Em qualquer lugar do planeta, viajar de avião é sempre uma ótima comodidade. Na Europa, há um componente ainda mais vantajoso, pois muitas...



Em qualquer lugar do planeta, viajar de avião é sempre uma ótima comodidade. Na Europa, há um componente ainda mais vantajoso, pois muitas localidades, grandes e médias, são servidas por empresas aéreas de baixo custo. O problema é que o preço atraente traz uma contrapartida desagradável: o passageiro geralmente tem que se deslocar para aeroportos distantes e em horários prá-lá de inconvenientes.

C omo tudo na vida passa, o nosso paraíso haveria de acabar. E tudo começou quando ouvi um fiapo de conversa de meus pais. Eles falavam que ...

Como tudo na vida passa, o nosso paraíso haveria de acabar. E tudo começou quando ouvi um fiapo de conversa de meus pais. Eles falavam que o sítio ia ser desapropriado pelo Governo para dar lugar à construção de um colégio.

Não entendi bem esse negócio de desapropriação. Só sei que senti um forte aperto na garganta. Olhei para as mangueiras que, decerto, iriam ser derrubadas. Saí andando meio cambaleando pelo sítio, sentei-me no chão e chorei muito. As árvores pareciam me escutar. Os cachorros, Bunque e Iglô, chegaram perto de mim, balançando as caudas, como desejando me consolar.
Meus olhos se estenderam sítio afora. Meu paraíso ia ser destruído. E para onde iríamos? Talvez para uma casa lá no centro da cidade. Uma casa com quintal, apenas.

Neste momento meu pai passou perto de mim e foi logo indagando: “Que está fazendo, aqui, sozinho?” Tive pena dele. Sem dúvida estava sofrendo em silêncio. O sítio era tudo para ele. Quase tudo que existia ali, afora as fruteiras, saiu de suas mãos de agricultor.

O tempo foi passando e eis que, um dia, ele informou aos filhos: o governo ia desapropriar o sítio, e iríamos morar numa casa, na Rua Nova, uma das principais da capital. A casa era grande, tinha um sótão e ficava defronte do Convento de São Bento. E era na Rua Nova que se realizava a Festa das Neves. Essa informação consolou-me um pouco. Afinal, a vida é feita de mudanças.

No dia seguinte, meu olhar para o sítio era triste, de despedida. Um olhar molhado de lágrimas. Tive pena das árvores, que, por certo, seriam derrubadas, inclusive a casa, com seus longos alpendres. E eis que chegou um bando de meninos para brincar, que moravam em casas com seus quintais. Mas, silenciei em relação a saída do sítio. Sem dúvida, alguns deles iriam gostar. Muitos me invejavam.

Papai agora não era mais dono de um sítio. Iria ser burocrata. Deixava o campo pelo birô. Ia ser funcionário federal, secretário das Obras Contra as Secas.
E chegou o dia da mudança para a Rua Nova, com sua Catedral, seu silêncio histórico e místico.

Os cachorros não sabiam da mudança. Daí aquela alegria de rabo balançando. Tive pena deles. Adeus Lagoa, adeus adoráveis manhãs de domingo, adeus meu paraíso, adeus aquele cheiro de terra, as frondosas árvores, a paz paradisíaca...

Mas a vida é uma dança, a dança da mudança. Minha mãe, que adorava novidade, enfrentou a situação com muito otimismo. Ela vivia muito bem o presente. Já em papai, notei uma melancolia saudosista. Trocar o sítio por uma repartição pública...
Menino de calça curta, eu já ansiava por uma calça comprida. Disseram-me que na Rua Nova havia uma grande costureira chamada dona Eudócia. Isto me animava.

A Rua Nova tinha largas calçadas, que serviam de campos de futebol. Não faltavam meninos para isso. Havia os pés de fícus e oitizeiros que ornamentavam a rua. O resto eram só casas. E haja janelas para as conversas. Ali morava muita gente ilustre e rica. O ex-presidente e general Camilo de Holanda, o historiador Coriolano de Medeiros, fundador da nossa Academia de Letras, Gazzi de Sá, professor de piano e maestro de orfeão, o presidente Castro Pinto, escritor De Castro e Silva, o primeiro biógrafo de Augusto dos Anjos e assim por diante. Mas, e o sítio, que continua na minha memória? Impossível esquecê-lo.

