Tomei uma decisão de não me meter em polêmicas, porque, já há algum tempo, as considero, além de infrutíferas, desgastantes. Não sei o que é pior para o nosso espírito. Decidi, no entanto, escrever, mais uma vez, sobre o mais recente livro de Solha, 1/6 de laranjas mecânicas, bananas de dinamite, não para polemizar, mas para discorrer um pouco sobre o seu livro ser ou não um livro hermético.
O sentimento religioso provavelmente surgiu nos tempos primitivos da humanidade, a princípio baseado no medo do desconhecido: o medo da noite com os sons que não sabiam explicar, o medo causado pela perda de seus entes queridos, associado à falta de explicação para todos os fenômenos que não conseguia explicar: o trovão; o raio matando pessoas e outros seres; e todos os outros fenômenos da natureza.
Transcorria julho de 1984 quando a leitura de um artigo do amigo Hélio Zenaide me fazia cair o queixo. Então Secretário de Comunicação da Prefeitura de João Pessoa, Helinho escrevera n'A União, o jornal pertencente ao Governo da Paraíba, sobre a visita de entidades extraterrenas a um grupo de moradores de Sousa, a mais de 470 quilômetros de João Pessoa.
Artigo do próprio punho, na página de opinião do Jornal, a fim de que não restasse dúvida quanto à história e sua autoria. Mesmo assim, liguei em busca da confirmação daquilo que eu acabava de ler.
Embora muitos considerem o concretismo uma retomada do espírito vanguardista de 22, o fato é que esse movimento articulou uma linguagem tão desprovida de humor quanto a de 45, consistindo, pelo menos nesse aspecto, numa vertente desta última. Daí ter-se distanciado do modernismo, o que não ocorreu com Mario Quintana, cuja verve irônica e humorística aproxima-o do Manuel Bandeira de Libertinagem, apenas com uma diferença: no poeta pernambucano, a incorporação do humor é decorrência de uma estratégia intelectual que visa a neutralizar o “gosto cabotino da tristeza” do eu lírico para reajustá-lo ao “mundo dos sãos”. Já no poeta gaúcho, o humor é um componente orgânico, visceral, mas nem por isso menos eficaz no sentido de evitar os excessos de um temperamento regido muito mais pelo sentimento do que pela razão, conforme ele mesmo o diz em Acontece que, do livro Caderno H:
Na origem, um galo muito metido a besta achava que o sol só nascia porque ele cantava. Toda madrugada ele cacarejava e só depois o sol nascia. Até que um dia ele dormiu demais e quando acordou o sol já havia nascido.
Aqui na Paraíba eu já conheci uns quantos “galos” de Chantecler.
O andar arrastado, de pés sem cavas, levantava uma poeira fina que ia tornando fantasmagórica a imagem do velho homem, ante a reverberação ótica do pino do meio-dia. No verão, a estrada por sobre a parede da barragem, repisada por bichos e gentes, costumava soltar aquele pó amarelado, quase místico, que recobria a todos, com a sem-cerimônia de um manto real.
As cabaças, abastecidas no porão da represa com algumas dezenas de preciosos litros d’água, penduradas no pau de aroeira roliço, atravessado no trapézio nu, retesado e caloso, balouçavam obedientes à cadência marcial das passadas,
ressumando gotículas prateadas de uma chuva inútil, que evaporava ao rés do chão.
Na cintura, um retraço de cordame segurando os calções de um madapolão mole, furta-cor de tão gasto, fazia barreira ao suor que lavava, abundante, o torso habituado aos grandes esforços. Ainda que sem um grama sequer nas costas, ninguém alcançaria a marcha forçada daquele conjunto de pesos e contrapesos, equilibrado como uma equação newtoniana, flutuando em meio à quentura que emanava de toda parte, a quentura sólida do semiárido. O embornal de couro de boi, presente de Padrinho, com a cinta larga atravessando, desde o ombro esquerdo, todo o tórax, até à cintura, completava os paramentos.
Um pouco mais atrás, num trote ritmado, o cachorro vira-lata pedrês, miúdo e arrepiado, arquejante, acompanhava os passos do dono com desinteressada atenção. Conhecia cada seixo, cada lagartixa, cada pardal daquele caminho de roça. As nuances aromáticas das suas urinadas frenéticas voluteavam em ondas familiares, demarcando o território e imprimindo ao trajeto toda a segurança de que o grupo necessitava. Não havia o menor sinal de perigo.
