Certa vez, quando concelebrava uma missa com um padre, justamente no dia em que se tinha como texto para reflexão o Sermão da Montanh...

O padre e a borboleta

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Certa vez, quando concelebrava uma missa com um padre, justamente no dia em que se tinha como texto para reflexão o Sermão da Montanha, de repente uma borboleta amarela pousou no alto da cruz de madeira posta ao lado do altar e executou sua típica coreografia. Depois de algum tempo, saiu borboleteando pela nave da igreja, encontrou uma janela aberta e foi embora. Todos, calados, contemplaram a visitante. Terminada a leitura da passagem bíblica, o padre ficou silencioso. Não comentou a passagem das Bem-aventuranças. Apenas disse: “Reflitam sobre a cena que acabamos de presenciar”. Prosseguiu com o rito da celebração. O sermão dele resumiu-se à contemplação da borboleta.

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O bailado das borboletas sempre me deslumbrou. Uma fascinação alimentada pelas lembranças de quando perambulava pelas capoeiras de Tapuio, sítio onde nasci, em Serraria. Encontrava borboletas e, quando as pegava, colocando-as na palma da mão, observava-as alçar voo. Somente agora me dou conta do deslumbramento daqueles momentos profundamente poéticos e humanos.

As borboletas se comunicam sem usar palavras. Geram em nós uma mensagem de liberdade e paz. Como viver no silêncio? Penso até que trazem mensagens dos deuses até nós e protagonizam cenas que nos levam à reflexão sobre o modo de viver.

No jardim de nossa casa, na primavera do ano passado, apareceu um pequeno grupo de borboletas, entre as quais uma amarela que bailava lentamente. Em suas asas, as borboletas trazem energias cósmicas.

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As borboletas do meu jardim trouxeram lembranças de quando morava no sítio. Na década de 1960, depois de minhas obrigações de agricultor, zanzava a esmo pelas capoeiras. Quando encontrava borboletas em seus infindáveis bailados, observava-as em seus voos, até perderem-se no mato, quando não as pegava.

A primavera chegou com suas borboletas. Espero que papariquem as flores de nosso jardim. Balancem as asinhas em volta da roseira para aspergir o local com perfume; depois, silenciosas, sigam para outros lugares e retornem no entardecer.

No alvorecer da vida, contemplava-as como agricultor solitário; agora, no crepúsculo, as borboletas trazem recordações. É quando percebo que elas nunca se afastaram de mim.

As borboletas dão asas à imaginação e contribuem para que poetas e escritores produzam textos e poesias de beleza estética. Escritores como Roseana Murray, Vinicius de Moraes e Cecília Meireles, somente para citar estes, fizeram poemas tendo as borboletas como tema.

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O compositor João de Barro cantou:

Voa, pois a vida é tão boa Quando se tem Um amor no coração.

O japonês Akira Kurosawa, no bonito e emocionante filme *Sonhos*, utilizou paisagens cobertas por revoadas de borboletas que parecem povoar o mundo, com mensagens do cosmos.

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Cena de Sonhos, de Akira Kurosawa ▪️ Mubi
Rubem Braga registrou sua perseguição à caça de uma borboleta amarela pelas ruas do Rio de Janeiro. Sua narrativa, tantas décadas depois, ainda emociona.

Espero que, na primavera, outras borboletas visitem a roseira da minha casa e me façam lembrar do tempo em que era agricultor em Serraria, sem nunca esquecer a borboleta que nos visitou durante a missa.

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