8.2.14
S ó em me lembrar dele, sinto um cheiro de terra. E terra lembra chuva. E chuva mata o calor. Minha mãe nunca avisou: “saia da chuva!” A chu...
Só em me lembrar dele, sinto um cheiro de terra. E terra lembra chuva. E chuva mata o calor. Minha mãe nunca avisou: “saia da chuva!” A chuva era sagrada. O sítio todo molhado não era mais um sítio, era um paraíso. E foi naquele paraíso que passei grande parte de minha infância. Lembro-me quando papai falou em comprá-lo, lá na lagoa, hoje Parque Sólon de Lucena.
Ele não pensava noutra coisa. Estava com saudade do cheiro da terra, lá do sítio de Alagoa Nova, onde cultivou café, por muitos anos. E dizia para minha mãe: “estou calvo devido ao cafezal, que arrancou meus cabelos com os seus ramos...” Sorrindo, ela dizia: “deixe de mentira, Zeaugusto. quem está arrancando teu cabelo é o tempo”. E haja risadas. Nada como o humor para adoçar a vida...
O plantador de café estava com saudade da terra, da natureza. O sítio da Lagoa amenizaria essa saudade. E eu não cabia em mim de contente. O coração batia ansioso. Os meus irmãos também. Deixar a Rua Nova, sua calçada, seu calçamento, seus automóveis, e passar a morar entre fruteiras, deixava-nos ansiosos.
E o que mais me entusiasmou foi quando vi meu pai contando as notas de mil reis, em cima da mesa. O dinheiro que iria comprar o sítio, que beleza! Quem nos vendeu o paraíso foi uma viúva, de nome Dona Zulima. Tive pena dela. Sim, paraíso não se vende...
Meu pai não cabia em si de contente. Nasceu para a vida do campo, embora, anos depois, fosse bater num birô de repartição. A praga que arrasou o cafezal do brejo, deixou meu pai sem emprego. E ele nasceu para o trabalho do campo.
A lagoa só tinha 3 sítios. As ruas empoçadas. Nada de calçamento. Nosso sítio rivalizava em tamanho com os sítios do senhor Porter e do senhor Dias Pinto, este pai do violinista Agmar, hoje, gozando uma tranqüila aposentadoria. Um homem fino, elegante, educadíssimo, cujo violino alegrou muitas noites.
Afinal, o nosso sítio foi comprado. Eu vi papai dando as notas a dona Zulma. Ela deixou-nos dois cachorros: "Bunque" e "Iglô". O primeiro branco e preto, muito ativo, o outro todo branco e preguiçoso. Como gostava deles! Bunque era o meu predileto. Inteligentíssimo. Só faltava falar. Foi meu companheiro de infância. Cheguei a confessar à minha mãe que desejaria ser cachorro...
O sítio ficava onde hoje é a rua Santos Dumont, na Lagoa. Ia desembocar ali perto do Tambiá Shopping. E como este paraíso de minha infância continua vivo na minha imaginação e na minha memória! Que cheiro bom ele exalava... Que silêncio... Centenas de árvores. Árvores de todas as frutas: manga, abacate, jaca, jambo, abricó, fruta-pão, goiaba, além de coqueiros, laranjeiras, sapotizeiros, oitizeiros, e tantas outras... Quando penso que todo aquele paraíso foi, um dia, destruído pelas casas e avenidas, sinto um nó na garganta.
E a nossa casa? Um elegante chalé, ladeado de longos alpendres, onde eu corria de velocípede imitando os bondes... E o bonito mesmo era a plantação de crótons, que meu pai aguava, todos os dias e cujo serviço passou para mim. Quando eu os aguava e os crótons balançavam agitados pela brisa, meu pai dizia: eles estão lhe agradecendo”. E eu acreditava.
E a Lagoa? Rodeada de fruteiras, inclusive de tamarindeiros, uma frutinha azeda de fazer careta. Ali acampavam os inesquecíveis circos, com seus palhaços, seus trapezistas, seus animais amestrados, não esquecendo aquela linda moça caminhando sobre um fio e segurando uma sombrinha colorida. E eu morrendo de medo que ela caísse. Se ao menos caísse em meus braços...
O sítio da Lagoa, meu paraíso da infância, depois conto mais...
8.2.14
4.2.14
S ão dois bustos. Não são bustos femininos, leitor curioso. São tradicionais bustos de bronze. Bustos de gente célebre, um almirante e um es...
São dois bustos. Não são bustos femininos, leitor curioso. São tradicionais bustos de bronze. Bustos de gente célebre, um almirante e um estadista. Ambos ocupando as extremidades da nossa principal avenida, que tem o nome do primeiro busto: Epitácio Pessoa, que fica no início desta grande e nobre artéria, quase um “boulevard”. Lá, vemos o estadista de dedo em riste, apontando para o fim da extensa via pública, donde antes se avistava o mar. Atrás dele, está a praça mais bela da nossa Capital: a Praça da Independência, onde o presidente João Pessoa morava, e, ainda manhã cedinho, costumava dar o seu passeio diário.