Meio sentado numa pedra, desafiando a gravidade no trecho em que a parede do balde mais se inclinava em direção à linha d’água, o menino alourado de pele tostada e cabelos espessos assistia àquele cortejo, com os olhos brilhantes, mastigando um talo do capim-santo que, cintilante, atapetava a encosta íngreme.
Logo que os olhares se cruzaram, os dentes do homem, de uma brancura polar, emergiram num largo e genuíno sorriso, como se um copo de água fresca se lhe apresentasse alguns metros adiante. O cão, farejando o ar e agitando a cauda descarnada, apressou o passo, dando pequenos rodeios, levantando mais corpúsculos da terra cor de ouro. A procissão chegara ao auge nesse encontro e o menino, ágil que nem filhote de jaguatirica, levantou-se de um pulo e correu para a tropa, mirando o embornal.
— Trouxeste para a gente o quê?
O homem parou lentamente, deu um longo suspiro e, dobrando os joelhos com o corpo ereto, descarregou no chão os recipientes, pousando sobre estes, cuidadosamente, a trave de madeira:
— Eu já disse que essa encosta escorrega e quando vosmecê cuidar... tchibum! Está nadando com as piabas! – disse, rindo ainda mais e entregando o embornal ao menino, enquanto o cachorro, excitado, soltava breves latidos esganiçados.
O menino desenlaçou, ávido, a presilha e vasculhou o conteúdo do bisaco com o rosto quase enfiado na abertura, sorvendo o cheiro de couro curtido. Retirou de lá um embrulho quadrado, coberto com folha de bananeira atada com sisal, e outro maior, irregular, cujo conteúdo achava-se enrolado num pano fino, manchado. Um odre de pelica, fechado por uma rolha, continha a água de beber.
— Rolinha assada ou nambu? Será uma costela ou um pernil? Fala logo! — perguntou o menino, sem abrir os invólucros, mas com a saliva escorrendo das comissuras dos lábios.
— Vamos comer, seu cabrito guloso, é melhor do que adivinhar! — Respondeu o homem com ternura, recolocando a trave de madeira nos ombros e amarrando as cabaças nos cipós.
Seguido pelo cão, descendo a parede no ângulo oposto à lâmina do açude, com juvenil habilidade a despeito dos compridos anos de vida rural, o homem tomou o sentido de um umbuzeiro centenário,
sob cuja copa, tão desgrenhada quanto frondosa, dormitava um bando de patos de penugem preta e branca, com os bicos chatos enfiados nas asas.
Na sombra fresca e acolhedora, a matilha acomodada se preparou para a refeição: o homem passou as mãos, à guisa de limpeza, pelo solo do espaço preferido, bem sombreado, e sentou-se com os membros inferiores recolhidos de um só lado do corpo, parecendo absolutamente relaxado. O menino, impaciente, abancou-se também, cruzando as pernas sob si. E o animal, depois de enxotar os patos com canina autoridade, deitou-se ao redor, como que fechando o círculo, cônscio da importância da sua presença naquele convescote.
Depois de breve ablução das mãos e rostos com a água retirada do odre, o primeiro pacote foi ritualisticamente aberto sobre o relvado, mostrando uma rapadura média, cor de argila, cujo cheiro marcante, agridoce, do melaço que lhe originara acendeu as narinas dos comensais, fazendo o menino arregalar os olhos e o cachorro esticar as orelhas. Como se não bastasse, torresmos de castanha de caju assada sobressaiam aqui e ali da superfície suculenta do petisco de cana-de-açúcar.
Sem tocar na rapadura, o homem desenrolou cautelosamente o segundo embrulho, como quem manuseia uma preciosidade. Para decepção do menino, revelou-se uma pasta disforme esverdeada, da qual minava um líquido amarelo. A repulsa fê-lo recuar, arrastando-se para trás sobre os joelhos dobrados.
— É uma coisa que eu preparei para vosmecê comer hoje, antes da rapadura — respondeu o homem com os olhos bem fixos nos do menino.
— Como lá essa coisa de jeito nenhum! — zangou-se o menino, já fazendo menção de levantar-se.
