PAZ A paz é o retorno do que se recorda, de que existe algo como um impulso, que te joga longe, além da revolta, e te diz que há...

A paz é o retorno do que se recorda

poesia capixaba espirito-santense jorge elias neto
PAZ A paz é o retorno do que se recorda, de que existe algo como um impulso, que te joga longe, além da revolta, e te diz que há vida, mesmo no absurdo. ENCONTRO Tenho encontrado algumas casas onde posso deitar na terra, sentir as raízes dos homens; o distrato com as causas perdidas. Os que partem, os que festejam, os passos aleatórios, o anonimato de algumas vozes são o feixe das vidas que apreendo — o nome das casas. É no reboco, no desmantelo das tintas, que estão as histórias, o emaranhado do tempo das mãos, o limite dos segredos das paredes. Tranco a porta quando encontro estas casas, busco em seu silêncio a traição das verdades transitórias e se algum nome se confunde com o meu. PAGADOR DE PROMESSAS Era rente, a reta inevitável ao abismo, e a suspeita, um aviso do fim dos ladrilhos, pedia uma pausa, mas avançava percorrendo o nada. — Não se percebe que a certeza também descarrilha. ANDRAJOS Percebe que a noite segue sendo dia? É que ensaiava uma despedida, riscar uma seta em um tronco, apontando para o inominado dos tempos, no debruado dos caminhos. (Que pretensão reveste nossa incompletude?) ACORDAR "E o silêncio servindo de amém." João Bosco Sentemos um pouco e pensemos nas batalhas. — Somos, enquanto consciência, o que pretendíamos ser? E esta pergunta, com a dose certa de álcool, não seria uma paz recortada com avisos? FIM E, de repente, entendia o desterro estendido sob uma bruma de paz. Era assim a despedida — compassos que marcavam o que chamamos andar sem rumo. Nem sóbrio, nem atento, quem sabe sabiamente iludido, não olhei além das estrelas. Seria um desperdício sabotar a consciência. UM PASSO ESTENDIDO Tem amor que admira os cabelos da noite, o ritmo que ondula na réstia das sombras. — O que se sabe desmente a certeza? Distribui o orvalho no estendido dos dias? Não que eu saiba, pois desdigo saber, mesmo que minta e desvie o olhar. — Tem amor que performa e se despe? E se cobra recobrir-se com o eterno? Sei de cheiros e urgências e o corte que não dou na vida que me cabe. O AMOR DOS BRUTOS Queria entender a melancolia dos brutos, não para apaziguar a repulsa pela soberba, mas para entender a origem da fúria que antecede a derrota no entristecido das horas. FRATURA O repartido do todo tem pedaços de ausência. A ASA E A PENA Somos deuses entrecortados de angústia. Não cabe ao homem a escrita das asas, mas sim o desconexo das penas em seu voo aleatório — um poema — sobre a beleza da queda. PEQUENO PÁSSARO Por mais desesperançoso que seja o voo que percorre, na mente, o vazio de um céu sem a vestimenta do divino, ainda se veem as nuvens retocar, com suas águas, as bordas do abismo, a retomada dos horizontes em fuga, o sem-número dos subterfúgios das andorinhas no falsete do entardecer. E neste mais se refaz o menino, que subiu soturno a escada de Jacó e surpreendeu-se sem asas para planar na fé.

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