Nos distanciamos um do outro e, assim, passou-se uma vida – a bem dizer, duas – com o velho exemplar da Antologia Nacional entre as...

Memória, pra que te quero!

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Nos distanciamos um do outro e, assim, passou-se uma vida – a bem dizer, duas – com o velho exemplar da Antologia Nacional entre as relíquias da amiga.

Líamos juntos; assim começou nosso puro idílio.

Havia nos impressionado fortemente as duas páginas que Raul Pompeia consagra ao exílio da família imperial, no instante desolado em que o coche negro do imperador o deixa na extremidade do molhe
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(paredão que serve de cais) e aquele “vulto indistinto, entre outros vultos distantes, pisa pela última vez a terra da pátria”.

Era no cais Pharoux, tudo muito nebuloso, a luz nevoenta dos lampiões pouco esclarecendo, e a pátria jogando fora, como sabujo, 49 anos de “democracia coroada”, assim consagrada pelo grande homem do tempo e, creio, de todos os tempos, Victor Hugo.

A arte de Raul Pompeia tocou o coração da dupla adolescente, e lá ficou o livro, mais distante no tempo do que no espaço, com as suas juras de que voltaria às minhas mãos quando eu voltasse das férias para a casa dos primos, no Quartel do Quarenta, subúrbio de Campina Grande. Ela mudou de cidade, mudou de estado civil, e tudo pareceu morrer à distância.

Que releitura foi essa que, só agora, transcorrido bem mais que o tempo do Segundo Reinado, um dos seus sobrinhos telefona para saber se o fulano de tal que figura na página de rosto sou eu mesmo e se me interessa reaver o livro?

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Raul Pompeia, um dos maiores escritores brasileiros do século XIX, jornalista, cronista, caricaturista e militante das causas abolicionista e republicana, patrono da cadeira nº 33 da Academia Brasileira de Letras ▪️ GD'Art
E lá me vem tudo de volta, sem mais o flamboyant que deitava o reflexo de suas flores sobre o batente e o momento triste de nossa leitura, pintado por um dos mais finos escritores da língua portuguesa!

Claro que sim, e com que pressa! Quantas sugestões contém esse livro, além do que pretendiam os seus antigos organizadores! Quanto aprendi nele!

— Você é sobrinho?

— Sou, sim. Estou como inventariante e vim de Fortaleza para resolver esse problema. Dei com esse livro, tem o seu nome, que associei ao do jornal, e resolvi tentar. Como é bom poder devolvê-lo, pois há esta nota num pequeno cartão entre as suas páginas: “Devolver na primeira oportunidade”.

Estava longe de imaginar que a oportunidade ocorresse de forma indireta. Mas como valeu!

Não posso saber se o mesmo gênero de emoção virá a ocorrer com um dos meus netos desta nova era de curso digital. Da ciência e da técnica jamais saberemos a que assombro haveremos de chegar. É rara a semana e, mesmo os dias, em certas situações, nos quais o olhar,
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os gestos e a fala de uma das filhas ou de uma das netas não estejam a contar as minhas rugas e notar a minha afonia como se estivessem aqui estando na Europa. Às vezes, os imaginosos veem mais que os cientistas: o finado Eurípedes Gadelha, antigo companheiro de redação, apostava em que as palavras, mesmo sem serem escritas ou gravadas, jamais se dissolvem no ar ou no tempo; continuarão sua navegação enquanto não forem captadas. Não precisava, para isso, ser a palavra de Maomé ou a de Jesus.

O que sei – e bem sei – é que as coisas, do livro à casa, se impregnam da nossa passagem ou do nosso convívio com o mistério de uma presença compartilhada. Quer isto a memória, senhora das duas vidas, a real e a imaginária.
 *Publicada originalmente em 12/07/26 no jornal A União

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