O menino de sítio agora era menino de rua, vivendo entre casas ao invés de árvores, calçamento ao invés de terra, buzina de automóveis ao invés de pássaros cantando.

Quando fui dormir, o sítio apareceu na minha imaginação. Veio aquele nó na garganta, e um dilúvio de lágrimas. Chorei baixinho para ninguém ouvir. O sítio veio comigo. A minha tristeza era profunda. Tristeza que o carrilhão da Catedral, com suas místicas badaladas aumentou ainda mais...

S im, estou me referindo a Abelardo Jurema, que comemoraria um século de existência, se ainda estivesse aqui no mundo. O evento está sendo l...

Sim, estou me referindo a Abelardo Jurema, que comemoraria um século de existência, se ainda estivesse aqui no mundo.

O evento está sendo lembrado com muita saudade, porquanto Abelardo soube, como ninguém, fazer amigos. Era uma alma escancarada, aberta, fraternal, que todos os dias nos dava lições de amor à vida.

Fui seu aluno. Mais ainda: fui seu admirador. Aluno de que? Adiante eu conto. Continuemos na crônica.

Nosso querido Abelardo não sabia cultivar ódios, ressentimentos. Recorro à memória, que me traz a imagem desse homem de coração aberto. Ele me chamava Romero. E o Romero, em sua boca, soava bonito, pois a voz dele era de uma sonoridade que agradava aos ouvidos. Sempre elegante. Elegante no vestir, elegante no falar, elegante no ensinar, não esquecendo que ele foi meu professor. Professor de que? Mais adiante, digo.

Ele gostava de política, da boa política. Espremo mais a memória e vejo-o de camisa colorida, distribuindo sorrisos e abraços. Difícil não gostar dele. Nunca vi Abelardo triste, falando mal de alguém, Abelardo pessimista, Abelardo rosnando ódios.

Foi um paraibano ilustre, que desempenhou cargos importantes com a mesma fidalguia. Seja como Ministro da Justiça, Procurador da República, Prefeito, e Diretor do BNDES, como professor e diretor da Rádio Tabajara, onde se ouvia a sua voz, que era de uma imponente beleza. E saber que esse otimista foi exilado... E nesse exílio no Peru, deixou-nos um livro molhado de saudades, um livro comovente.

Sim, vou contar, Abelardo foi meu professor de Literatura Brasileira, no Lyceu Paraibano. Suas aulas eram gostosas. Ele confundia-se com os alunos. Nada de distância. Um homem que deixou um grande exemplo não só aos alunos mas a todos os paraibanos. Exemplo de otimismo, de amor à vida, de dignidade, de coragem diante das dificuldades.

Sua mão vibrou quando assinou o decreto que federalizou a nossa Universidade. Que grande presente, ele deu à nossa terra!

Pai de oito filhos que só lhe deram alegria, ele era uma alma aberta, que não conhecia a mesquinheza. E como era gostoso aquele seu abraço fraternal, como se quisesse abraçar o mundo!... Um homem elegante, bom e bonito.

C ontinuemos espremendo a memória, trazendo ao presente o paraíso de minha infância, aquele sítio lá da Lagoa, com suas fruteiras, seu silên...

Continuemos espremendo a memória, trazendo ao presente o paraíso de minha infância, aquele sítio lá da Lagoa, com suas fruteiras, seu silêncio, a terra molhada, sem esquecer o canto dos pássaros, o sussurro da brisa, o canto evocativo e triste dos galos, o latido ansioso dos cachorros, assustando-se com a queda das mangas... Ah, as mangas! Era gostoso a gente ouvir, altas horas da noite, as mangas caindo no chão. Mangas de todos os tipos. Rosa, espada, bacuri, do papo-roxo, baronesa, e assim por diante. E embrulhados em nossos lençóis, ficávamos ansiosos que chegasse logo a madrugada, quando, então, víamos o chão coalhado de mangas. E saíamos correndo para apanhá-las. Mais tarde chegavam os compradores de manga.

