Alguns têm cachorrinhos, outros têm gatinhos, eu... sou guardadora do peixinho da Laura. E ela, lá de longe, pergunta se ele continua nadan...

O peixinho Drogo


Alguns têm cachorrinhos, outros têm gatinhos, eu... sou guardadora do peixinho da Laura. E ela, lá de longe, pergunta se ele continua nadando.

Está sim, Laura, e a vovó toda cuidadosa, troca a água deste minúsculo balde de gelo onde improvisamos a casa do peixinho, o alimento religiosamente todas as manhãs e já reconheço sinais do seu lindo e fluido agitar quando me aproximo.

É um peixinho betta, que segundo informações, não se relaciona com outros peixes. Estamos fadados, ele e eu, a dividirmos um espaço, sem conversas, sem manifestações de apreço e diferente de outros bichos, este não late, não mia, não canta.

Coloquei no peixinho o nome de Drogo, personagem do livro “O Deserto dos Tártaros”, uma leitura que me marcou profundamente. O personagem, é um oficial italiano designado a viver em um forte no meio do deserto onde espera incansavelmente uma batalha, que nunca vem, e que ele imaginava daria significado à sua vida.

Igual ao peixinho que vive uma verdadeira solidão, onde o tempo se arrasta sem sentido, sem agir por conta própria, sem escolhas sobre os rumos que a sua vida toma, o personagem Drogo igualmente viveu.

Assim também somos nós, que ficamos eternamente presos e parados esperando que a batalha apareça e, com isto, podemos morrer de fome de ação...ou nos tornarmos peixes betta dentro de um aquário.

É irreal ficarmos à espera de que algo fantástico nos aconteça, mas, se não agirmos, tudo permanecerá igual, imóvel.

A terrível e implacável passagem do tempo nos lembra as escolhas que fizemos, se teremos força para desviarmos o destino e encarar a vida que realmente queremos viver.

Estas são circunstâncias e perguntas complexas que bailam em mim, nesta noite, enquanto observo esse peixinho azul.


Cristina Lugão Porcaro é bacharel em artes plásticas, psico-pedagoga e escritora

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