo. E ele nunca teve medo. Se estivesse no lugar de Pedro, quando Jesus o convidou a andar sobre o mar, duvido que fizesse como o apóstolo querido, que terminou se afogando, não fossem as mãos do Mestre que o seguraram.
Mas quem é esse que nunca teve medo? Não sei se o leitor, a esta altura, já sacou. Mas estou me referindo ao meu caçula, Germano, que teve a ousadia de pegar uma bicicleta e sair correndo pelas ruas de Paris, como se estivesse na praia do Amor, onde passa o fim de semana. Pasmei de tanta coragem, quando estive, recentemente, na Cidade Luz. Não cheguei a vê-lo pedalando por toda Paris. Vi depois, no quadro Parada Obrigatória, do programa Cá Entre Nós, da RCTV, muito bem apresentado pela amiga Rose Silveira, em que ele traz para nós a paisagem, a cultura e o cotidiano das grandes metrópoles. Mas, agora, o que eu estava vendo era o caçula montado numa bicicleta e correndo pelas ruas da bela cidade. Deu-me uma inveja danada. Jamais faria tal façanha.
Acho mesmo que o outro filho, o primogênito, professor Phd da nossa UFPB, também faria isso, pois o que gostava, outrora, era o surf. Sua grande aventura, abraçando as ondas. Mas o meu galego desmoralizou Paris. Passou pela Torre Eiffel, que tremeu diante daquela afoiteza, da Notre Dama, que, decerto, fez o sinal da cruz diante da coragem do paraibano multifacetado, que é arquiteto, bacharel em Música, jornalista, escritor e apresentador de TV.
E ele adora alturas. Dai estar subindo, diariamente, na sua Arquitetura, através dos ousados projetos.
Que inveja Germano me fez naquele passeio pela cidade que mais admiro - Paris. Que bom passear pertinho do Sena, que bom respirar o ar da bela cidade, pedalando!

 Repito. Este meu caçula faz o medo ter medo dele. E quando lhe dei a primeira palmada, ele não botou uma lágrima. Mas é capaz de chorar quando alguém maltrata uma maria-farinha, lá na praia onde vai se encontrar com a Natureza e sonhar com um mundo melhor.

Azamor... O nome rima com amor. Mas tinha que ser. Ele não sabe o que é ódio, mágoa, nem ressentimento. Um homem simples, de vida limp...

Azamor... O nome rima com amor. Mas tinha que ser. Ele não sabe o que é ódio, mágoa, nem ressentimento. Um homem simples, de vida limpa, que deve à sua felicidade a duas coisas: a esposa Gizélia, aos dedicados filhos e ao Espiritismo.

Sim, estou me referindo ao meu irmão e quase pai, Eudes Barros. Irmão mais velho do primeiro matrimônio, pois minha mãe casou-se dua...

Sim, estou me referindo ao meu irmão e quase pai, Eudes Barros. Irmão mais velho do primeiro matrimônio, pois minha mãe casou-se duas vezes. Somos filhos de Alagoa Nova, cidade que Eudes qualificou com muita razão de “sítio público de mangueiras”.

G onzaga Rodrigues, por conta de seus bem vividos oitenta anos, do muito que fez e está fazendo pela nossa cultura, foi alvo de merecidas ho...

