Dona Severa ainda não se acostumara com os dez anos de correria de Tiquinho. O neto querido era seu maior tesouro, entregue a ela logo após o parto que tirou a vida de sua filha.
O pequeno entrou correndo na cozinha, esbaforido, como de costume, e foi logo perguntando:
GD'Art
— Que VT é esse, menino?! Eu sei lá o que é isso! Onde tu ouviste falar desse negócio?
— Vó! Tá todo mundo falando que a gente vai ser invadido pelos VT… que eles estão chegando numas vitrolas especiais que têm até disco voador… Eu já tô é com medo, vó! Dizem que tem uns até parecidos com gafanhoto, outros com jabuti…
Severa riu-se por dentro. Mulher sábia, formada na escola da vida, sabia que não era justo rir dos medos alheios. Cada um tem seus motivos para ter medo, e somente o conhecimento dissolve o temor, na medida em que nos devolve a tranquilidade e a segurança de haver entendido.
— Meu filho… Não é VT que se diz… É ET, com a letra "E" de elefante. Significa "extraterrestre".
— Oxê! E é "extra" por quê? — perguntou o curioso.
— Diz-se dos seres e das coisas que não são terráqueos, isto é, da Terra. Todas as coisas que foram criadas fora da Terra, o nosso planeta, são chamadas extraterrestres. Com a ideia de que existe vida fora da Terra, como existem coisas que não são daqui, falamos em ET: extraterrestre.
GD'Art
— Oh, meu filho! Tenha medo, não! Senta aqui que a vovó vai te explicar melhor… Peraí que eu vou botar um suco de uva para você se acalmar e a gente conversar melhor… Senta aqui.
E puxou a cadeira. Depois de sentar, o menino pensou alto:
— Eu não entendi o negócio da vitrola e do disco voador…
Severa riu-se novamente em silêncio.
— Meu filho… De onde tu tirou essa história de vitrola?
— Pois então, vó… Vovô num toca disco? Dizem que os ETs estão vindo nuns discos voadores…
— Não, menino… Os discos não são de música! O povo chama assim porque eles brilham num formato de disco… Se parecem com um disco.
GD'Art
A avó fez uma pausa para pensar na resposta. Era uma questão grave demais para ser respondida com precipitação. Pegou dois copos, abriu a lata de sequilhos e tirou dois para cada um. Serviu o suco com cuidado e mandou o menino tomar um gole do copo que tinha em mãos. Mastigou um sequilho com calma.
— Anda, vó! Eu tô é agoniado! Existe mesmo ET?
— Menino, você acha que as estrelas da noite são vagalumes? A imensidão do Universo é razão suficiente para acreditarmos na possibilidade de vida extraterrestre. O modo como nossa ciência compreende o surgimento da vida, a partir de condições favoráveis, indica que tais circunstâncias podem ter — e devem ter — ocorrido em outros planetas…
— Then is it true that the ETs are coming?! — Arregalou os olhos enquanto perguntava.
— Menino, existe uma diferença entre conceito, possibilidade e existência. Quer saber disso para entender os ETs?
GD'Art
— Quero sim, voinha…
— Pois bem. Antes de falarmos sobre a vinda dos ETs, vamos entender algumas coisas: existe o conceito de ET, a possibilidade de vida extraterrestre e a existência efetiva de fatos que demonstram a realidade dos ETs. Mas são coisas diferentes. Primeiro, o conceito: precisamos definir uma coisa para podermos falar dela. O conceito é como uma definição que diz o que uma coisa é. Quando dizemos que extraterrestre é "tudo o que foi criado fora da Terra", isto é um conceito. Da mesma forma que falamos do Curupira como um ser que protege a floresta e tem os dois pés virados para trás. É uma definição, mas não significa que ele exista. Algumas ideias são conceitos que não existem de fato no mundo, somente na nossa imaginação…
— E a possibilidade? — interrompeu o curioso, impaciente.
