Houve um tempo, por conta de um desvio de coluna cervical, que andei sofrendo umas quedas. A derradeira foi me deixar numa cama de hospit...

Queda no gelo

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Houve um tempo, por conta de um desvio de coluna cervical, que andei sofrendo umas quedas. A derradeira foi me deixar numa cama de hospital. É que quando caí, por sinal no asfalto da avenida Cabo Branco, fiquei desacordado. Mãos amigas me acudiram logo, colocando-me num carro e me levando para o Memorial do Dr. Ítalo Kumamoto. E viva os bons samaritanos, que continuam erguendo os caídos nos caminhos.

Ainda bem que essa foi a última queda. Não leitor, minto. Também caí, quando visitei pela primeira vez a graciosa cidade Bariloche, na Argentina. Uma cidade essencialmente turística, rodeada de montanhas geladas, a que não faltam turistas brasileiros. Tanto é assim que há muito que estão chamando Bariloche de "Brasiloche", pois tem brasileiro por tudo que é canto...

E numa certa manhã, com um frio danado, fomos pisando na neve lá no topo de uma montanha gelada, depois de uma subida pelo teleférico. Só Deus sabe o medo que se apoderava em mim. Muita gente jovem ainda subindo e eu, que tenho mais de quarenta, acompanhei aqueles intrépidos turistas. Meu medo era cair. Que ridículo! Os rapazes iam na frente sorrindo e eu atrás. Lá no alto, o pico da montanha gelada parecia sorrir ou mangar dos turistas. E fomos indo. Mas meus pés, mesmo dentro de umas botas especiais, vez por outra, davam uma escorregadazinha no chão liso de gelo. Era como se estive patinando. E patim, como você sabe, exige muito equilíbrio.

Tudo ia muito bem, debaixo de muitas gargalhadas, quando não pude mais me equilibrar no gelo e o resultado foi uma desajeitada queda. Caí sentado. Ah, leitor, que vergonha eu senti! Mas, dentro de poucos segundos, não é que duas jovens, que iam à minha frente caíram? E haja gente caindo mais adiante.

Ainda bem que não me machuquei. Mas o diabo é quem se mete mais nessa aventura.

Voltando a Bariloche, como gostei dela, apesar do frio – e logo eu que detesto frio... Sou homem do calor.

Não me esqueço de uma coisa que vi naquela gelada cidade, e que me comoveu profundamente. Vi um turista cego. Cego e sorrindo. Ele ainda era moço e estava muito bem vestido. Ia, vez por outra, se segurando nos companheiros. Um turista cego! E lembrar que os olhos são tudo num passeio turístico...

Bariloche, rica de paisagens lindas. Bosques, lagos e montanhas geladas.

E terminei com outra grande surpresa. Vi lá uma boa livraria, dirigida por um casal, por sinal, muito simpático e que mais simpático ficou quando soube que éramos brasileiros.

É bom ouvir os estrangeiro dizerem entusiasmados: "ah, Brasil, Brasil!"

Mas esqueçamos as quedas, seja no asfalto, seja no gelo. Só não esqueçamos de Bariloche, um verdadeiro paraíso gelado.
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