Gonzaga Rodrigues, por conta de seus bem vividos oitenta anos, do muito que fez e está fazendo pela nossa cultura, foi alvo de merecidas homenagens. A União não pensou duas vezes e eis o cronista fazendo parte das comemorações do venerável matutino, que está completando 120 anos a serviço da cultura paraibana. O superintendente Fernando Moura fez questão de uma grande festa, reunindo toda a família do jornal, à qual não faltou o nosso Hélio Zenaide, um dos melhores veteranos da nossa imprensa.
Mas os oitenta anos do nosso Gonzaga e as doze décadas do velho matutino, que está cada vez mais jovem, motivaram a festa. E o nosso cronista-mor estava vibrando de alegria e entusiasmo como se estivesse mangando das suas oitenta primaveras. Aliás, Gonzaga, no seu sorriso parece chorar.
A verdade é que o mestre da crônica, que aprendeu jornalismo sem se ensinar, como diria o poeta pernambucano Ascenso Ferreira, é um homem de alma escancarada, jamais se fechando. Nasceu em Alagoa Nova, respirando o mesmo ar que respirei. Ar puro daquele “sítio de mangueiras”, como diria o poeta Eudes Barros.
Mas o bonito mesmo foi ver no telão da festa e na capa do Correio das Artes o nosso cronista cheirando uma flor. Que lindo! Perfume da flor, sorriso de Gonzaga.
A beleza é que tivemos uma verdadeira gonzagração. Parabéns ao superintendente Fernando Moura e sua equipe pela idéia de colocar a festa dos oitenta anos de Gonzaga Rodrigues na programação comemorativa 120 anos do nosso secular matutino.
E termino a crônica dizendo: Gonzaga velho? Não. Não envelhece quem nunca perdeu oentusiasmo pela vida, quem está com a cabeça cheia de idéias, quem sabe fazer amigos, quem tem uma família bonita com que o cronista soube transformar o lar num paraíso.
Vamos, Gonzaga, dar aquele sorriso de quem está em paz com a vida, com a consciência sem remorsos, de quem não esqueceu a responsabilidade de viver.

Vamos cheirar a vida como cheiraste aquela flor que a foto documentou, na capa da revista “Correio das Artes”, em homenagem aos teus muito bem vividos oitenta anos.

Para ver bem, através da memória, você tem de fechar os olhos. Aí o passado começa a se desenrolar no presente. Melhor dizendo, o passado vi...



Para ver bem, através da memória, você tem de fechar os olhos. Aí o passado começa a se desenrolar no presente. Melhor dizendo, o passado vira presente. O homem agora é um menino de calças curtas, num sítio enorme, cheio de árvores com frutas de todos os tipos e sabores, desde o sapotí à manga. Manga espada, manga rosa, manga bacurí, manga baronesa, manga do papo roxo, manga... Basta! Senão vem aquela indigestão seguida de boas palmadas, pois o pai não permite abusos.


O sítio era imenso, como já disse, e o gostoso mesmo era subir nas árvores e ficar espiando, lá do alto, o quintal dos outros. Minha irmã dizia que era o “nosso cinema”. Agradável bisbilhotice. Ah, se meu pai soubesse... Naquele tempo ainda não havia a lei da palmada. E existia o castigo nas nádegas para tudo. Não ter apetite (também chupando manga e outras o tempo inteiro)... Não querer ir à escola, responder mal às pessoas, não desejar tomar banho, dizer nome feio, como bunda e assim por diante. Mas, pior do que as palmadas eram os bolos, palmadas nas mãos. E que dizer de tomar óleo de rícino (ruim como o diabo) para matar as lombrigas, sem esquecer o óleo de fígado de bacalhau?

O sítio era um reino encantado. Tinha de tudo, de frutas às brincadeiras. Tinha até namoros com as meninas das vizinhanças: Iara, Susana, Belkiss, Graziela... Mas tudo terminava e não passava de um beijo. Beijo na boca...

Lembrar que eu era caçula e ser caçula é a melhor coisa do mundo. Bem que deveria haver o Dia do Caçula.

E que tal o primeiro dia de aula? Uma beleza. Um novo mundo se descobria aos nossos olhos. A professora (minha professora se chamava Beatriz) era branquinha e perfumada. Primeiro dia de aula. Como era gostoso cheirar os livros novos que a escola recomendava. Tantos rostos desconhecidos. Garotas lindas, meninos chatos. Mas, logo depois vinha aquela saudade do sítio. A boca pedindo manga, os pés pedindo espaços para correr, a vida virando paraíso...

Mas chegou a hora de abrir os olhos e esquecer o passado. Abrir os olhos para a realidade, e para o presente.

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