— A possibilidade é o conjunto de circunstâncias que tornam um evento capaz de acontecer. Por exemplo: onde tem água saudável, é possível que tenha peixes. Onde tem nuvens, é possível que tenha chuva… Onde tem criança, é possível que tenha brincadeiras. A possibilidade não é garantia de existência, mas é um sinal de que aquilo não é impossível…
GD'Art
— A existência é diferente. Para afirmar que uma coisa existe, é preciso oferecer indicações de fatos que permitam verificar isso. A existência se mostra na realidade concreta e pode ser concluída por meio de evidências. Se encontramos um relógio no deserto, esse fato é uma evidência de que existe um relojoeiro que o construiu ou que alguém transportou o relógio até lá. Se vemos os ovos da galinha ou a própria galinha, sabemos de sua existência…
Tiquinho pensou um pouco durante a pausa feita pela avó. Sabia da importância dos ensinamentos dela, ainda mais quando ela se sentava com calma para conversar. Refletiu sobre as três palavras: conceito, possibilidade e existência.
— Vó Severa… Então conceito é a ideia do que a coisa é… Possibilidade é aquilo que pode existir, mas que a gente ainda não viu… E existência é quando a gente vê ou sente a coisa com certeza… É isso?
GD'Art
— Antes eram OVNIs, né? — disse o menino.
— Eram, mas o termo foi alterado. Veja que o conceito de vida extraterrestre é uma consequência natural da imensidão do Universo. O Espiritismo, por exemplo, nos fala sobre a pluralidade dos mundos habitados, embora descreva que nem todos eles possuem a mesma constituição física que a Terra. A ciência humana também já concorda com a possibilidade de haver vida fora daqui, e o nosso próprio esforço de visitar outros planetas já demonstra que é perfeitamente possível sermos visitados… Mas…
Dona Severa fez uma pausa educativa para ver se o neto era capaz de conectar as pontas do aprendizado. O pequeno abriu um sorriso largo, com uma expressão de pura descoberta.
— Já sei! — exclamou ele. — Mas faltam as evidências da existência desses fenômenos alômalos, anômados… A-NÔ-MA-LOS: anômalos!
GD'Art
O menino ficou pensativo. A avó percebeu que a lição havia feito um ótimo efeito e aproveitou o momento para arrematar:
— Quando o Espírito Erasto nos fala sobre a necessidade de prudência em relação às fotoinformações que vêm das comunicações espirituais, ele afirma que é melhor rejeitar dez verdades como mentiras do que aceitar uma única mentira como verdade. Esse conselho deveria ser aplicado a toda e qualquer fonte de fotoinformação. A verdade se impõe com o tempo, e as evidências, aos poucos, a justificam. Até lá, o melhor é manter uma saudável desconfiança. Sabemos que é possível existir vida fora da Terra; é apenas uma questão de tempo para termos provas inquestionáveis disso. Também sabemos da possibilidade de sermos visitados por habitantes de outros mundos, encarnados ou desencarnados. Mas, no plano das evidências, o bom senso diz que devemos aguardar um pouco mais antes de bater o martelo. Entendeu, meu querido?
GD'Art
A avó deu uma gostosa gargalhada e completou:
— Apois, coma!
Conclusão:
Diante da torrente de fotoinformações que nos assalta cotidianamente, faz-se imperioso discernir com clareza os limites entre o conceito, a possibilidade e as evidências concretas de existência que cercam qualquer suposto fato que nos chegue. Na atualidade, o exercício de um ceticismo saudável e prudente, conforme a célebre recomendação do Espírito Erasto, mostra-se indispensável para salvaguardar o bom senso e evitar o contágio das ilusões. Afinal, a fé inabalável só o é quando pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da Humanidade, erguendo-se sobre as bases sólidas do raciocínio e da lógica, exatamente como ensinava Allan Kardec.














