Há lembranças que não se deixam organizar pela lógica do tempo. Elas ficam ali, meio suspensas, como se não pertencessem nem ao pa...

O Abraço da Tamarineira: Memória, Morte e Eternidade em Augusto dos Anjos

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Há lembranças que não se deixam organizar pela lógica do tempo. Elas ficam ali, meio suspensas, como se não pertencessem nem ao passado nem ao presente. A minha infância é uma dessas zonas de dúvida. Às vezes penso que ela existiu; noutras, parece apenas um sonho persistente. Mas há uma cena que resiste, firme, como raiz em pedra: meu avô materno, José Rodrigues dos Santos, declamando versos com uma intensidade que eu, menino, não compreendia, mas sentia.

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GD'Art
Era no bairro das Rocas, espaço simples, mas carregado de humanidade, onde a palavra ainda tinha corpo e respiração. Foi ali que ouvi, pela primeira vez, “A Árvore da Serra” e “Versos Íntimos”. Eu não sabia quem era Augusto dos Anjos. Não sabia sequer o peso daquilo que escutava. Mas algo em mim foi tocado de forma irreversível. Talvez tenha sido ali, naquele instante quase invisível, que nasceu o desejo de ser poeta.

Com o passar dos anos, compreendi que aqueles versos não eram comuns. Havia neles uma crueza quase desconfortável, uma maneira de dizer a vida sem enfeite, sem véu, sem concessão. A poesia de Augusto não consola; ela expõe. Não acaricia; ela fere e, justamente por isso, revela.

A obra central do poeta, Eu, publicada originalmente em 1912, permanece como um dos fenômenos mais singulares da literatura brasileira. Trata-se de um livro único, e isso não é apenas uma constatação bibliográfica, mas uma afirmação estética. Há autores que produzem bibliotecas; Augusto produziu um manancial intransitável de profundidade existencial. E esse manancial basta. De acordo com Alfredo Bosi (2006), a originalidade de Augusto dos Anjos reside justamente na sua capacidade de fundir o vocabulário científico à mais dolorosa expressão lírica, gerando um impacto poético inédito na nossa literatura.

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Capa do EU, primeira edição (1912) /// Alfredo Bosi ▪️ Fonte: IEA/USP
Durante muito tempo, a crítica tentou aprisioná-lo em categorias: simbolista, parnasiano, pré-modernista. Rótulos que, embora úteis para fins didáticos, revelam-se insuficientes diante da complexidade de sua escrita. Como bem aponta Antonio Candido (2000), o enquadramento estrito de autores singulares em escolas literárias muitas vezes desconsidera as tensões internas que conferem autonomia e perenidade às suas obras. Augusto dos Anjos é, antes de tudo, um caso isolado.

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Nelson Werneck Sodré, historiador, escritor, crítico literário, militar e influente ensaísta brasileiro do século XX, sobretudo na interpretação da formação histórica e social do Brasil ▪️ Instagram: @movimentosemterra
Sua poesia nasce de uma tensão entre ciência e angústia, entre linguagem técnica e desespero existencial. Ele fala de vermes, decomposição, matéria, mas fala, sobretudo, da condição humana em sua nudez mais radical. Nelson Werneck Sodré (1911-1999) ressalta que essa predileção pelos elementos materiais e biológicos reflete as correntes cientificistas da virada do século, mas ganha, na voz do poeta, uma dimensão metafísica e trágica.

Essa consciência da finitude atravessa sua obra como um fio condutor. Em seus versos, o homem não é grandioso; é transitório. Não é sublime; é orgânico, perecível, fragmentado. E, paradoxalmente, é nessa percepção dura que reside uma forma peculiar de beleza. Conforme observa Massaud Moisés (2004), a poesia de Augusto dos Anjos promove uma inversão estética, transformando o horror da decomposição física em matéria de alto valor artístico e reflexão filosófica.

Em 2019, movido por uma devoção que já não era apenas literária, fiz uma viagem até o Engenho Pau d’Arco, na Paraíba, terra natal de Augusto dos Anjos. Não fui como turista. Fui como quem busca uma origem. Há lugares que não se visitam; atravessam-se.

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Engenho Pau d'Arco ▪️ GD'Art
Lá, encontrei a famosa tamarineira. A árvore que aparece em seus versos não como mero elemento da paisagem, mas como testemunha silenciosa de uma sensibilidade em formação.

Aproximei-me dela com um respeito quase ritual. E, sem saber exatamente por quê, abracei-a.

Foram quase vinte minutos.

Pode parecer exagero, ou mesmo delírio.

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Tamarineira do Engenho Pau d'Arco ▪️ Foto: Jackson Ferrer
Talvez seja. Mas, naquele gesto, havia algo que escapava à razão. Não acredito em misticismos fáceis, tampouco em portais sobrenaturais. Ainda assim, naquele abraço, senti uma espécie de conexão profunda, não com o homem Augusto, que já não está, mas com aquilo que nele ainda permanece: sua palavra.

Era como se, por um instante, o tempo se dobrasse. Como se a infância do poeta, sua juventude inquieta, sua visão amarga e lúcida da existência, tudo isso estivesse ali, condensado na textura daquela árvore. E eu, de algum modo, participava disso.

A experiência não me tornou um especialista. Mas me confirmou como leitor e, talvez, como devoto. Tanto que, em um gesto que mistura afeto e homenagem, dei ao meu filho o nome Augusto. Não como tentativa de perpetuar um poeta, mas como reconhecimento de uma marca que a poesia deixou em mim.

Falar de Augusto dos Anjos, portanto, não é apenas fazer crítica literária. É também narrar um encontro. Um encontro com a linguagem em seu estado mais extremo, onde a beleza não se separa do desconforto e a verdade não se suaviza para agradar.

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Estátua de Augusto dos Anjos no Museu Jurandir Maciel ▪️ Foto: Ajmcbarreto
Sua poesia continua atual justamente porque não tenta ser.

Ela não dialoga com modismos nem com expectativas. Ela se impõe. E, ao se impor, nos obriga a olhar para aquilo que frequentemente evitamos: a precariedade da vida, a inevitabilidade da morte, a fragilidade do corpo, o caos da existência.

Talvez seja por isso que sua obra incomode tanto quanto fascina. Porque ela não permite fuga. Ler Augusto dos Anjos é, em alguma medida, confrontar-se consigo mesmo, sem máscaras.

E, no fim, fica a impressão de que sua vida breve — morreu jovem — foi, na verdade, imensamente densa. Há existências longas e vazias; a de Augusto foi curta e transbordante. Ele não escreveu muito. Mas escreveu o suficiente para atravessar séculos.

Dois, pelo menos.

O século em que nasceu, marcado por transições estéticas e científicas, e o século em que continua a ser lido, este nosso, igualmente inquieto, igualmente fragmentado.

Talvez seja isso que o torne eterno.

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Augusto dos Anjos ▪️ GD'Art
Não a quantidade de sua obra, mas a intensidade de sua verdade.

E pensar que tudo começou com um avô, no bairro das Rocas, declamando versos que eu não entendia.

Hoje entendo um pouco mais.

E, ainda assim, não completamente.

Porque Augusto dos Anjos não é um poeta que se esgota. Ele é um poeta que permanece.

Como uma árvore.

Como um abraço.

Como uma inquietação que não passa.
ANJOS, Augusto dos. Eu. 2. ed. Joinville: Anticítera, 2025.
BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 2006.
CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2000.
MOISÉS, Massaud. História da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 2004.
SODRÉ, Nelson Werneck. História da Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998

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