Como seria viver no ano de 1794? As pessoas viviam sem conforto, com dificuldades, condições de vida muito precárias. Para se iluminar as ...

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Como seria viver no ano de 1794? As pessoas viviam sem conforto, com dificuldades, condições de vida muito precárias. Para se iluminar as casas, usava-se banha de carneiro nas luminárias, plantava-se para o próprio sustento e confeccionavam-se as próprias roupas.

“Escavação e transmutação são ingredientes fundamentais da minha produção e se fundem a interesses por temas como corpo, passado, memória...

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“Escavação e transmutação são ingredientes fundamentais da minha produção e se fundem a interesses por temas como corpo, passado, memória, saudade, morte, relação público-privado e oprimido-opressor... Cada obra resgatada assume aqui a tarefa de complementar outra para compor um corpo só, um arquivo quimérico ou uma corda do tempo feita de fios de várias idades e diferentes matérias.”
José Rufino

Há dois anos, José Rufino, artista plástico paraibano, escritor, professor de Artes da UFPB e UFPE, autor do livro "Afagos" — ou geólogo, paleontólogo, jardineiro — ou artista simplesmente, e tantas outras coisas —, participou da 5ª edição dos Debates Psicanalíticos "Arte e Trauma". Fui assistir-lhe e sou grata por ter mergulhado nessa noite do saber.

Rufino, professor que é, preparou uma palestra irretocável e eloquente sobre o mistério da criação, sobre a linguagem, enfocando o seu próprio processo criativo. Para tanto, mergulhou em assuntos diversos, como o papel do artista pesquisador, sua família, infância, estudos, formação, interesses, vida em Recife, referências a outros artistas, vida política dos familiares, mágoas, tabus, rastros, engenhos, pegadas, eurekas e epifanias. Concluiu a exposição com o seu trabalho sobre os Desaparecidos Políticos, acreditando ele que isto remeteria ao passado, quando, na verdade, infeliz e ironicamente, seria falar do presente.

“O artista trabalha para a linguagem, para estabelecer paradigmas!”. Com slides, percorremos as artes rupestres, Stonehenge, paisagens bíblicas, até chegarmos em Van Gogh, Antônio Dias, a fotografia, o cinema e outras artes contemporâneas que não mais desejam representar a realidade, mas um conjunto de novas experiências/fragmentos e relações... no lugar da obra em si. O artista e o coletivo: o ateliê, o crítico, o mercado (que agora terá que entender, provocar e se adaptar) e toda a cadeia, a visão sistêmica do criador x observador, que se contrapõe ao artista isolado.

Logo foi exibida "A Fonte", de Duchamp, transgredindo todos os conceitos... até hoje! O deslocamento do objeto, do olhar, do óbvio para a sensualidade de um outro corpo. Uma bicicleta que gira fora de um guidão, mas agora num busto. O busto do desvio. Uma coisa que é outra coisa, e mais um monte de ressignificados.

E Rufino lançou o susto: “A criação artística é livre?”. Como formular isso tendo em vista a tradição e a ruptura?. A questão da autoria; a pulsão da criação é livre? — “A ideia torna-se uma máquina de fazer arte” — citou Sol LeWitt. "Será que a Arte perdeu a sua capacidade de criar? Provocar?" — instigou o palestrante.

O artista quer ser revolucionário. Mas também quer ser assimilado. Eis a questão! Essa revolução vai ampliar o simbólico e o mercado vai à reboque. Exemplos como o Projeto Coca-Cola de Cildo Meireles, a calça Jeans e o caminho que percorreu (desde os operários americanos até os dias de vitrine de hoje) ilustram algumas das ideias discutidas.

A artista/performer feminista cubana Ana Mendieta unia seu corpo com a terra para tornar-se uma extensão da natureza. Rufino utiliza a "criação e a cura", o "eu lírico", o "poético" para falar de assunto que sangra. Frida Kahlo utilizou o corpo para falar das suas dores. E seguimos interessados naquele caminho sem fôlego.