— Ouça-me — retrucou gentilmente o homem - Está na hora de vosmecê aprender que os animais de Deus são nossos irmãos e que existem outras maneiras de matar a fome sem precisar deitar rês nem criação. Matute aí vosmecê o que os bichinhos sentem quando a marreta avoa no toutiço deles, derribando-os sem dó nem piedade. Ou quando a pedra de funda abre a cabecinha da codorniz, quebra a asa da arribaçã... E ainda o peixinho endoidecendo pelo ar, com o anzol espetado no céu da boca?
Fez-se silêncio e um bem-te-vi voejou por sobre o trio, pousando alguns metros adiante, numa galha abaixada da árvore. Pouco mais, seu par fez o mesmo percurso, e ambos, em plateia, quedaram-se a assistir a conversa. Os patos retornaram em fila indiana, acomodando-se perto do tronco e longe do cachorro. Uma vaca mugiu alto no horizonte, decerto exortando sua cria. O sol atingira o zênite e o dossel do generoso vegetal ofertava abrigo a todas as criaturas, livrando-as da inclemência do astro-rei no seu clímax. O homem prosseguiu.
— Esperei com paciência vosmecê sair do mimo e ficar mais taludo para lhe dizer isto: não se come carne de bicho vivo nenhum. Os ovinhos e o leite, desde que não careça do sacrifício ao ente e à ninhada, pode ser; tem a hora de recolhê-los sem prejuízo. Mas matar para comer? Não se pode... Não nos é permitido... — e meneou a cabeça, com uma manifestação pia nos olhos cansados.
— Agora, queria que vosmecê sossegasse e provasse o que eu preparei, receita velha da minha terra, para depois assuntar por vosmecê mesmo — continuou. — Se vosmecê não gostar do preparado, não lhe aporrinho mais. Fui eu mesmo que fiz, com esse instrumento aqui — a abriu as mãos em leque para o menino.
Contrariando os sentidos e mercê do afeto e da confiança que nutria pelo homem, o menino juntou os dedos indicador e médio, raspou a pasta, levando-a imediatamente à boca.
E, na medida em que mastigava, a careta de asco ainda renitente foi se transmudando numa expressão deslumbrada de quem prova o maná numa manhã orvalhada. Acabara de descobrir o segredo do velho homem: o respeito ancestral pela vida!
Eu criaria um Céu se nele coubessem as minhas asas,
Mas os sonhos dos homens
que recolho, que abraço, precisam de um mundo que se expande aos limites do descabido
Por isso a queda no inominável da ausência,
a frustração de me vender ao vento,
de tombar perante o branco
da página, do não escrito,
Quando, em 1970 - fui transferido pelo Banco do Brasil, da agência de Pombal – onde trabalhara por sete anos – para a do Varadouro, a única em João Pessoa, na época, estava falido. Investira casa, caminhão, o que tinha e o que não tinha no filme O Salário da Morte e perdera tudo. Dando meus expedientes de oito horas no banco, a necessidade de continuar a produzir arte era imperiosa e busquei uma sem custo. Danei-me a criar poemas. Quando tinha uns quarenta, me perguntei “A quem isso pode interessar?” – e botei o livro na gaveta, passando a elaborar o romance “Israel Rêmora”. Lá pelas tantas, no entanto, percebi que os poemas engavetados tinham muito a ver com a prosa que estava fazendo. Foi então que a experiência do cinema me valeu: com tesoura e fita adesiva, passei a literalmente montar os textos em prosa àquela série de versos, que passaram – sem que eu precisasse dizer isso – a ser monólogos interiores de meu protagonista. Como se a cada capítulo narrado por mim, já houvesse um “comentário” do personagem a respeito. Funcionou. Ganhei o Prêmio Fernando Chinaglia com o resultado e o livro saiu pela Record em 75.
"Meu Deus!
Preciso me libertar do esboço em que estou esbatido e apagado entre linhas certas e incertas e borrões.
Preciso me libertar do mármore em que me sinto preso dentro
Inacabado.
Mas é que... sou uma espécie de anjo caído
resíduo pregado no fundo da gravitação
traído
e que só se permite contemplar o Cristo sorrindo
leve e limpo
subindo
deixando-me embaixo
entre o peso das pedras
da tumba
e dos soldados.
E eu preciso me libertar do emaranhado de fios
da rocha bruta
e da gravitação pesada
para também saltar.
