Para o poeta pernambucano Manuel Bandeira: “Ele era o traço mais expressivo ligando os poetas, os artistas, a sociedade fina e culta às c...

O Rei do Samba

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Para o poeta pernambucano Manuel Bandeira: “Ele era o traço mais expressivo ligando os poetas, os artistas, a sociedade fina e culta às camadas profundas da ralé urbana. Daí a fascinação que despertava em toda a gente quando levado a um salão".

“Ele era grande! Foi ele quem botou o samba no salão!”, afirmava uma neta da Tia Ciata, a quituteira baiana na casa da qual, no Rio de Janeiro, se diz que o samba nasceu.

Ele era José Barbosa da Silva, o J. B. da Silva (como assinava as suas partituras), ou Sinhô, como ficou conhecido, o “Nosso Sinhô do Samba”, como o pesquisador cearense Edigar de Alencar denominou a sua biografia (Civilização Brasileira, 1968).

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Todas as fontes históricas existentes indicam que o samba, na forma como o gênero musical é, hoje, conhecido, surgiu em festas (“sambas”) que eram realizadas nas casas de matriarcas baianas, descendentes de escravos, que haviam migrado, no final do século 19, da Bahia para o Rio de Janeiro, se fixando em uma área próxima à zona portuária da cidade, que era chamada de Pequena África.

Inicialmente, aquela forma de música, que tinha evidentes características africanas, ficou circunscrita àquela região, que era habitada, predominantemente, por descendentes de escravos. Pouco a pouco, o gênero musical nascente foi se expandindo para os salões de espera dos cinemas, para os espetáculos nos teatros de revistas, para as gravações em discos e até para as casas dos letrados. E essa travessia da nova música para os novos ambientes teve em Sinhô o seu principal condutor.
Partituras de Sinhô
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O pesquisador Jairo Severiano considera Sinhô o “sistematizador do samba e o nosso compositor popular de maior sucesso nos anos 20”. Para o historiador e musicólogo Vasco Mariz:

“Sinhô foi o primeiro compositor de samba propriamente dito. Com ele, Donga e Caninha, o samba se cristalizou, abandonando aquela forma apolcada que o vinha caracterizando até então. Sinhô é um marco na história da música popular [...]”

Sinhô foi um daqueles gênios que surgem no mais profundo Brasil real. Nascido no Rio de Janeiro, na “era dos três oitos” dos tempos do Imperador Pedro II, filho de um pintor e decorador de paredes, cedo demonstrou aptidão para batucar, com seus dedos longos, em um velho piano que existia na casa dos seus avós.

Na rua em que Sinhô morava quando adolescente, uma espécie de gueto da população pobre no centro do Rio, ele tinha como vizinhos e companheiros de estripulias, João da Baiana, o filho de uma doceira, e um vendedor de roletes de cana, que chamavam de Caninha Doce (ou somente Caninha).
Os três, anos depois, fariam parte, juntamente com Donga, Heitor dos Prazeres e Pixinguinha, do primeiro grupo de compositores do samba.

Sinhô nunca foi de estudar, era semianalfabeto. Muito jovem, já era habilíssimo ao piano, que tocava de ouvido. Logo se tornou conhecido como músico profissional, se apresentando em modestos clubes, gafieiras e agremiações carnavalescas, como Kananga do Japão, para a qual ele fez uma das suas composições.

O prestígio de Sinhô como pianista, na segunda década do século passado, pode ser comprovado em anúncios de festas que eram publicados nos jornais, que o colocavam como atração do baile, em alguns deles juntamente com Pixinguinha, como se vê em um anúncio que saiu, em julho de 1915, no Jornal do Brasil: “Abrilhantará este o choro de cordas regido pelo exímio flautista Pexinguim e o valente cronista Sinhô Pianista”. Outro anúncio, o apresentava como “o saltitante e harmonioso pianista Sinhô”.

Segundo Edigar de Alencar, Sinhô era assíduo participante dos “sambas” que eram realizados na casa da quituteira baiana Hilária Batista de Almeida, a Assiata de Oxum, a Tia Ciata, como ficou conhecida. Nesses folguedos, nasceu “Pelo Telefone” que, no ano de 1916, foi o primeiro samba a ser gravado em disco, aparecendo como seu autor apenas Donga. Na verdade, o “partido alto” “Pelo Telefone” teria sido uma criação coletiva da qual Sinhô participara.
"Pelo Telefone"
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O sucesso de “Pelo Telefone” estimulou Sinhô a começar a compor sambas para o carnaval e para o teatro de revista. A partir de 1919, as músicas de Sinhô inspirariam mais de quarenta revistas nos teatros da Praça Tiradentes, que era uma espécie de Broadway carioca. Ruy Castro, no seu livro “Metrópole à beira-mar – O Rio moderno dos anos 20” (Companhia das Letras, 2019) escreveu que, em meados da década de 1920:

“quando se falava em samba, um dos poucos nomes que vinham à mente era o de Sinhô. Fora ele quem o levara para o veículo mais popular do País: o teatro de revista. Somente em 1928, sua música estaria em doze espetáculos”.

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Os sambas de Sinhô estavam na boca do povo e nenhum outro compositor da sua época alcançou o seu sucesso popular: Gosto que me enrosco , Cansei , Não quero saber mais dela , Fala, meu louro (sátira ao senador Ruy Barbosa), “Fala baixo” (alusão à repressão no tempo do governo Artur Bernardes) e tantos outros. Para o seu biógrafo Edigar de Alencar:

“Sinhô procurou sempre levar à pauta o acontecimento marcante ou mesmo o fato banal da vida citadina. Nada lhe escapava. Do episódio político à ocorrência policial, do figurão de proa aos tipos populares de então. Tudo que somasse atração, sedução para o povo”.