O sítio tinha seus trabalhadores. O chefe deles, seu Antônio, era ignorante, mas de toda confiança do meu pai. Não bebia e tinha um grande respeito ao seu chefe. Chamava-o de Seu Zezinho. E havia um Vitorino, criatura boníssima, mas que vivia sempre bêbado. Vendia as mangas, na rua, e voltava encachaçado dizendo que as mangas estavam podres...

O bom mesmo era trepar nas árvores, donde a gente via outros sítios. E adorávamos essa bisbilhotice no quintal alheio. Eu e minha irmã Ivone, companheira de infância, passávamos horas nessa distração. Ivone adorava fazer de tabuazinhas bonecas. E eu tinha de lhe fazer companhia, pois sua irmã Iracema, que me destronou da privilegiada posição de caçula, só chegou anos depois.

Havia muitas superstições. Dizia-se que, à meia-noite, aparecia uma mulher, uma alma do outro mundo, debaixo do pé de cajá, Isto me amedrontava. Mas depois desconfiei que a visão daquela alma foi invenção de minha mãe para que fossemos dormir cedo. Antes do sono, recitávamos o “Pai Nosso”. Acontece que toda vez que, na oração, pedíamos o “pão nosso de cada dia”, Ivone dizia:” eu quero pão”. Minha mãe terminou omitindo o pão da prece.

E as assessoras domésticas? Tinha muitas. Maria Benedita, que veio de Alagoa Nova; Zefa, ossuda, que, um dia, meus irmãos mais velhos mostraram-lhe a foto de uma bela artista de cinema, dizendo que era ela e a boba acreditou.

Como já dissemos, o sítio ficava de frente para a Lagoa, onde, à sombra de suas frondosas árvores, os músicos da Banda da Polícia Militar ensaiavam seus instrumentos. Babás com crianças tornavam aquele ambiente festivo.

Voltando às assombrações, havia o “Casaca de Couro”, um bicho horroroso, que, altas horas da noite, pulava nas costas das pessoas, mordendo-as. E eu me pelava de medo, só em pensar.

No sítio, as refeições eram rigorosamente disciplinadas. Café, almoço e ceia. Todos deveriam estar sentados, aguardando a chegada dos pais. O caçula gozava do privilégio de se sentar ao lado dos pais. O filho mais velho também. E o que é que se comia na ceia? Batata, macaxeira, cuscuz, inhame, que vinham do sítio, das plantações do meu pai.

E como o sítio era gostoso nos dias de domingo, quando recebíamos a visita de minha vó Quininha, diminutivo de Joaquina. Ela usava um vestido branco que cheirava a alfazema. Era um amor de vó. Irônica, perspicaz, inteligentíssima. Casou-se aos 13 anos com um comerciante de couros, muito inteligente, de nome Vicente, que, nas horas de descanso, tocava clarinete. Muitas vezes trabalhava com a jovem esposa sentada em sua perna..

Uma visita muito honrosa nesses domingos era a de um amigo de meu pai, muito gordo e maçon. Mal chegava, ia logo gritando: “quero cachaça”. E pedia “cachaça com sal”. Meu pai, que só tomava água de coco, atendia ao pedido do amigo.

Aos domingos, a Lagoa era uma festa. O menino do sítio não cabia em si de contente. Mas não era a lagoa que era uma festa. A vida ali é que era.







As marchinhas predominaram no carnaval brasileiro no século passado, principalmente entre as décadas de 20 e 60. Suas letras, bem curtas e...



As marchinhas predominaram no carnaval brasileiro no século passado, principalmente entre as décadas de 20 e 60. Suas letras, bem curtas e fáceis de decorar, refletiam o bom humor da época, algumas com mensagens inocentes e outras com manifestações de descontentamento político e social. Muitas delas continuam na memória dos foliões e são revisitadas nos eventos carnavalescos, animando blocos de rua e fazendo a alegria dos raros bailes de salão que ainda ocorrem no país. As melodias, que apresentam ritmo bem marcado, são sempre um convite para a dança leve e descontraída.

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