E eu preciso me libertar e saltar
Mesmo sabendo que
como um bailarino
serei devolvido ao chão
depois da pirueta
pela mesma força irreversível que atrai o futuro para o fundo da ampulheta.
Mas eu preciso!
Confesso que
às vezes
eu me sinto como que envolvido num clima de sombras e névoas
numa luminosidade trágica
pregado ao largo no madeiro
com as omoplatas abertas
a cabeça caída como um peso morto sobre o peito e fremindo endurecida ao vento
meus cabelos e panos se agitando em torno do que foram meus sentidos.
Confesso que
às vezes
eu me sinto sendo levado com choro e passos para a cova
dentro de um lençol
minhas mãos balançando-se rijas e brancas
fora dele
eu de olhos fechados
pesado
anestesiado.
Confesso que
às vezes
eu me sinto como se já tivesse passado por tudo.
Oh céus.
Veja como eram louros meus cabelos
e como meus soldadinhos de chumbo ainda tinham a esgrima dentro da bainha
como eu já andava com a espada dentro da bainha.
E veja minha fé
cálida e fininha
de uma simplicidade suntuosa e delicada
cheia de minúsculas anunciações com asas iridiscentes em fundos de ouro
cheia de virgens de auréolas filigranadas e véus transcaríssimos.
Era a minha fé:
fácil
sem peso nem profundidade
linda
como meu sono depois
sobre coloridas histórias em quadrinhos!
Mas meu avô me mostrou num museu um monstro esculpido da dinastia de Han
e me fez entender que aquilo não representava um animal
mas a fera que havia nele.
Despertou em mim as agulhas
mesquitas
minaretes aflitos
de uma rebuscada arquitetura interior
e foi quando a ânsia pelo conhecimento da essência das coisas começou
e começou a minha solidão.
Foi quando vi o mar e a rocha se encontrando com o estrondo de vagões se engatando
mas se desengatando sempre:
as coisas adultas
e quanto vi Atenas:
meu mundo quebrado.
Foi quando ingressei na engrenagem que tritura na parede o segmento de reta que vem de Alfa e vai a Ômega
onde as rodas denteadas da moenda esmagaram e esbagaçaram meu futuro e meu presente
deixando atrás de mim uma trilha de perspectivas destruídas
para sempre irrecuperáveis.
Foi quando comecei a me sentir insignificante e latente
andando anônimo na rua
como um Billy Batson ou Clark Kent.
Um gênio poderoso sem a coragem suficiente para gritar na rua uma palavra mágica e cabalística
que libertaria de mim os poderes dos deuses
semideuses e
heróis.
Um gênio sem a coragem de desatar o nó górdio da gravata
desabotoar o colarinho
e
nu
encontrar em mim o super-homem de aço e perfeito que sempre sonhei ser
senhor de meus próprios caminhos.
Meu avô me disse que o Sol foi adorado como um deus imaculado... até que nele também se descobriram manchas.
E que a Terra teria vindo dele há muito tempo
trazendo consigo
em estado latente
nossa indústria pesada e o esoterismo
nossas guerras
pestes
crimes
o ateísmo
cristianismo
estas três palavras
e o último assassinato que vi na imprensa.
E penso que talvez a Terra tenha saído justamente de uma daquelas manchas solares
que a roseira arranca do chão e expurga em explosões de espinhos e de espinhos
até conseguir a pureza de suas rosas brancas
e rosas.
Talvez sejam esses Cristos
sangrentos
cuspidos
com as cabeças enroladas de espinhos
que eu vejo em minha casa e em todas as igrejas
nossos retratos de Dorian Gray
realmente “carregando nossas iniqüi dades e sendo esmagados por nossos crimes”.
Agora eu olho o Sol e penso em quantos
pelo sentimento de culpa se afligem.
e que talvez sejam esses Cristos suas roseiras mentais tentando expurgar suas manchas de origem.
