O Ateliê itinerante de Pedro Américo: a biblioteca do convento Santíssima Annunziata (1874-1877)
Após um período de pesquisas sobre o tema escolhido e de uma licença remunerada da Academia Imperial de Belas Artes, Pedro Américo partiu para a Itália em janeiro de 1874. Era naquele país que ele desejava morar e escolheu a cidade de Florença se estabelecendo na Via Antonio Giacommini n. 9. O seu novo trabalho necessitava de um grande espaço para servir como ateliê, pois a tela encomendada seria de grandes dimensões. O local escolhido e obtido foi o espaço da biblioteca do convento Santíssima Annunziata. O fato foi muito comentado pela imprensa italiana da época bem como na de outros países além de ecoar na brasileira.
Praça e convento Santíssima Annunziata, em Florença, Itália. ▪ Litogravura do S.XIX ▪ Fonte: Wikimedia
Após o encerramento da exposição, a tela foi enviada para o Brasil, em 26 de abril de 1877. A Batalha de Avaí foi exposta inicialmente em uma construção de madeira, fabricada especialmente para a ocasião situada na Praça Pedro II. Após a mostra Américo retornou a Florença e se instalou na Via di Mezzo.
O Ateliê itinerante de Pedro Américo: Via di Mezzo, n. 4 (1878-1890)
A Via di Mezzo é uma rua situada no centro de Florença com característica residencial e popular. Foi lá, no número quatro, de acordo com correspondência do pintor, que ele se instalou nessa volta à Itália. E lá funcionou seu ateliê durante alguns anos. De lá, ele se articulava, com o Brasil e com a Itália: novas encomendas e a cobrança ao governo brasileiro do pagamento estipulado em contrato pela confecção da Batalha do Avaí. Também continuou a pedir e obter renovações de licença da Academia.Via di Mezzo, n. 4, Florença, Itália ▪ GMaps
Batalha do Avaí (1877): o quadro, que retrata um dos principais combates da Guerra do Paraguai, foi elaborado segundo os cânones da pintura histórica acadêmica, destacando-se pela escala monumental e pela complexidade de sua composição. ▪ Acervo do Museu Nacional de Belas Artes
Pedro Américo, em auto-retrato de 1893. ▪ Pinacoteca do Estado de S. Paulo
Durante esse período ele pintou bastante. Uma grande quantidade de telas de assunto variado e alguns retratos. Em paralelo, continuou a anotar todos os acontecimentos da sua vida cotidiana em seu diário. Os negócios continuavam e, apesar da moléstia alegada, prosperavam. Em 6 de abril de 1884, escreveu novamente ao Ministro dos Negócios do Império sobre onze quadros que havia concluído e enviado para o Brasil: queria expô-los na próxima mostra da Academia Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro. Comentou na carta que havia terminado esses trabalhos “durante os intervalos de seu sofrimento físico”, e que desejava que os quadros fossem expostos “nas mesmas condições que os trabalhos dos outros concorrentes”.
O artista recebeu a visita da princesa Isabel e de seu marido, o conde d'Eu, para admirar a tela sobre a proclamação da Independência do Brasil e, na oportunidade, aproveitou para mostrar ao casal real o esboço para uma tela sobre a abolição da escravatura.O pintor e sua família chegaram ao Brasil no início de 1885. Não havia qualquer intenção de uma temporada de longa duração, ou de retomar suas aulas na Academia. Segundo suas próprias palavras, em uma correspondência para seu amigo de infância Daniel Pedro Ferro Cardoso, algum tempo antes, ele já havia pedido três vezes ao governo brasileiro sua demissão desta “espécie de necrópole que era a Academia.”
Logo em seguida ele conseguiu o que pretendia e assinou um contrato, em 14 de janeiro de 1886, para a execução de uma tela sobre a independência do Brasil a qual intitulou A proclamação da Independência no Brasil, mas que ficou conhecida popularmente como O Grito do Ipiranga. Após a conclusão de seus negócios no Brasil, o artista voltou para Florença com a família. Na bagagem levava uma nova licença para tratamento de saúde. Em Florença passou a ocupar o mesmo endereço na Via de Mezzo onde manteve também o seu ateliê.
Independência ou Morte! (1888): o quadro representa a proclamação da independência do Brasil às margens do riacho Ipiranga, em 7 de setembro de 1822. Produzida para o Museu Paulista, a obra tornou-se a mais conhecida representação visual desse episódio e um dos ícones da pintura histórica brasileira. ▪ Acervo do Museu Paulista.
O Ateliê itinerante de Pedro Américo: o Rio de Janeiro sob a República (1890-1893)
O golpe militar que instituiu a República surpreendeu Pedro Américo em Florença em vias de iniciar o quadro comemorativo da abolição da escravatura que tinha sido encomendado pelo governo imperial. Os trabalhos foram, naturalmente, interrompidos. Américo necessitava, porém, urgentemente, de se libertar de sua imagem de protegido do imperador exilado e tomar lugar junto ao novo poder: uma questão de sobrevivência. De Florença, ele redigiu um manifesto, datado de 15 de fevereiro de 1890 no qual, entre críticas ao antigo regime e exaltação ao novo,
Rio de Janeiro, c.1890 ▪ IMS ▪ Domínio púlico
Américo deixou sua família na Itália e veio ao Brasil logo após o golpe. A capital brasileira sob a República não lhe agradou mais do que sob a monarquia. Escrevendo à sua família na Europa ele se queixa veementemente do aspecto feio e sujo da cidade afirmando que não tinha visto mais do Rio que “o que se vê pelas ruas que continuam as mesmas, estreitas e cortadas por riachos de água suja etc.” e manifesta esperanças de resolver seus negócios o mais rápido possível e retornar à Florença. Essa carta também reflete a sua insegurança em relação ao novo regime e às mudanças que estavam se processando também no meio artístico ou, pelo menos, que estavam sendo esperadas. Diz ele, no texto: “os alunos da Academia querem que o governo extinga esta e ponha para fora os lentes e querem mais outras cousas que talvez o Governo não queira fazer” e que “no meio de tantas opiniões e de tanta confusão de ideias temo pronunciar-me”. Mas se pronunciou, apesar de ser bem mais moderado do que seu irmão Aurélio de Figueiredo que, com seu outro discípulo, Décio Villares (além de Montenegro Cordeiro), liderava os positivistas autores do Projeto Montenegro, que propunha antes o extermínio da Academia do que uma reforma na instituição.