Enquanto o artista falava das cartas familiares e todo o seu trabalho ruminante de escavações literárias/simbólicas/poéticas, fiquei a pensar na instalação "Intolerância" de Siron Franco, que visitara em São Paulo, alguns anos antes, trabalho que me marcou muito. Aconteceu no Memorial da Liberdade (antigas salas do DOI-CODI). Uma amiga — que viveu os tempos da ditadura em São Paulo, tendo sido presa e torturada — ficou incomodada com o título. “Como tortura é intolerância? Isso é minimizar! Intolerância é algo menor do que se viveu nas galerias desse lugar sangrento” – exclamava ela com todas as suas razões. Hoje, olhando em perspectiva, até acho forte o termo "intolerância", pois é nele que tudo se inicia.

Fiquei transtornada ao me deparar com uma montanha de sapatos des-encontrados. Gastos. Maltrapilhos. E mais uma outra de bonecos do tamanho de gente, vestidos como se gente fossem. Os "corpos" amontoados, jogados em valas, tenebrosos. Quase tive ânsias, de tão fortes esses corpos me pareciam; esgotados e no mais sub-humano que os humanos podem estar; subjugados por seus algozes. "Tortura Nunca Mais!" — pensei naquele momento. Hoje, esse slogan se perde nas fake news! Um horror que se anuncia sorrateira e agressivamente.

Rufino seguia a falar dos seus métodos, processos, persistências, listas, arquivos, desafios, obras inimigas e riscos. Pensei, então, na complexidade dos seres humanos. Observei o artista inquieto, que trabalha com o passado, com a memória e com o esquecimento, com o corpo e o espírito, a opulência e as faltas. Sua arte já vem nas profundezas das Terra. Uma carta não é mais uma carta! E a arte ressignifica sim.
É uma única forma de se viver a catarse e redimensionar um trauma. No filme Desejo e Reparação (2007), só a literatura salva tanta mentira irreversível quando se tem a morte. A artista francesa Sophie Calle também tomou emprestado uma carta do companheiro que rompia o amor, e criou uma instalação: "Cuide de Você". Exorcizando sua dor em público e assim, quem, sabe, superando-a. Calle, Duchamp, Rufino, assim, refazem dores, fontes, mágoas, lágrimas, rancores, para poderem transcender significados anteriores e lançarem outros olhares e leituras de um fato, de um desejo, da morte e principalmente da vida.

"Plasmatio" foi uma das exposições na Bienal de São Paulo que deu foco à palestra. Recentemente, tivemos a oportunidade de ver uma outra exposição: "Limbo", resultado de um processo de resgate de obras que estavam guardadas, perdidas, esquecidas, desprezadas, inconclusas ou apenas à espera de uma chance para aflorar pelas brechas. É também repleta de caminhos, peças, cronologias e perdições, talvez daquilo que tem nesse espaço suspenso: o limbo de nossa existência.

Em 30 anos de trabalhos fortes, enigmáticos, com rasgos de vida na frente e no verso, percebi que conhecia quase nada daquele artista escavador, tão diverso, perfeccionista e determinado, conforme as minhas impressões. Um pesquisador da alma, dos rastros de sua família, não só da família autobiográfica (que ele se transveste pelo nome do avô (para ter ainda mais legitimidade dessa escavação do passado), mas da família ampla da humanidade. Um pesquisador de um período histórico, como neste tempo em particular, da Ditadura Brasileira.

Rufino encerrou dizendo: ”Artistas são como bola de soprar! Podem estourar!" — Fiquei de olhos bem abertos durante quase três horas ouvindo-o discorrer com tanta propriedade sobre seu trabalho, sobre Arte, sobre História e sobre os enigmas dos processos criativos... dele e de outros.

Aplausos sempre!




Ana Adelaide Peixoto Tavares é doutora em teoria da literatura, professora e escritora

Quais seriam os segredos guardados há séculos nos pavimentos e nas paredes das construções do Centro Histórico de João Pessoa? Ou mesmo no...

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Quais seriam os segredos guardados há séculos nos pavimentos e nas paredes das construções do Centro Histórico de João Pessoa? Ou mesmo nos paralelepípedos das ladeiras e ruas daquela região? Os amores impossíveis, os açoites implacáveis, porres sofridos, sorrisos perdidos. Cada história silenciada, testemunhadas por seres que se foram, ficaram abafadas e de alguma forma registradas em pedra e cal.