NOTA Do livro "Israel Rêmora ou o Sacrifício das Fêmeas", Editora Record 1974, Prêmio Fernando Chinaglia
É mais que provável que a criação artística tenha, até aqui, resultado mais da intuição de artistas que de supostos saberes reflexivos da parte dos mesmos. Se do primeiro processo criativo o individuo recebe os favores da intuição, na seguinte função cognitiva prevalece o pensamento, segundo as categorias dos tipos psicológicos até hoje não contraditas de Carl Jung. Uma explicação para o predomínio dessa tendência, perfeitamente atestável na própria História da Arte, pode ser a incorporação pela linguagem artística de elementos discursivos soando de certo modo abruptos, destoantes, e num primeiro momento até esdrúxulos –
O exercício da reflexão precisa ser estimulado. O pensamento autônomo faz com que haja compreensão do mundo em que vivemos, e assim possamos atuar como agentes de transformação. Quando nos mostramos capazes de indagar a nós próprios e aos outros, vencemos os desafios das dinâmicas de convivência social, num instinto de sobrevivência diante das dificuldades enfrentadas.
alguma coisa,
alguma linha,
algo
há de escapar insétil.
dúctil, mas indócil,
leve, mas indelével,
há de manter-se presente.
não há de ser, inevitavelmente,
aroma
(a maresia habita igual o poema),
mas há de eludir o tempo.
Em sua bela crônica “Quem manda sou eu”, publicada na Folha de São Paulo de 7 de setembro de 2014 (caderno “Ilustrada”, p. E-10), Ferreira Gullar insurge-se contra a imposição de se chamar “presidenta” à presidenta Dilma e contra a Lei 12.605/12, de 3 de abril de 2012, que estipula que os diplomas das instituições de ensino público e privado deverão trazer a flexão de gênero correspondente ao sexo da pessoa diplomada.
Redemoinhos de poeira puxam o ar quente no meio da estrada sertaneja, iguais aos mesmos giradouros aquáticos que criam abismos na água no meio da correnteza do rio. E ambos arrastam para o seu centro seres e os transformavam em semelhantes, afogados sem lanternas, dispostos no mesmo vazio. Rajada de vento na terra, braços secos sem a doce água em agitação. Impossível segurar em galhos ou sonhos o ar disperso nas temperaturas infernais ou no líquido a girar feito liquidificador.
Viver é um risco, e quem recua de medo da vida se arrisca também. Pode morrer dentro de si mesmo, gemer nos amarelões da alma por inanição existencial.
No fundo de todo homem está o Demo, espreitando. É muito fácil ser mau. Duro é renunciar à maldade, pois a bondade não faz parte da nossa natureza. Tem que ser aprendida, e para ajudar nisso criamos Deus. Exige renúncia, ração de convento e muita força.
A quem não tem esperança, aconselho: tente viver assim mesmo. Às vezes, por entre as brumas do desencanto, insinua-se um sentido, um farol. O amanhã é de quem acredita.
Do que se escreve nem tudo faz sentido, nem tudo leva a alguma coisa. Mas é preciso escrever, nem que seja para dizer o que já foi dito. Tudo é repetição, mas em novos contextos.
É preciso atravessar a vida se distanciando do ciúme, da inveja, da injúria. Cabisalto, mesmo que por dentro estremecido. O outro é lobo voraz e está sempre nos espreitando. O que consola é que, como lobos, o cercamos também.
Com os outros pode-se viver bem no artifício, nunca no total espontâneo. Isso pede a mentira para melhor conviver, o abrirdentes com jeito de sinuosa simpatia, mel que disfarça o ferrão.
Política é jogo sujo, que não separa os bons dos maus. É gangorra em que cada um, na fome do poder, pode descer ao seu avesso. E depois, sem a luzinha do escrúpulo, fazer o caminho oposto.
Convém evitar as demasias, pois o que delas sobra pode nos afogar. É então o caso de ser reto-direito, mas sem o dente da inflexibilidade. Esse não só perfura a carne, também vai fundo na alma.
Mulher não é tão perigoso como se diz. Tanto mais se amansa, quanto menos a gente se mostra sensível aos mistérios que nela tentaram encarnar. É preciso vê-la tal qual, sem o afã da fantasia. Mulher despreza o homenino que, de medo, cerca-a de ameaças ferozes com fome de matar, morrer, ou ambos.
Às vezes é bom ficar doente grave. Faz pensar melhor e joga o orgulho para debaixo do topete. Pequenos ficamos diante da morte, como quem na travessia de um deserto tem de ir a pé e sabe que nunca, nunca chegará ao outro lado.