Aurélio Figueiredo (irmão de Pedro Américo) pintando o quadro O Baile da Ilha Fiscal, Rio de Janeiro, 1907. ▪ Fonte: Biblioteca Nacional
Rua do Lavradio, Rio de Janeiro ▪ GMaps
Nesse período sua produção se adaptou aos novos tempos republicanos e ao seu mercado. No Tiradentes Esquartejado ele foge da visão do “belo ideal” fragmentando, violando o corpo do agora herói nacional.
Tiradentes Esquartejado (1893): o corpo de Joaquim José da Silva Xavier após a execução determinada pela Coroa portuguesa em 1792. A obra afasta-se do tom heroico tradicional e concentra-se na representação do martírio que transformou Tiradentes em símbolo da independência e da construção da memória nacional. Acervo do Museu Mariano Procópio, Juiz de Fora-MG.
Os primeiros tempos republicanos não foram favoráveis às artes de uma maneira geral. As elites brasileiras estavam ocupadas em consolidar o regime e não existia mais o mecenato de Pedro II. Por outro lado, a classe média brasileira não era suficientemente esclarecida para se interessar por artes visuais no sentido de patrociná-las. Pedro Américo tentou reverter essa realidade. Ele havia pintado, em Florença, uma série de trabalhos envolvendo uma temática voltada para a execução de animais exóticos, frutos prováveis de anotações feitas em seus tempos de juventude na Argélia. A partir desses trabalhos ele montou, talvez, uma das primeiras mostras voltadas para a classe média brasileira, expondo numa loja, La Glace Elegante, que fez, então, o papel de galeria de arte. Ninguém comprou qualquer trabalho.
Leão (1890): o quadro revela o interesse do artista pela representação da vida animal. ▪ Acervo da Pinacoteca de São Paulo.
O Ateliê itinerante de Pedro Américo: um solitário na Via di Maggio (1893-1905)
A Via Maggio fica após a Piazza Frescolbaldi e vai até a Piazza San Felice, próxima ao Palazzo Pitti. Nela, encontramos diversos palácios construídos no século XIV. Entre eles o Palazzo Michelozzi, que não é o mais bonito e nem o mais importante da rua, mas foi lá onde se instalou Pedro Américo até a sua morte e onde se encontra uma placa em sua homenagem.Em Florença, no Palazzo Michelozzi, uma placa recorda a passagem de Pedro Américo pela cidade italiana. Foi ali que o pintor paraibano viveu parte de seus anos de maturidade artística, produzindo algumas de suas obras mais importantes. A homenagem preserva a memória do artista em um cenário diretamente ligado à sua trajetória. ▪ Imagens
Cristo Morto (1901): o quadro pertence à fase final da carreira do artista e revela seu interesse por temas religiosos tratados segundo a tradição acadêmica europeia. ▪ Museu Casa de Pedro Américo, Areia-PB
Apesar da inexistência de uma encomenda, ele conseguiu o difícil feito de vendê-la para a República. A velhice do artista aconteceu na tranquilidade florentina. Escrevia frequentemente à sua família, principalmente para sua filha Carlota, seu genro e sua neta, cartas ilustradas com caricaturas e poemas bem humorados que expõem um lado seu oculto ao grande público e a serenidade da sua maturidade. Era um avô terno, atencioso e sem nenhuma intenção de deixar Florença. Naquele momento, não tencionava voltar a expor no Brasil. Recusava convites. A Escola de Belas Artes lhe pediu trabalhos para expor e ele rejeitou sob o pretexto de não ter nada importante a mostrar.
Retrato de Virgínia (S.XIX), neta do artista: a obra revela uma faceta mais íntima de um pintor frequentemente associado às grandes composições históricas. ▪ Col. particular
A perspectiva talvez fosse apenas uma fantasia para Pedro Américo, entretanto, até 1905, ano de sua morte, uma correspondência se manteve sobre o fato. Não acreditamos que o artista queria morar no norte do Brasil ou em qualquer outra parte do país. Porém, ser querido, ser importante, era uma alternativa que parecia interessante naquele momento de esquecimento. Por carta ele justificou que: “era o desejo de servir aos amigos e sonhar com um Brasil politicamente renovado que objetivava sua perspectiva paraense.” O fato é que ele considerou essa possibilidade até o seu fim: em 15 de março de 1905, seis meses antes de sua morte, ele ainda matinha Belém em banho-maria, se justificando e prometendo um futuro possível. Em espírito, pelo menos, ele continuava nômade. Seus espaços de trabalhos, seus incontáveis ateliês refletem essa sua vida de andarilho. Uma existência de alguém que quis sempre descobrir mais.
Paz e Concórdia (1895): uma alegoria da jovem República brasileira, construída a partir de referências clássicas e elementos simbólicos ligados à ordem, à diplomacia e à unidade nacional. ▪ Museu de Arte de São Paulo






















