Por mais que a obra não seja um reflexo direto do autor, é grande a tendência de se confundir uma com o outro. Isto se aplica particularmente a um poeta como Augusto dos Anjos, cujas idiossincrasias pessoais e literárias sempre despertaram curiosidade nos que estudam ou simplesmente apreciam seus poemas. O pessimismo, a morbidez, a fixação na morte, presentes na maioria dos seus versos, fazem pensar que ele era um desses misantropos infensos aos apelos mundanos. Tal impressão é acentuada pelas imagens de doença e deterioração física, comumente associadas a um possível “caso clínico” do indivíduo e não ao universo simbólico do poeta.
Um dos objetivos de “Augusto dos Anjos e sua época”, de Humberto Nóbrega, é desfazer ou pelo menos amenizar equívocos desse tipo. O autor pretende mostrar que ao lado do Augusto sombrio existiu outro permeável à alegria, que perambulava pelas calçadas da província e exaltava em quadrinhas ligeiras a beleza das mulheres. Esse alter ego contrasta com o do melancólico para quem “a alegria é uma doença”, e a tristeza, “(sua) única saúde”.
O estudioso trata de vários aspectos da época em que o paraibano viveu, mas se concentra na produção do poeta no jornalzinho “Nonevar”, que circulou por ocasião da Festa das Neves nos anos de 1908, 1909 e 1910. Ela se constitui de versos despretensiosos, nos quais se percebe que Augusto não se manteve alheio ao clima daquelas noites. Conforme observa o autor, ele “perambulou pelas calçadas onde os divertimentos se apresentavam. Frequentou os bares improvisados. Observou. Inspirou-se”.
Além desses jornaizinhos, o autor recolheu as cartas que o poeta mandava para sua mãe. São textos importantes para se compreender a personalidade de Augusto, cuja assiduidade nos escritos, enviados em períodos muito curtos de tempo e marcados por um cuidado reverente e formal, demonstra uma sensibilidade marcada pela ambiguidade afetiva e pelo remorso. Esses traços emocionais aparecerão, em alguns de seus poemas, transfigurados em vigorosas imagens de ruína, doença e desconstituição da matéria.
Os textos veiculados no “Nonevar” consistem, no todo, de crônicas, poemas, perfis, quadras amorosas e comerciais que documentam os costumes de uma época e mostram como nela se inseria o homem Augusto dos Anjos. Tal inserção não poderia deixar de ser dramática, embora o tipo de conflito estivesse longe de se parecer com o que se percebe em seus versos ditos sérios. O remorso, por exemplo, não tem a dimensão da Culpa por uma humanidade viciada, que violou as leis da Natureza; resume-se, por exemplo, ao mal-estar de ter que escrever por dinheiro. Em uma das cartas dirigidas à mãe, o poeta faz a ressalva de que o “Nonevar” “através do pretexto literário que o recomenda, esconde intuitos puramente financeiros.”. Adiante, como que se justificando (talvez mais para si do que para ela), afirma que a colaboração lhe permitiria “recolher às (suas) arcas particulares de bacharel necessitado alguma pecúnia consoladora.”.
Humberto Nóbrega é mais um historiador do que um crítico literário. Seu objeto não são propriamente os versos do poeta, mas determinados tipos e circunstâncias com que ele se relacionou e que, de alguma forma, serviram para modelar o seu espírito. O autor recolheu, num lento e obstinado trabalho de pesquisa, recortes de jornal, depoimentos de amigos e parentes, opiniões de críticos e escritores, compondo uma miscelânea que, em maior ou menor grau, serve de subsídio para que se compreenda o momento em que Augusto viveu. Seu método lembra o de um autor de história das mentalidades, para quem nada é irrelevante; o detalhe aparentemente frívolo pode ser um indício para a compreensão de algum aspecto relevante.
Seria inexato dizer que a produção poética recolhida por Humberto Nóbrega é mais importante pelo que diz do homem Augusto do que pelo que revela da sua obra. Ela testemunha quanto certas ideias ou imagens lhe obsediam a consciência. É como se o autor variasse de tema, ou mais propriamente de contexto, voltando-se para o lado superficial da vida; mas preservasse, com voluntária ‘inadequação’, vocábulos, imagens e construções que lhe serviram para expressar o amargor, a melancolia, a intensidade da sua angústia ética e existencial. Sobretudo nos poemas longos, com que introduz as colaborações de cada ano, o poeta parece fazer uma paródia de si mesmo. Ou seja: como num exercício automático de estilo, e visando a um efeito pretensamente piedoso (já que se trata de invocar Nossa Senhora das Neves), ou irônico e caricatural, ele parece juntar, levemente alterados, fragmentos da sua obra canônica.
O livro de Humberto Nóbrega não está isento de críticas. Estudiosos como Raimundo Magalhães Júnior e Alexei Bueno, por exemplo, apontaram-lhe certa assistematicidade metodológica e falta de rigor na datação de alguns textos. Tais juízos não impediram que eles reconhecessem o valor da obra para uma melhor avaliação da poesia de Augusto. Magalhães Júnior cita-a o tempo todo no excelente estudo biográfico que escreveu sobre o poeta. Fia-se numa série de passagens do livro para interpretar imagens e temas presentes na obra do paraibano. À afirmação, por exemplo, de que ele fora “ferido, logo cedo, em sua vida sentimental”, feita por Humberto Nóbrega a propósito do episódio envolvendo a agregada Amélia, o cearense associa “a grande carga de amargura” dos seus versos. E não descarta lances como esse da sua vida para explicar a melancolia presente, por exemplo, num soneto como “Saudade”. Alexei Bueno se empenhou para obter a coleção do “Nonevar” e considera a produção do poeta nesse jornal “esteticamente menor”, porém “válida como documento de época e documento humano”.
Por tudo isso, “Augusto dos Anjos e sua época” interessa aos estudiosos e admiradores da poesia do paraibano. Humberto Nóbrega faz um competente retrato do tempo em que poeta viveu – uma espécie de belle époque paraibana – e compõe uma excelente moldura para que se compreendam algumas das circunstâncias que forjaram o eu existencial e poético de Augusto.
O presente texto reproduz, com leves adaptações, a Apresentação que escrevi para a 2ª edição do livro “Augusto do Anjos e sua época”, publicada pela Editora da UFPB