Em 1928, um jovem acadêmico de Direito, da alta sociedade carioca, procurou Sinhô para tomar aulas de violão com o compositor. Desse encontro, surgiria o maior intérprete das músicas de Sinhô: Mario Reis que, com sua voz diminuta, mas cheia de bossa, revolucionaria o canto popular brasileiro.

Em 1929, o disco com “Jura”, um dos sambas mais conhecidos de Sinhô, na voz do Mario Reis, atingiu uma vendagem de 30 mil cópias, somente no primeiro ano, número nunca antes alcançado no Brasil.

Embora de poucas letras, Sinhô tinha entre seus maiores amigos, intelectuais como Álvaro Moreyra, Luís Peixoto e José do Patrocínio Filho, este último, segundo José Ramos Tinhorão, “era tão fanático na admiração por Sinhô, que se ajoelhava para ouvi-lo. Pois seria esse o filho do chamado ‘Tigre da Abolição’ o responsável pela coroação pública de Sinhô como Rei do Samba, em 1927, no clímax de uma festa no Teatro República”.

Apesar de ter composto o samba “Amar a Uma Só Mulher”, homenageando a perfeita união do escritor Álvaro Moreyra com a sua mulher Eugênia, Sinhô não cumpria o preceito contido no título da sua música. Casou três vezes, teve incontáveis amores e levava uma vida boêmia. Apesar de ser um bebedor moderado, o desregramento em que vivia cobrou o seu preço.

No dia 4 de agosto de 1930, Sinhô tomou, no final da tarde, a barca da Cantareira, para viajar da Ilha do Governador, onde morava, para o Rio, para mais uma noitada. No percurso, sofreu uma brutal hemoptise, decorrente de uma tuberculose que ele ocultava, e teve morte súbita. Tinha 42 anos.

No dia seguinte ao da sua morte. o poeta Manuel Bandeira, que esteve no velório do compositor, escreveu a crônica “O Enterro de Sinhô”, publicada no Diário Nacional, de São Paulo, da qual, a seguir, alguns trechos são apresentados:
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“J. B. SILVA, o popular Sinhô dos mais deliciosos sambas cariocas, era um desses homens que ainda morrendo da morte mais natural deste mundo dão a todos a impressão de que morreram de acidente [...]

[...] a gente não podia deixar de gostar dele desde logo, pelo menos os que são sensíveis ao sabor da qualidade carioca. O que há de mais povo e de mais carioca tinha em Sinhô a sua personificação mais típica, mais genuína e mais profunda. De quando em quando [...] vinha de Sinhô um samba definitivo, um Claudionor, um Jura, com um "beijo puro na catedral do amor", enfim uma dessas coisas incríveis que pareciam descer dos morros lendários da cidade, Favela, Salgueiro, Mangueira, São Carlos, fina-flor extrema da malandragem carioca mais inteligente e mais heróica

[...] Vi-o pela última vez em casa de Álvaro Moreyra. Sinhô cantou, se acompanhando, o "Não posso mais, meu bem, não posso mais", que havia composto na madrugada daquele dia, de volta de uma farra. Estava quase inteiramente afônico. Tossia muito e corrigia a tosse bebendo boas lambadas de Madeira R. Repetiu-se a toada um sem número de vezes. Todos nós secundávamos em coro.

[...] Não faz uma semana eu estava em casa de um amigo onde se esperava a chegada de Sinhô para cantar ao violão. Sinhô não veio. Devia estar na rua ou no fundo de alguma casa de música, cantando ou contando vantagem, ou então em algum botequim. Em casa é que não estaria; em casa, de cama, é que não estaria. Sinhô tinha que morrer como morreu, para que a sua morte fosse o que foi: um episódio de rua, como um desastre de automóvel. Vinha numa barca da Ilha do Governador para a cidade, teve uma hemoptise fulminante e acabou.

[...] Seu corpo foi levado para o necrotério do Hospital Hahnemanniano, ali no coração do Estácio, perto do Mangue, à vista dos morros lendários... A capelinha branca era muito exígua para conter todos quantos queriam bem ao Sinhô, tudo gente simples, malandros, soldados, marinheiros, donas de rendez-vous baratos, meretrizes, chauffeurs, macumbeiros [...]todos os sambistas de fama [...]mulheres dos morros, baianas de tabuleiro, vendedores de modinhas... As flores estão num botequim em frente, prolongamento da câmara-ardente. Bebe-se desbragadamente. Um vaivém incessante da capela para o botequim. Os amigos repetem piadas do morto, assobiam ou cantarolam os sambas (Tu te lembra daquele choro?).

No cinema d'a Rua Frei Caneca um bruto cartaz anunciava "A Última Canção" de Al Johnson. Um dos presentes comenta a coincidência. [...] Não tem ali ninguém para quebrar aquele quadro de costumes cariocas, seguramente o mais genuíno que já se viu na vida da cidade: a dor simples, natural, ingênua de um povo cantador e macumbeiro em torno do corpo do companheiro que durante tantos anos foi por excelência intérprete de sua alma estóica, sensual, carnavalesca.”

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  1. Salvas‼muitas salvas‼
    Flávio Ramalho de Brito...esta crônica vai ficar na minha história!
    Paulo Roberto Rocha

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  2. O autor tem nos dado, com seus escritos, verdadeiras aulas de história da música e, consequentemente, da cultura legitimamente brasileira, que infelizmente estamos permitindo escorrer pelo ralo fétido das modernidades.

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