24.3.22
PINTANDO O OUTONO Andei colorindo as folhas de meu outono cinzento não sei ainda se aguento essas cores, acres, ocres folh...

PINTANDO O OUTONO
Andei colorindo as folhas
de meu outono cinzento
não sei ainda se aguento
essas cores, acres, ocres
folhas secas pelo chão
um tapete adormecido
sussurram em um gemido
sofrendo a ingratidão
dos que um dia partiram
sem aviso, sem adeus
desertaram assustados
ao constatarem frustrados
as voltas que o mundo deu...
Dos que hoje esqueceram
do carinho recebido
palavras em seus ouvidos
de estímulo e de ternura
partiram amargurados
e com línguas afiadas
me infringindo tortura
dos que partilharam um dia
dos banquetes coloridos
hoje me negam o pão
da vida, dando-me a morte
das relações em pedaços
mãos soltas sem direção
procurando outros braços
que lhes deem mais atenção
estão sempre a procurar
outros ombros, outros olhares
vivem a vida a usurpar
espoliar sem remorsos
esquecem a alteridade
a empatia também
e nessa busca infrene
deixam dores lancinantes
deixam corações duros
com medo de amar alguém
deixam mentes revoltadas
deixam muitos pelas estradas
amargurados, por fim
mas hoje vou colorir
as folhas que um dia deixaram
descoloridas pra mim!
FOLHAS DE OUTONO
Estou a colher as folhas de outono
são ocres, são pardas não sei quais seus nomes
só sei que em tempo já adrede pensado
e bem calculado será primavera...
E minha espera das flores em cor
botões se abrindo como nosso amor
espero que os homens controlem a avareza
pois vejo a tristeza em seus rostos pálidos
espero que os mesmos controlem a ira
eis que qualquer dia serão seus vassalos
estou a esperarpor dias mais claros
com o sol teimando em iluminar
nosso rosto triste por dores acerbas
por duras tristezas e feia cobiça
não há quem assista aos noticiários
com os seus rosários de tristes notícias
escândalos, mortes os crimes hediondos
parece um estrondo em nossos ouvidos...
São os matricídios movidos por filhos
que pensam no brilho das moedas que um dia
seus pais trabalharam com tanto afinco
para lhes deixarem de herança um dia
mas a afazia, ganância atroz
a pressa feroz não os deixam esperar
que os seus pais partam para lhes deixar
o ouro que um dia pensaram em juntar
como garantia para seu futuro
mas qual o futuro de um matricida?
senão a prisão nos cárceres do estado
mas se escaparem com seus corpos livres
não há quem os livre da dura prisão
de sua consciência eis que o tribunal
consciencial, será seu martírio.
I
Meu coração é teimoso
ele sonhou no verão
sonhou na primavera
no outono...
E quando deveria se aquietar
no friozinho do inverno,
ele sonha mais ainda
é o tempo de rever prioridades
organizar as gavetas
descartar os objetos desnecessários
as relações tóxicas
murmúrios e ingratidões
é tempo de artesania
passar horas e horas no mesmo ofício
procurando focar no importante
nos afetos, nos olhares,
nos silêncios cheios de som
é o tempo da leitura
não apenas dos livros
dos periódicos
mas acima de tudo, da natureza
que sempre esteve ali
com suas maravilhosas lições
No inverno, meu coração ganha força
chora com intensidade
alegra-se com a verdade
que tentamos esconder
para agradar aos demais.
II
Como misturo as estações...
a razão de tal mistura,
não sei bem
talvez por entender
que me convém
eis que as tais das estações
também são minhas.
Quando estão na primavera,
sou outono
Os verões chegam pra tantos,
sou inverno
uns amigos estão no céu,
eu no inferno
O paraíso para alguns,
meu purgatório
Já cansei de reza em vão,
Objugartorias.
Vânia de Farias Castro é advogada e poetisa
24.3.22
24.3.22
Dos tios, embora bem mais velho, Manuel era o que me parecia mais do meu tamanho. Não de tope, ele já era bem mais alto, mas de meninice. ...
Dos tios, embora bem mais velho, Manuel era o que me parecia mais do meu tamanho. Não de tope, ele já era bem mais alto, mas de meninice.