Eis que retornavam então dos campos aqueles caçadores, atraídos dessa feita pelo surpreendente superávit alimentar que agricultores vinham ...

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Eis que retornavam então dos campos aqueles caçadores, atraídos dessa feita pelo surpreendente superávit alimentar que agricultores vinham conseguindo acumular. Esse excedente era em grande parte fruto da cultura do arado que, a par com a domesticação de animais pesados, provocara uma reviravolta no cultivo das plantas, e dando origem assim aos primeiros afastamentos e diferenciações no modo de vida aldeã.

Autor de um livro também intitulado “Eu”, o português Alfredo Pimenta está entre os autores que teriam influenciado Augusto dos Anjos. Con...

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Autor de um livro também intitulado “Eu”, o português Alfredo Pimenta está entre os autores que teriam influenciado Augusto dos Anjos. Confrontando o livro do português com o do paraibano, deparamo-nos, de fato, com algumas curiosas coincidências. Mas tanto no espírito, quanto na forma, há uma enorme diferença entre os dois.

Por exemplo: ambos fizeram versos à dor e à mágoa. Mas, enquanto Augusto dos Anjos identifica na mágoa um travo maiúsculo e definitivo, de ressonâncias metafísicas, o qual se constitui em marca da falta (mácula) humana –
Alfredo Pimenta enaltece, preponderantemente, a mágoa na mulher. A mulher que chora (a mulher magoada) aparece em sua lírica como uma imagem de obsessivo apelo emocional.

Assim é que, no primeiro dos sonetos nomeados de “Santificação da mágoa”, ele refere a certa altura:


"Tudo em ti me revela uma tristeza Filha da grande dor da natureza, Bendita e santa irmã da humana dor!” (p. 14).

E, no segundo deles, remata o terceto final com estes versos:


“Que a tua dor, Mulher, seja infinita! Pois quanto mais sofreres, maior serás!”

Em Augusto dos Anjos, a dor merece um hino. É tratada, segundo a perspectiva cristã, como um ganho espiritual e, sobretudo, como um instrumento de ascese, conforme se pode constatar nos versos com que ele inicia o seu “Hino à dor”:

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“Dor, saúde dos seres que se fanam, Riqueza da alma, psíquico tesouro, Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam...”

E nestes outros, que aparecem pouco adiante:


“E, assim, sem convulsão que me alvoroce, Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas!”

São comuns aos dois poetas o panteísmo e a representação da Natureza. Ambos fizeram versos à pedra, à montanha, conferindo à superfície dura e inóspita desses elementos um recorte dramático. Confrontemos, quanto a esse aspecto, os versos de cada um deles. Em certa passagem, Alfredo Pimenta se refere à “... maldição que ouvimos/ Sair da boca duma pedra/ Quando com outra às vezes a ferimos!” Se comparamos o dramatismo dessa imagem com a representação que Augusto dos Anjos faz no primeiro dos sonetos “As montanhas”, de novo percebemos a significativa diferença que separa um do outro — quer pelo uso da linguagem, quer pela integração, diríamos, dialética, entre o elemento plástico, exterior, e o componente anímico e subjetivo.

Eis os versos do paraibano:


“Quem não vê nas graníticas entranhas A subjevidade ascensional Paralisada e estrangulada, mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas, porventura, Estacionadas, íngremes, assim, Por um abortamento de mecânica A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?!” (352).

No trecho de Pimenta, o que se tem é a sumária indicação de um conflito, própria somente para figurar o sentimento, ou melhor, o ressentimento que acomete a substância bruta quando agredida. Augusto, por sua vez, alude a um combate que se constitui em leit motiv da sua obra, representado pelas contradições entre instinto e alma, matéria e espírito. Sendo um “abortamento de mecânica”, um resíduo inorgânico, a montanha alegoriza a própria morte como pulsão, que se contrapõe aos anseios eróticos, vitais, e se constitui em sombrio e permanente aceno para o homem.

Há em ambos os poetas o mesmo fundo mórbido, a mesma perplexidade ante a voragem contraditória de sentimentos e conceitos que marcaram o final do século XIX. Tanto Alfredo Pimenta quanto Augusto dos Anjos vivenciaram intensamente esse clima, marcado pela sensação de decadência e pela expectativa de um fim iminente, do qual emergiria uma nova ordem.

