PAZ
A paz é o retorno do que se recorda,
de que existe algo como um impulso,
que te joga longe, além da revolta,
e te diz que há vida, mesmo no absurdo.
ENCONTRO
Tenho encontrado algumas casas
onde posso deitar na terra,
sentir as raízes dos homens;
o distrato com as causas perdidas.
Os que partem, os que festejam,
os passos aleatórios,
o anonimato de algumas vozes
são o feixe das vidas que apreendo
— o nome das casas.
É no reboco, no desmantelo das tintas,
que estão as histórias,
o emaranhado do tempo das mãos,
o limite dos segredos das paredes.
Tranco a porta quando
encontro estas casas,
busco em seu silêncio
a traição das verdades transitórias
e se algum nome se confunde com o meu.
PAGADOR DE PROMESSAS
Era rente,
a reta inevitável ao abismo,
e a suspeita, um aviso do fim dos ladrilhos,
pedia uma pausa,
mas avançava percorrendo o nada.
— Não se percebe
que a certeza também descarrilha.
ANDRAJOS
Percebe que a noite segue sendo dia?
É que ensaiava uma despedida,
riscar uma seta em um tronco,
apontando para o inominado dos tempos,
no debruado dos caminhos.
(Que pretensão reveste nossa incompletude?)
ACORDAR
"E o silêncio servindo de amém."
João Bosco
Sentemos um pouco
e pensemos nas batalhas.
— Somos, enquanto consciência,
o que pretendíamos ser?
E esta pergunta,
com a dose certa de álcool,
não seria uma paz recortada com avisos?
FIM
E, de repente, entendia o desterro
estendido sob uma bruma de paz.
Era assim a despedida
— compassos que marcavam
o que chamamos andar sem rumo.
Nem sóbrio, nem atento,
quem sabe sabiamente iludido,
não olhei além das estrelas.
Seria um desperdício
sabotar a consciência.
UM PASSO ESTENDIDO
Tem amor que admira os cabelos da noite,
o ritmo que ondula na réstia das sombras.
— O que se sabe desmente a certeza?
Distribui o orvalho no estendido dos dias?
Não que eu saiba, pois desdigo saber,
mesmo que minta e desvie o olhar.
— Tem amor que performa e se despe?
E se cobra recobrir-se com o eterno?
Sei de cheiros e urgências
e o corte que não dou na vida que me cabe.
O AMOR DOS BRUTOS
Queria entender a melancolia dos brutos,
não para apaziguar
a repulsa pela soberba,
mas para entender a origem da fúria
que antecede a derrota
no entristecido das horas.
FRATURA
O repartido do todo
tem pedaços de ausência.
A ASA E A PENA
Somos deuses
entrecortados de angústia.
Não cabe ao homem
a escrita das asas,
mas sim o desconexo das penas
em seu voo aleatório
— um poema —
sobre a beleza da queda.
PEQUENO PÁSSARO
Por mais desesperançoso que seja o voo
que percorre, na mente, o vazio
de um céu sem a vestimenta do divino,
ainda se veem as nuvens
retocar, com suas águas,
as bordas do abismo,
a retomada dos horizontes em fuga,
o sem-número dos subterfúgios
das andorinhas no falsete do entardecer.
E neste mais se refaz o menino,
que subiu soturno a escada de Jacó
e surpreendeu-se sem asas
para planar na fé.
11.7.26
PAZ A paz é o retorno do que se recorda, de que existe algo como um impulso, que te joga longe, além da revolta, e te diz que há...
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