“Orgulham-se os seus da sua glória, quando se ouvem nomeados, tal como o olfacto se esvanece com a fogosidade das murtas.” Panegírico ...

O quotidiano social no Al-Andalus

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“Orgulham-se os seus da sua glória, quando se ouvem nomeados, tal como o olfacto se esvanece com a fogosidade das murtas.” Panegírico de Abu-l-Qasim Ibn Hamdin, juiz de Córdoba
Recuperando alguns mosaicos da vivência luso-árabe no saudosamente vasto al-andalus de tão lauta glória e drama, cuja memória plural, histórica e cultural, o tempo dificilmente dissipará, será interessante fazer-se uma regressão aos ecos guardiães da História, um campo evidentemente sempre fértil para o emergir de descrições que tentarei a seguir situar e partilhar.

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De acordo com as narrações da época, a organização das cidades no al-andalus (nome dado pelos muçulmanos à Península Ibérica durante o período em que esteve sob domínio islâmico, entre os anos de 711 e 1492) estaria tão adiantada para a época que quando nelas entraram os cristãos, respeitaram os seus traçados, bem como os nomes árabes ligados ao seu protótipo. As ruas das cidades, particularmente as espanholas, eram tão comprimidas que se experimentava um sussurro e uma noção de clausura fora do normal. Algumas ruas de Granada tinham 1,12 metros de largura. Essa estreiteza devia-se tanto à intenção de se protegerem o mais possível do forte sol andalus, como à de facilitar a defesa, em caso de invasão inimiga. E, para que essa defesa fosse mais eficaz, apenas se podia entrar nos bairros por uma ou duas portas, que se abriam ao amanhecer e se fechavam quando o sol se punha.

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Ibn Jabit (1313–1374), polímata e estadista de Granada, escreveu:

“Todo o interior murado de Málaga está comprimido e aglomerado. A cidade está (…), distribuída simetricamente, como uma teia de aranha... As ruas estão inundadas de gente e, nos mercados, aglomeram-se as lojas”.
Lucio Marineo Sículo, cronista oficial dos Reis Católicos, que documentou o passado islâmico da Península Ibérica na sua principal obra, o De rebus Hispaniae memorabilibus (De las cosas memorables de España), acrescenta:

“(...) Os bairros e ruas de Granada, que são muitas, devido à grande espessura dos edifícios são, na sua maioria, estreitas e o mesmo acontece com as praças e os mercados onde se vendem os mantimentos (...)”.
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A praça vulgar era chamada, no árabe utilizado em Espanha, rahba, mas se houvesse nela um comércio provisório ou lojas permanentes, era designada pela palavra suq, donde procede zoco (mercado), que chegou até aos nossos dias. O mercado podia situar-se numa única praça ou estender-se por várias ruas. As lojas serviam simultaneamente de oficinas, onde trabalhavam os artesãos, ajudados por um único operário ou aprendiz. Os donos das barracas de venda ao ar livre e dos postos provisórios procuravam o mesmo que os das lojas permanentes: a proximidade de uma mesquita (masjid), ou a mesquita mais importante.

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Muitos vendedores desejavam reservar lugar nos poiais situados nos muros exteriores, mas o almotacé (termo derivado do árabe al-muhtasib), o magistrado ou funcionário público responsável pela fiscalização dos mercados, pesos, medidas, abastecimento urbano e salubridade no al-andalus, estava atento a essas movimentações, garantindo que apenas o mais madrugador tivesse o melhor local. Esta era uma das milhares de tarefas que esse zelador funcionário tinha de desempenhar em relação à multidão de vendedores que pretendiam o local.

As portas dos oratórios eram também lugares muito disputados. Nas manhãs de sexta-feira, quando era obrigatório assistir à oração na mesquita mais importante, os vendedores ambulantes deviam deixar limpas as suas entradas, só voltando a ocupá-las com mercadorias no final da cerimónia religiosa. Era proibido o estacionamento de animais de carga nessas portas, sobretudo pouco depois do meio-dia de sexta-feira, quando se realizava a oração coletiva. Depois do adhan, o apelo à prece, cessava toda a atividade nos mercados.
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Junto ao local da mesquita destinado às cerimónias fúnebres não era permitida a instalação de vendedores até ao final da oração da tarde. Em redor do mesmo edifício também não era autorizada a instalação dos vendedores de azeite, nem a dos de outros géneros pouco limpos, como coelhos ou pássaros, por mancharem de forma permanente o lugar que ocupavam.

Nas praças e ruas do centro, mais largas, havia filas de mesas e balcões de lojas portáteis, protegidas do sol por meio de toldos. E o almotacé cuidava que estes fossem colocados a uma altura suficiente por forma a que os cavaleiros não colidissem neles e ferissem os olhos. Nas ruas muito estreitas era proibido aos vendedores e hortaliceiros sentarem-se com a mercadoria. Os boticários e droguistas estendiam um tapete no chão, em cima do qual expunham os seus produtos. Tanto estes como os perfumistas, preparavam-nos à vista do público. Uma das missões do referido almotacé, perseguidor de todo o latrocínio comercial, desde o mais primário, traduzia-se também em evitar o perverter no peso da mercadoria vendida, até aos mais complicados e engenhosos dos perfumistas.

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Abundavam nas ruas e praças os tasqueiros, os vendedores de carne — que a guisavam ou picavam à frente do freguês —, os de peixe frito (galla), de filhoses, das salsichas e dos pastéis de queijo.