Na manhã em que o achei assim, ele entrou lá em casa no exato instante em que o relógio de parede, o mais rico ornamento da sala, batia suas oito ou nove horas bem batidas. Nem deu tempo a que fechasse a porta de baixo. Ali mesmo, uma mão na porta e a outra no queixo, plantou-se ele transportado a cada enleio que as batidas ressoavam.
24.3.22
23.3.22
Na Ucrânia é inverno, longo, gélido, com ventos fortes e céu encoberto. A noite chega mais cedo e, após um prato quente de Borscht, todos...
Na Ucrânia é inverno, longo, gélido, com ventos fortes e céu encoberto. A noite chega mais cedo e, após um prato quente de Borscht, todos os habitantes se recolhem. Há uma inquietação no ar, própria das incertezas, mas rezam confiantes. Na capital Kiev, o Anjo da Guarda, Padroeiro da cidade, é lembrado e solicitado como protetor. Alguns ainda acreditam no homem que se considera Deus, e no seu olhar frio e ausente, com a “negação afirmativa”, típica dos psicopatas, com reações inflexíveis às situações, às pessoas e à sociedade.
23.3.22
23.3.22
Embarque no trem numa manhã qualquer e siga... A composição vazia segue tranquilamente serpenteando o caminho feito uma centopeia de pés...
Embarque no trem numa manhã qualquer e siga... A composição vazia segue tranquilamente serpenteando o caminho feito uma centopeia de pés de ferro. Parte da cidade se abre para os olhos curiosos dentro dos vagões. A maioria dos poucos passageiros espalhados percebe os quadros pincelados com o avanço da composição. Destino Cabedelo, sentido Santa Rita... Tanto faz. Olhe diferente para o trem.
23.3.22
23.3.22
Não tem erro: sopé da Ladeira São Francisco, à direita: Rua Augusto Simões (antigo Beco dos Milagres), nº 59. No muro da casa está incrust...
Não tem erro: sopé da Ladeira São Francisco, à direita: Rua Augusto Simões (antigo Beco dos Milagres), nº 59. No muro da casa está incrustada uma relíquia da cidade: A Fonte dos Milagres. Talvez os atuais moradores da residência nem saibam o que têm nas mãos.
23.3.22
22.3.22
Pouco depois da hora média que marca momento de oração para os cristãos católicos, percorríamos a calçada da Praça 1817, espremidos por ...
Pouco depois da hora média que marca momento de oração para os cristãos católicos, percorríamos a calçada da Praça 1817, espremidos por transeuntes e carros, seguindo o rastro da memória de caminhantes imputáveis de culpa pelo abandono de casas que do passado carregam a marca do silêncio.
22.3.22
22.3.22
Dona Zefinha é uma idosa que vive num sítio há muitos anos. A casa fica às margens de uma estrada; da janela da sala ela vê o movimento de...
Dona Zefinha é uma idosa que vive num sítio há muitos anos. A casa fica às margens de uma estrada; da janela da sala ela vê o movimento de veículos e pessoas, de outra, que fica no quarto de dormir, avista boa parte da pequena propriedade. O mato está verde, o plantio cresce viçoso, mas o barreiro ainda não juntou água.
22.3.22
22.3.22
"E flutuou no ar como se fosse um pássaro E se acabou no chão feito um pacote flácido" (Chico Buarque) Eram amigos desde os ...
"E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido"
(Chico Buarque)
Eram amigos desde os tempos da bola de gude e de empinar pipa nos frios e ventos de julho. Regulavam de idade. Cresceram carne e unha, amigos inseparáveis. Escolheram ambos, profissão de pedreiro e eram respeitados no ofício. Sabiam assentar azulejos e imprimiam qualidade nos serviços, fossem dos mais triviais, como o assentamento de tijolos, aos mais sofisticados a exemplo dos acabamentos que exigissem caprichos e mãos hábeis. Para quem não sabe, assentar azulejo não é para pedreiro meia colher, exige competência no ofício. Uns danados, Tonho e Juca.
22.3.22
22.3.22
Tenha-se em mente estarmos agora numa época em que o típico visual Hippie não fosse ainda familiar para a maioria das pessoas, herdeira...