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Mas cada qual espera ou propõe o novo à sua maneira. Pimenta chega a sonhar com a revolução social, concebida romanticamente; Augusto deseja a redenção espiritual do homem. E se um, a despeito dos ideais progressistas, permanece formalmente preso ao passado — o outro inova em termos formais, utilizando-se de recursos (o coloquialismo, por exemplo) que o incluiriam na modernidade literária brasileira.


Chico Viana é doutor em teoria literária, professor e escritor

Ninguém consegue raciocinar bem quando seu coração está dominado pelo ódio. A raiva fecha a mente e limita a capacidade de refletir e pens...

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Ninguém consegue raciocinar bem quando seu coração está dominado pelo ódio. A raiva fecha a mente e limita a capacidade de refletir e pensar. Quem se dispõe a ser vitorioso em qualquer que seja a causa que abrace, a primeira coisa a fazer é procurar não alimentar sentimentos que extravasem agressividade. Não se combate o adversário com chances de sucesso, ofendendo, desrespeitando, achincalhando.

2020 está terminando e pelo visto o cinquentenário de “O nariz do morto”, de Antonio Carlos Villaça, vai passar em brancas nuvens. Ma...

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2020 está terminando e pelo visto o cinquentenário de “O nariz do morto”, de Antonio Carlos Villaça, vai passar em brancas nuvens. Mas agora não mais, pois, modesto que seja, este texto se propõe celebrar o importante acontecimento literário brasileiro.

O episódio nº 9 da Pauta Cultural entra no ar na ALCR TV com atualidades do mundo cultural, participação dos autores, leitores e telespect...

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O episódio nº 9 da Pauta Cultural entra no ar na ALCR TV com atualidades do mundo cultural, participação dos autores, leitores e telespectadores do Ambiente de Leitura Carlos Romero.

A fadiga das segundas-feiras é um fato interessante e pontua o mundo de hoje, impregnado do sentimento trivial de euforia e de mutualidade ...

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A fadiga das segundas-feiras é um fato interessante e pontua o mundo de hoje, impregnado do sentimento trivial de euforia e de mutualidade entre os seres vivos. Num final de semana quase todo mundo é feliz, a acender, automaticamente, a luzinha que há dentro de si.

"O Misterioso Caso de Styles" (The Mysterious Affair at Styles), lançado há exatamente cem anos, é o primeiro livro de Agatha Ch...

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"O Misterioso Caso de Styles" (The Mysterious Affair at Styles), lançado há exatamente cem anos, é o primeiro livro de Agatha Christie. Assinala a criação de um dos mais deliciosos personagens da literatura policial: Hercule Poirot, um extravagante belga, de enormes bigodes, chapéu coco, cabeça de ovo, olhos verdes, grande inteligência e uma coleção de frases de efeito, tudo embalado em 1,62m de pura ausência de modéstia. É o protagonista dos melhores livros de Agatha.

“Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa, e não estamos de mãos enla...

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“Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. (Enlacemos as mãos.)
Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos. Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. Mais vale saber passar silenciosamente E sem desassossegos grandes.”

Interessante como pegava seu lápis para colorir o caderno de desenho. Escolhia as cores mais alvoroçadas para pintar, por exempl...

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Interessante como pegava seu lápis para colorir o caderno de desenho. Escolhia as cores mais alvoroçadas para pintar, por exemplo, as folhas de um arvoredo. E nos raios do sol encabulado, por trás de riscos curvos sinalizando uma montanha, largava um verde escuro sobre o astro que ficava sem condição de iluminar. Um verdadeiro eclipse verde. E assim ia colorindo a paisagem comum, onde existem árvore, casa, lago, sol.

Na manhã do dia 10 de abril de 1970, o jornal britânico Daily Mirror estampava, na sua primeira página, em letras enormes, a manchete que ...

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Na manhã do dia 10 de abril de 1970, o jornal britânico Daily Mirror estampava, na sua primeira página, em letras enormes, a manchete que dizia "Paul is quitting The Beatles" (Paul está saindo dos Beatles). A matéria correspondente à manchete do jornal continha uma curta e terminante declaração de Paul McCartney:

“Para escrever bem é preciso uma facilidade natural e uma dificuldade adquirida”. Não lembro onde li. Mas é o que vejo na crônica aparentem...