O busto de Epitácio aponta para o mar de Tambaú, a mais de seis quilômetros. Mas, ao mesmo tempo, simboliza um gesto histórico do estadista, quando na tribuna do Congresso apontava para a miséria da seca do sertão paraibano. E, agora, para onde o busto estaria apontando? Seria para a praia mais bonita do Nordeste?...
Mas vamos ao outro busto, o busto do almirante, que deveria estar olhando para o mar, e não de costas. Pensando bem, o almirante tem razão em dar as costas àquele mar, que está cada vez mais poluído. O busto parece querer expulsar os vendilhões do templo, com suas barracas, uma delas vendendo até frutas e comidas. E que dizer das barracas e táxis ali perto estacionados, obstruindo o final de nossa mais importante avenida? Já se viu isso em alguma metrópole que se preze? Já imaginaram a Champs Elysées, de Paris, com o Arco do Triunfo cheio de vendagem?
Mais ainda, já imaginaram aquela decantada e nobre avenida parisiense com seu terminal servindo de palco de tudo que é festança? E haja poluição sonora e mictórios fedorentos espalhados por toda a parte.
Agora, olhando o busto de Epitácio, do outro lado, parece que ele está apontando, não mais para a tragédia da seca, mas para tragédia da poluição em torno do respeitável busto do almirante Tamandaré. E ninguém protestando...
A avenida mais nobre, mais bonita, mais elegante da capital, que desemboca na bela Tambaú, transformada, no seu final, numa bagaceira, num sanitário. E ninguém está vendo isso...
4.2.14
2.2.14
E já que comecei, vamos espremendo a memória até ela ficar murcha, Afinal, já disse alguém que “recordar é viver”. Entremos, portanto, ...
E já que comecei, vamos espremendo a memória até ela ficar murcha, Afinal, já disse alguém que “recordar é viver”. Entremos, portanto, no bonde da saudade à procura do que ficou para trás, Continuemos recordando nossos queridos familiares, hoje presentes nos retratos da parede e na nossa saudade.
2.2.14
1.2.14
P ois é, vivendo é que a gente aprende. Tudo ensina na vida: os homens, os animais, as coisas, toda a Natureza. O avião dá lições de transce...
Pois é, vivendo é que a gente aprende. Tudo ensina na vida: os homens, os animais, as coisas, toda a Natureza. O avião dá lições de transcendência, voando acima das nuvens, esquecido das coisas cá embaixo. O sol dá lição de fraternidade, atendendo a todos, indistintamente, com a sua luz. A pedra ensina, o espinho a mesma coisa, a água idem, o fogo idem. O mar, os rios e os lagos não ficam atrás nessa pedagogia, nessa didática do mundo. O mar, naquele vai e vem das ondas, mostra que tudo nasce, tudo morre e tudo renasce, A transitoriedade se eterniza no tempo.
Mas o que foi que me levou a estas reflexões? Ora, leitor, o olhar. Aquele olhar admirativo que fez Jesus nos convidar para observar os lírios do campo. Há pessoas que passam pela beleza como se fossem cegas. Mas, estão sempre de olho num caixa eletrônico.
Augusto dos Anjos, no seu evangelho lírico e espiritual, convidou-nos a olhar a Serra da Borborema onde Jesus levita... O poeta vivia maravilhado com a floração de seus pau-d'arcos, que o sulista qualifica de ipês...
Mas, antes de terminar a crônica, desejo expressar minha emoção, ao ver, no nosso quintal, um flamboyant florindo. E não satisfeito com sua floração no alto, achou de enfeitar o chão com suas pétalas vermelhas. O chão virou tapete. Isto é o que se chama amor.
Mas muitos não deram atenção ao fato. Se não olham para cima, imaginem para o solo...
Deus fez as árvores frutíferas para matar a nossa fome física e as floridas para matar a outra fome, que se chama fome de beleza.
O flamboyant floriu em cima e embaixo. Aos poucos, as flores começaram a cair, lentamente, como se fossem lágrimas, tal a sutileza.
E diante desse espetáculo de beleza, lembremo-nos de expressar nossa gratidão às raízes, que não enfeitam, mas sustentam a árvore. Elas, humildemente, trabalham em silêncio.
E viva os que trabalham sem ostentação.
Estou com pena do flamboyant. Não vai demorar muito na casa onde mora. Os monstros de pedra, os gigantes da construção civil, sondam-lhe, indiferentes ao tapete de flores.
1.2.14
31.1.14
Prepare-se para adquirir um pouco de cultura inútil, que certamente não acrescenterá nada em sua vida. Conheça o local de nascimento de al...
Prepare-se para adquirir um pouco de cultura inútil, que certamente não acrescenterá nada em sua vida. Conheça o local de nascimento de alguns astros e estrelas radicados nos Estados Unidos. Clique nos links para ver cenas e trailers de alguns de seus mais famosos filmes.
31.1.14