Sabemos que existem duas línguas: a do povo e a dos gramáticos. Quase nunca coincidem, nem mesmo em Portugal, onde até as pessoas mais simples parecem falar um português corretíssimo. Digo parecem porque não tenho certeza e também porque é provável que lá também – e mesmo nos países desenvolvidos e cultos - coexistam as duas línguas referidas. Manuel Bandeira, no poema Evocação do Recife, que consta do seu livro Libertinagem, já nos chamava a atenção para essa dualidade nos versos “A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros/ Vinha da boca do povo na língua errada do povo/ Língua certa do povo/ Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil/ Ao passo que nós/ O que fazemos/ É macaquear/ A sintaxe lusíada”. Veja só.
Somos, no geral, a parte da humanidade que almoça e janta, como se lê no poema de Gullar. São alguns de nós, ou raramente nós mesmos em momentos específicos, que trazem o necessário espanto.
Mais louco por João Pessoa do que o saudoso Walfredo Rodríguez, impossível. Pois foi da sua boca que ouvi, na farmácia de Seu Zezé, no Rodgers, a sentença de que a vida em João Pessoa dependeria muito do que se fizesse com o Rio Jaguaribe e toda aquela faixa de mangues, pântanos, salinas e restingas que vai de Bayeux (que babaquice mudar o nome de Barreiras para Bayeux!) até Cabedelo.
Há menos de meio século, quando aportei nesta cidade carregando comigo os canaviais e as palmeiras de Serraria, a temperatura morna de Arara com seus seixos e agave dando o tom da paisagem, foi aqui onde encontrei o prolongamento do verde de minha terra. Igualmente aconchegante, tinha o verde diferente dos lugares onde brotei para a vida.
Meu Deus,
me dá cinco anos.
Me dá um pé de fedegoso com formiga preta,
me dá um Natal e sua véspera,
o ressonar das pessoas no quartinho.
Me dá a negrinha Fia pra eu brincar,
me dá uma noite pra eu dormir com minha mãe.
Me dá minha mãe, alegria sã e medo remediável,
me dá a mão, me cura de ser grande,
ó meu Deus, meu pai,
Meu pai.Orfandade, Adélia Prado
Para muitos dos mortais, o dia de Natal é o dia do nascimento de Jesus. Mas desde a mais tenra idade que eu entendo o dia de Natal também como o aniversário da minha mãe. O entendimento da religião veio depois.
No próximo mês, dia 25 de dezembro, se assim tiver de ser, minha mãe fará 94 anos de vida. Nunca imaginei ter uma mãe com 80, 90, pois a minha sempre foi jovem, muito jovem, e depois, filho nunca acha, nem quer, que a mãe envelheça.
Gostaria de hoje, neste espaço público, falar da minha mãe, Terezinha. Já falei dela em outras crônicas: da sua comida, da sua costura, do seu olhar poético diante da vida, da sua amargura, enfim... hoje quero falar de herança, herança materna, e, claro, heranças boas.
Somos quatro filhas. E somente na idade adulta entendi o significado de se ter filhas mulheres. Ironicamente eu só tenho filhos homens. Os Freuds e os Lacans da vida se debruçaram noites sobre esse tema, as feministas então... Relação difícil, emblemática, cheia de sentimentos ambíguos, dificuldades, competições inconscientes, e conscientes, disputas de poder pelo pai, enfim... muita terapia para dar conta dessa relação que transcende os úteros.
Da minha mãe herdei muito. Primeiro os olhos amarelos, cor de burro quando foge. Pois no verão ficam esverdeados, e escurecidos quando anoitecem. Sempre foram as minhas janelas da alma, tanto na beleza, quanto na capacidade de contemplar e ver o mundo. Minha mãe se emociona com o mundo e com a vida cotidianamente. Eu puxei isso dela. Sou uma eterna replicante que observa e extrai prazer de tudo o que os olhos alcançam. A beleza me emociona em todos os instantes do dia. E sou gratíssima por esse gen que gosta dos Ipês e do horizonte do mar.
Dizem todos por aí que nenhuma das filhas puxou à sua beleza. Concordo. Quando olho aquela sua foto no auge dos seus 17 anos, de luto pela perda da mãe, com os cabelos em debruns, e a Lagoa ao fundo, linda... e com ares de Ingrid Bergman ouvindo “a kiss is just a kiss”. Meu pai sempre me dizia que a sua beleza o seduziu, e que ficou literalmente embriagado pelos seus traços das divas de cinema.