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“Para escrever bem é preciso uma facilidade natural e uma dificuldade adquirida”. Não lembro onde li. Mas é o que vejo na crônica aparentemente fácil de Luiz Augusto de Paiva, bom contador de história, paraibano depois de nascido em São Paulo, trazendo de lá, com botas de sete léguas, a soltura de Brás, Bexiga e Barra Funda a se confluir nas mesmas águas do rio Paraíba do nosso Zé Lins. Às vezes é crônica, outras é conto, num caso e noutro a prosa solta, sem amarras adquiridas, o leitor sem notar que está mergulhado.

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Adam Cain
No começo da semana meteu-se com dois meninos de praia que não passavam dos sete anos, os meninos atrás do cachorrito e o grandão do Paiva atrás deles. Atrás nos passos, no brechar da janela, nos mandados do menino que ele deve ter sido. Uma verdadeira perseguição de ternura.

E o leitor não fazendo por menos ou fazendo do jornal sua praia por conta da prosa solta, livre e sempre lírica desse narrador seguro que lembra o nosso Anco Márcio, que era mais preso, esquecido por nós que organizamos a última coletânea de prosadores paraibanos, inciativa da SEC do tempo de Neroaldo. Mas o esforço de Anco para atingir o pueril não saía tão disfarçado.

Escrevendo como se não escrevesse, apenas contasse, Luiz Augusto de Paiva traz de suas nascentes o conto-crônica que aqui se inaugurou com Silvino Lopes, nos anos 1940, nesta mesma A União que o contribuinte paga sem sentir, talvez nem muito consciente de sua obediência a um ditame de raiz. Desde o segundo decênio do século passado que a leitura, quando exigência do espírito, vem sendo liderada pelo jornal de Gama e Melo, Carlos Dias, José Américo e a descendência que os tomou como exemplo.

Foi onde Paiva veio deitar e bordar. Houve outro paulista ou paulistano, primeiro gerente da Santista no nosso Distrito Industrial, que comprava A União, menos pela notícia disputada por dois ou três outros diários, como para se identificar com o comportamento do paraibano. Chamava-se Armando Abreu, gostava de árvores, e no tempo em que a Torre era mais de casebres que de lojas comerciais, foi nela que escolheu sua morada, olhando para as biqueiras de Carlos Romero.

Paiva saiu da Barra Funda, do Brás, da Bexiga para vir se aninhar entre os meninos que somos todos nós, de 7 a 80 anos, todos capazes de botar luto porque a Chiquita comeu o que não devia e morreu. Foi um trabalho danado para o grandalhão dar a notícia aos meninos seus colegas.


Gonzaga Rodrigues é escritor e membro da APL

Na tradição que relata os primórdios da história romana, o mito do rapto das Sabinas é fundamental para a consolidação de Roma como cidade...

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Na tradição que relata os primórdios da história romana, o mito do rapto das Sabinas é fundamental para a consolidação de Roma como cidade que, de acordo com as profecias, deve sobreviver e dominar o mundo. Sem o rapto, Roma não só não cresceria, como não transmitiria a sua descendência.

Durante um certo período, a crônica foi considerada um gênero de quem jogava conversa fora. Pouco a pouco, porém, parte do público lei...

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Durante um certo período, a crônica foi considerada um gênero de quem jogava conversa fora. Pouco a pouco, porém, parte do público leitor deixou de fazer ouvidos moucos e passou a ser todo ouvidos para os que investiam nessa modalidade literária. Adquirindo, pois, um certo prestígio, uma certa reputação, além de ser considerado um gênero que deitou raízes profundas no solo brasileiro, nele se adaptando e ganhando cidadania, arregimentou muitos adeptos, desde José de Alencar, passando por Machado de Assis, João do Rio, até chegar a Rubem Braga, Fernando Sabino, Eneida, Raquel de Queiroz, Paulo Mendes Campos, Veríssimo e muitos outros. Hoje, o gênero está plenamente consolidado, decorrendo daí o prestígio que desfruta entre críticos e leitores.

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