Há um estranho paradoxo em nosso tempo, porque nunca estivemos tão conectados digitalmente, e ao mesmo tempo nunca tenha sido tão fácil sentir-se sozinho.
Acordamos, e antes mesmo de perguntar ao corpo se ele descansou, perguntamos ao telefone o que aconteceu no mundo. Há mensagens, notícias, vídeos, opiniões, fotografias de vidas
Foto: R. Lach
A depressão não pode ser explicada por uma única causa, e seria simplista responsabilizar apenas o celular. Mas existe um cuidado necessário quando o mundo digital começa a ocupar o espaço do sono, do movimento, da conversa, da luz do dia, do encontro e do silêncio. Isso ocorre quando a comparação com a vida editada dos outros nos faz acreditar que a nossa é insuficiente. Quando temos centenas de contatos na nuvem, e ninguém para quem telefonar numa tarde difícil.
A tecnologia aproxima distâncias, informa, diverte e até salva vidas. Mas não substitui o abraço, não percebe o olhar cansado de quem está ao nosso lado, não sente o cheiro do café, não escuta o vento, e não segura a mão de ninguém.
Imagem: Shvets Prod.
Imagem: Kaboom
A espiritualidade, nesse sentido, pode ser entendida como aquilo que nos reconecta ao significado da existência: a fé para alguns, a natureza para outros, a família, a amizade, a arte, a música, a contemplação ou simplesmente a capacidade de permanecer alguns minutos em silêncio sem procurar uma tela.
Precisamos cuidar do nosso tempo de tela, mas, principalmente, cuidar do nosso tempo de vida.Talvez o melhor aplicativo para a solidão ainda seja uma conversa. O melhor filtro para o rosto é um sorriso verdadeiro. A melhor rede de contatos é aquela formada por pessoas que aparecem quando precisamos, e a melhor memória, muitas vezes, é justamente aquela que está apenas dentro de nós, porque estávamos ocupados demais vivendo para pegar o celular e fotografar.
Foto: V. Gariev
Mas é a vida, quando verdadeiramente vivida que vai iluminar seus olhos.