A minha mãe é também uma sobrevivente. Sempre dura na queda como diz a canção infantil: “Terezinha de Jesus deu uma queda e foi ao chão... Terezinha levantou-se, levantou-se lá do chão...”. E de queda em queda ela, assim como Fênix, achava sempre uma brecha para renascer das cinzas.
Minha mãe nasceu fora de época. Era para estar nascendo agora, no século XXI. Viveu em tempos sombrios para as mulheres e nunca gostou das amarras do seu tempo. Gostava de ler os almanaques da vida; estudou no Lyceu, teve aulas de francês, costurava sua própria roupa, mas perdeu a mãe muito cedo e teve que trabalhar para o seu sustento na Saboaria Paraibana.
Sempre falava de como andava a pé no sol quente para o trabalho, e de como guardava suas saias embaixo do colchão para não amassar. Depois, com o casamento, não teve muito sossego. Casou-se numa época em que as mulheres tinham pouca voz, e cuidar das filhas, e da casa somente, talvez fosse pouco.
Minha mãe teve sonhos de um dia alçar vôos maiores, ou simplesmente diferentes. Logo descobriu que o seu espaço era sim os limites da casa, então buscou alegria no que fazia e criatividade em conversa no pé do muro com as vizinhas, conversando em porta de escola quando ia nos buscar nas Lourdinas, ou simplesmente indo às compras do cotidiano do Lar.
Aliás nunca gostou de informar a condição de “doméstica” quando preenchia formulário. Sentia-se diminuída com o peso que o termo tinha na desvalorização deste trabalho, em geral feminino. Mas sublimou tudo cantarolando Noel Rosa na cozinha (Esse amor que eu não esqueço, e que teve seu começo...).
Sabia como ninguém exorcizar os demônios da tristeza através do canto. Acho que herdei esse seu lado Emilinha Borba também, pois me pego cantando muito durante o dia; desde Roberto Carlos até Manu Chao e os seus cantos Clandestinos. Também sou uma sobrevivente, não dos anos 40 claro, mas dos meus próprios tempos. Tenho essa capacidade de descer ladeira abaixo e lembrar sempre que a montanha é russa, e desce, e sobe!!!
A minha mãe sempre foi vaidosa, com personalidade no vestir e adorava moda (embora negasse com ardor), pois para uma trabalhadora-abelha-rainha-do-século-XIX-Vitoriano… que sempre foi, jamais aceitaria o ócio. Não que moda seja feita de ócio, muito pelo contrário, mas é cheia também de glamour, prazer e cores, muitas cores, e as cores primárias da vida da minha mãe talvez fossem mesmo mais para os tons cinzas. No mundo daquele seu tempo, não havia espaço para os excessos, muito menos para as escolhas. Eu herdei esse gosto pelos tecidos, acho que das nossas idas às Casas José Araújo, em busca de algum paninho especial. Há poucos anos ela ainda se enfeitava de colares e brincos, e, com o seu cabelo Chanel branco-azulado fazia sucesso seja na banca de Seu Mauro (in memorian), vendedor de cocos da calçadinha, como nos lugares mais sofisticados.
Minha mãe adorava Adélia Prado, Cecília Meireles e de quem é esse rosto... Lya Luft, Martha Medeiros. Poetas apresentadas por nós, filhas,
mas os gostos se misturam, e eu também gosto dessas autoras.
Nos seus hobbies, adorava bater uma perna no shopping, ir ao cinema, beber um bom vinho, sentar na calçadinha “longing to the sea...” e conversar. Minha mãe é a Senhora da conversa! Eu puxei à ela nisso tudo, e dou graças a “la vida” de ter essas qualidades, principalmente a arte da conversa, que faz de uma preposição uma interjeição! Quando viajou, foram poucos os seus passeios, soube apreciar cada paisagem, cada comportamento, cada palmo de território por onde passa. Sou assim também. Sim, ela também chorava com muita facilidade, com ou sem motivo. Eu herdei também esse vale de lágrimas, sempre. Claro, herdei o talento pelos armarinhos, pela cozinha; herdei muito sua criatividade e gosto pelo fazer surpresas, carinhos e proporcionar novidades aos outros.