Tenha-se em mente estarmos agora numa época em que o típico visual Hippie não fosse ainda familiar para a maioria das pessoas, herdeiras conscientes do linho e do tropical ingleses, daquela indústria que usara e abusara (literalmente) do nosso Algodão Mocó. Em nada a “aparência Hippie”, de Ivo, coincidia com o look “cabeludinho jovem guarda” – uma espécie de janota caipira, começado a infestar a cena diária das cidades brasileiras, pelo recente surgimento da televisão –, e esta era uma das razões pela qual o personagem em questão atraía olhares tão logo saísse às ruas. O visual Ivo “Bitch”, tal como carinhosamente o chamavam os de sua geração, deixava alguns populares intrigados, chegando a neles despertar certa comichão em observá-lo mais de perto.
22.3.22
21.3.22
EU SOU ASSIM Uso sapatos confortáveis, Tenho tinta no cabelo, Mente inquieta, Olhos mansos, adoráveis. Gosto da quietude...
EU SOU ASSIM
Uso sapatos confortáveis,
Tenho tinta no cabelo,
Mente inquieta,
Olhos mansos, adoráveis.
Gosto da quietude,
Da beleza da manhã de sol,
Mas também gosto de chuva,
De vento e de trovão.
Tenho momentos de cérebro,
Outros de só coração.
21.3.22
21.3.22
... mas algo, em mim, sempre me diz "resista" Minha primeira peça de teatro, O VERMELHO E O BRANCO, de 68, teve três ou quat...
... mas algo, em mim, sempre me diz "resista"
Minha primeira peça de teatro, O VERMELHO E O BRANCO, de 68, teve três ou quatro apresentações e foi proibida pela Censura Federal da ditadura “por ferir a dignidade da pátria e ser capaz de sublevar os ânimos da juventude”.
Morreu ali.
21.3.22
21.3.22
A máscara é o mais característico objeto associado a esses dois anos de pandemia. Os infectologis...
A máscara é o mais característico objeto associado a esses dois anos de pandemia. Os infectologistas consideravam-na imprescindível para impedir a contaminação e faziam contínuos apelos para que as pessoas a usassem em locais públicos. Sem esse higiênico tapume que nos cobria parte do rosto, era impossível sair de casa – e havia os que, mesmo no recesso doméstico, não a dispensavam.
21.3.22
21.3.22
O célebre álbum de John Lennon foi inicialmente lançado nos EUA em 9 de setembro de 1971 e no Reino Unido em 8 de outubro do mesmo ano. Aq...
O célebre álbum de John Lennon foi inicialmente lançado nos EUA em 9 de setembro de 1971 e no Reino Unido em 8 de outubro do mesmo ano. Aqui no Brasil, imagino que tenha chegado em fins de 1971 ou em começos de 1972. Eu estudava no Liceu à época e fui apresentado ao disco por um colega de classe, o carioca Bráulio, filho de um capitão do exército que então prestava serviço em quartel de nossa cidade.
21.3.22
20.3.22
Paraíba, 20 de março de 2022
Paraíba, 20 de março de 2022
20.3.22
20.3.22
Quiseram os compositores de música que sentíssemos o mesmo que os inspirou? Seus arroubos à poesia, conflitos e indagações? Suas dúvidas e...
Quiseram os compositores de música que sentíssemos o mesmo que os inspirou? Seus arroubos à poesia, conflitos e indagações? Suas dúvidas e esperanças, amores e rancores? Só pode. Está tudo nas entrelinhas, ocultos ou revelados nas partituras, na sugestiva combinação estética dos sentimentos, no poder que brota dos íntimos e profundos recônditos da emoção.
20.3.22
20.3.22
O POLÍTICO Quando ele nasceu, foi batizado com o nome de Carlos (Karl) Frederico (Friedrich), homenagem a Karl Marx e Friedrich Engels...
O POLÍTICO
Quando ele nasceu, foi batizado com o nome de Carlos (Karl) Frederico (Friedrich), homenagem a Karl Marx e Friedrich Engels. Seu pai era um político que, em plena República Velha, tinha ideias socialistas e era ligado ao nascente sindicalismo brasileiro. Seus dois tios paternos pertenciam ao Partido Comunista Brasileiro e ambos chegaram a ocupar o cargo de secretário-geral do PCB, o posto mais elevado na estrutura partidária. Aos 12 anos de idade, o hiperativo e sagaz Carlos Frederico já lia obras como “O ABC do Comunismo”, de Bukharin, que lhe eram repassadas por um dos seus tios.
20.3.22