“Jardim que dá vida às flores, onde Novembro, como Abril, veste as colinas de rosas e açucenas dada a visita das nuvens noturnas que as fazem brilhar...”
Elogio do Emir Abu Bakr Ibn Ibrahim, quando chegou a Granada como governador e aí reuniu um grupo de poetas
Nestas cidades encontravam-se as mais belas residências de estilo árabe. O seu acesso era geralmente feito através de um saguão abobadado e estreito onde estavam os criados, e em cujo extremo desembocava um grande pátio ou um verdadeiro jardim calçado de mármore, no meio do qual rompia um esguicho, rodeado de salgueiros, chorões, laranjeiras, limoeiros, romanceiras e plantas odoríferas que enchiam a casa com o perfume das suas flores e frutos. Em torno do pátio corriam os diversos pavilhões que serviam de habitações, e cujo interior era de uma opulência maravilhosa. Nenhuma descrição nos daria uma ideia fiel daqueles tetos de vigotas salientes e forros trabalhados, onde verdadeiros artistas esculpiram em cedro os mais surpreendentes arabescos, dos vidros com desenhos caprichados, das paredes cobertas de esculturas e dos adornos em forma de estalactites que enlaçavam paredes e teto.

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A peça principal, que tinha a altura de uma casa de dois andares, era geralmente dividida em três partes, dispostas ao redor de uma superfície lajeada, em cujo centro se erguia uma fonte octogonal de mármore esculpido, cujo repuxo lançava para o ar um fio contínuo de água fresca e cristalina. O mobiliário compunha-se de um grande divã forrado de seda, bordado de prata e ouro, que dava a volta a toda a sala e os restantes móveis reduziam-se a lâmpadas veladas e tamboretes com incrustações de nácar (madrepérola). Nichos abertos nas paredes, forrados de mármore, com marchetarias, ladrilhos e azulejos persas, continham porcelanas da China, vasilhas de prata e taças de café em pequenos braseiros de filigrana, narguilés, perfumadores etc.

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Nas casas modestas, as pessoas lavavam-se recorrendo a um jarro e a um recipiente. Nas de gente rica, podia haver verdadeiras banheiras, que recebiam o nome de abzan, ou então utilizavam-se, para tal fim, pias de mármore. Algumas casas burguesas tinham banhos de vapor, mas esse luxo estava reservado aos palácios dos magnatas da aristocracia. A classe média e a gente de baixa condição recorria aos balneários públicos, o hammam, ou banho mouro, centros sociais de grande importância nas cidades e considerados um elemento urbano acessível para toda a população. Não havia cidade, por pouco importante que fosse, que não tivesse vários. Em Córdoba, segundo os cronistas da época, no final do século X haveriam mais de 300. O seu funcionamento era igual ao do resto do ocidente muçulmano.
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O hamman costumava ser propriedade do tesouro estatal, que o arrendava a um empresário, o qual dispunha de uma equipa de manutenção formada por um atendente (jamadar), um massagista (madaliqsh) e um vigilante do espaço e das roupas dos usuários (natur). O vigilante vendia aos banhistas a pedra de sabão com que limpavam o cabelo e lhes alugava toalhas e roupões de banho.

A disposição do banho mouro era igual em todos os sítios. Através de um vestíbulo, acedia-se a uma primeira sala, decorada amiúde com estátuas antigas e provida de filas de cabides, onde os banhistas se despiam. Dela, passava-se para a sala tépida e, desta, para a estufa, onde se encontrava a caldeira de tijolos, cuja água se mantinha em ebulição graças a um forno colocado na cave, alimentado por achas de ramos de árvore e palmeira anã. A estufa era revestida com mármore ou pedra e dispunha de regos para evacuar a água. Nas suas paredes, havia uns bancos de tijolo sobre os quais os clientes eram massajados ou ensaboados pelos empregados de balneário, que enchiam na pia todos os baldes de água a ferver que fossem necessários. A iluminação e a ventilação faziam-se por uma série de janelinhas que podiam ser abertas, situadas no alto, em redor da cúpula que costumava cobrir a sala de calor. Uma roda de alcatruzes retirava de um poço ou de uma cisterna a água necessária para manter o nível desejado na caldeira.

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A estada num banho mouro, que se prolongava por várias horas, era um motivo de divertimento, sobretudo para as mulheres que se reuniam, lanchavam até e procuravam deslumbrar as restantes amigas com a beleza e delicadeza da sua roupa interior. Cabeleireiras — as mesmas que embonecavam as noivas no dia do seu casamento — prestavam os seus serviços às banhistas, depilavam-nas, colocavam-lhes pomadas, alfena, ungiam-lhes o cabelo com óleos perfumados — sobretudo o mais apreciado, a galiya (em português, algália) — e vendiam-lhes toda a casta de unguentos para os cuidados de pele e saquinhos com pós aromáticos para as roupas.

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Tanto as latrinas como as fontes de abluções (que o crente muçulmano utiliza antes de cada uma das cinco orações quotidianas, bem como o costume de lavar as mãos ou até de enxaguar a boca antes e depois de cada refeição) eram limpas diariamente por um funcionário, que recebia o salário costumeiro. Apesar do uso de balneários estar difundido, o cheiro da multidão na rua, misturado com o dos guisados, era desagradável, pelo que era prática comum proceder-se à sua dissimulação com recurso à utilização de perfumes fortes. Havia indivíduos que tinham como ocupação almiscarar as pessoas, nos lugares públicos, através de aspersões de água perfumada e fumigações de incenso ou de madeiras odoríferas. E, enquanto o incenso se dissipava lentamente sobre as ruas apinhadas, a vida prosseguia entre o rumor das multidões e o chamamento das orações, tecendo silenciosamente a história do al-andalus.
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