Não tenho o tamanho da sua disponibilidade no servir nem o seu talento na cozinha (o seu coxão de porco assado no forno brando e a sua ambrosia não têm para Chef algum). Mas o meu olhar cronista/poeta diante dos dias, com certeza puxei à ela, que sabia escrever com maestria até um bilhete para o vigia do prédio. Se tivesse tido uma vida menos “ordinária” nas palavras de Virginia Woolf, teria tido oportunidade de desenvolver tantos outros talentos artísticos:
“Somente através dos nossos devaneios, dos nossos sonhos, é que a nossa verdade interior submersa poderá vir à tona.”
Quando fez 80, não gostou muito do assombroso número 80. Cética, confessou que “não queria mais ouvir o mundo”. Mas agora não é hora de falarmos de ceticismos, nem de dificuldades nem de defeitos nem de nada desfavorável.
Ela reclamava que queria a festa de aniversário (dia de Natal) cotidianamente e com pinceladas de paciência das filhas. Mas quem já se viu festa e homenagem todo dia? E paciência? Peço desculpas de não ter a dosagem certa dessa virtude, um de meus defeitos com certeza não herdados dela. Talvez os Mindêlos mais rabugentos, ou os Balthar Peixoto de Vasconcelos? Talvez esta virtude esteja mais para Júlia, uma tia exótica e braba, que dizem, dizem... pareço com ela... Ana Júlia? Me chama Zé Palhano, amigo de infância, amigo querido.
Mamãe quando olhava o mundo de hoje, achava que não fez nada na vida. Woolf falou desse trabalho invisível das mulheres quando diz:
“Frequentemente, no final de um dia de uma mulher, nada de tangível permanece. A comida que foi preparada se foi; as crianças que foram cuidadas partiram para o mundo...”
Após os 80, minha mãe ficou querendo e procurando a concretude da sua existência; dizia querer ser voluntária, ajudar mais aos outros, fazer algo de útil! A famosa síndrome feminina da inconsistência diante da vida. Claro, o seu trabalho, os seus feitos, foram sua existência, sempre na domesticidade do lar, desprovidos de quaisquer reconhecimento por parte da sociedade, que sempre foi masculina, e sempre priorizou o público, e os afazeres da rua...
Woolf já dizia também:
“O que sabemos das nossas mães, de nossas avós, bisavós,? O que fica? Nada. Somente uma tradição. Uma era bonita; outra era ruiva; uma outra foi beijada pela Rainha. Não sabemos de nada delas, somente os seus nomes e as datas dos seus casamentos e o número de filhos que tiveram.”
E de útil em útil, quem falou que ter quatro filhas, educá-las, cuidar do orçamento doméstico e multiplicar os pães de cada dia em tempos de vacas magérrimas, e tentar, digo tentar, ser boa mãe, e tirar alegria das caminhadas na calçadinha de Tambaú ao entardecer não é ter uma vida valorosa?
Numa época em que não existia outra saída para a vida das mulheres, você pode ter certeza, mamãe, de que sua vida foi consistente sim. Que teve desdobramentos, heranças, e continuidades. Somos quatro filhas-mulheres-lindas (no meu conceito de beleza), de bem com a vida (com todas as dificuldades – existenciais, inclusive), profissionais bem encaminhadas (como se dizia antigamente) e principalmente mulheres trabalhadoras da labuta, perseguidoras de auto-conhecimento e realizações.
Todas transgrediram comportamentos e deram o seu pulo do gato. Todas são pessoas centradas e que se sobressaem naquilo a que se propõem, e com certeza, ter visto minha mãe tocando a sua vida difícil e em desarmonia, e, mesmo assim, encontrar muita alegria de sair chutando o balde, foram lições importantes, que considero heranças geniais. Sim! E há os netos, bisnetos, que são superlegais!
Sei que você hoje não mais lerá esse texto que escrevi, que aqui reedito, como o leu quando fez 80 anos, e em muitos outros, com palavras de carinho e perdão. Como também sei que fui e ainda sou uma filha rebelde e sem paciência, mas, quero que saiba, mamãe, que a admiro muito, e se fosse escrever um livro sobre resistência feminina, você seria minha personagem principal.
Parabéns sempre! Beijos e abraços de todo seu pessoal.
Todo o meu afeto e minha admiração.
▪ Referências literárias: Woolf, Virginia. “Women & Fiction” IN: Women & writing e A room of one's own – tradução livre das citações.