Toda grande imagem simples revela um estado de alma. A casa, mais ainda que a paisagem, é "um estado de alma". "Quando...

Casa de mãe, casa de filho

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Toda grande imagem simples revela um estado de alma. A casa, mais ainda que a paisagem, é "um estado de alma".
"Quando a casa é feliz, a fumaça brinca delicadamente acima do telhado". A Poética do Espaço – Gaston Bachelard 
Meu filho caçula, Daniel, saiu de casa em janeiro de 2020. Foi para São Paulo batalhar a vida. Fiquei de cama, literalmente. E logo eu que dizia que não me importava se meus filhos ganhassem os mundos. Uma coisa é o que idealizamos ser, outra, o que somos. E eu dizia isso quando era mais jovem, todos em casa, família reunida. Lucas, o filho mais velho, já havia saído de casa há tempos. Mas mora perto, e a casa de mãe é logo ali... tem outros significados. Mas, mesmo assim, e com outro temperamento, tenho certeza do lugar que essa casa simbólica ocupa no seu coração.

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Daniel e Ana Adelaide Peixoto ▪️ Fonte: Acervo da autora
E essa gangorra de despedidas foi difícil. Mas eu, feliz de ver meu filho trabalhando, saindo do ninho, conquistando sua autonomia. E com a sua namorada ao lado, Bruna. O que me deixou mais feliz ainda. Ele não estaria sozinho naquela selva de pedra, onde também se erguem coisas belas, e de desafios, que é São Paulo.

Desde então, ele vem de férias. Isso já há quatro anos. E eu observava muito o que seja a “visita” de um filho. Você, mãe, que conheceu esse bebê, menino, pirralho, adolescente, adulto, e sempre o viu como filho e dependente, incorporado ao seu corpo e às paredes da casa, agora tem uma visita. Um ser do fora. É seu filho amado e é um turista! Com vida própria, costumes próprios, o que é para lá de saudável, mas nós, mães, ficamos meio perdidas nos paradoxos dos sentimentos e no expressar do amor e das limitações de se ter um filho adulto em casa: “Feche a janela. Lanchou? Vai sair? Tem transporte?”. Como se ainda existisse ali um menino indefeso. E quando vai embora, novamente uma mistura de tantas coisas. A vida volta, dá um parafuso, dá outra volta, uma felicidade de que ele tem autonomia para voltar e seguir a sua vida, e a sua própria vida que volta de novo para o de antes.

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Daniel Peixoto produz videos no canal @dnlpxt que que fala do seu encantamento para com os livros e leituras ▪️ Fonte: Instagram
E enquanto tudo isso passava pela minha cabeça já há algum tempo, eis que sou surpreendida por um vídeo de Daniel, que agora também é influencer — ou nem sei o nome — que fala do seu encantamento para com os livros e leituras. Passei a vida levando esses meninos em livrarias, frequentando a feira de livros do Sesc, presenteando-os com livros, contando histórias para dormir, falando de livros, filmes e viagens, e da vida. Mas nem tudo na vida obedece a uma equação. Daniel começou a falar das surpresas com os livros e a comentar nomes sagrados como Dostoiévski, Saramago, Gabriel García Márquez. E fazendo sucesso com os seus espantos de “leitor comum” — vai saber o que seja esse leitor (ver texto de Virginia Woolf, com esse título, The Common Reader) — e agora, quando aqui chegou para as festas de fim de ano, vivia de olho comprido pelas minhas estantes.

Mas o vídeo que ele postou esta semana não foi sobre livros e se chama: “O poder da Casa de Mãe”. E claro que fui às lágrimas. Emocionada, já vi e revi algumas vezes. No vídeo, ele fala de como foi “mais fácil” partir para SP sabendo que tinha uma casa de mãe para voltar, caso as coisas não tivessem acontecido. Bachelard bem ilustra: “A vida começa bem, começa fechada, protegida, agasalhada no regaço da casa”. E depois falou de como é bom ter férias nessa casa que, para ele, também tem pontos ambivalentes (me confidenciou depois).
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Gaston Bachelard (1884–1962),filósofo e epistemólogo francês ▪️ Editora LF
Mas que aquece o coração por ter “comida, toalha e teto”. E continua: “A casa de mãe que lhe espera. Matar a saudade de casa”. Bachelard complementa: “A casa vivida não é uma caixa inerte. O espaço habitado transcende o espaço geométrico...; mas às vezes deixo as paredes de minha casa se expandirem no espaço que lhes é próprio, que é a extensibilidade infinita”. Daniel menciona sobre “se sentir em casa; o cheiro, a comida, o povo que encontra no elevador, uma coisa sagrada na casa de mãe, as quinas, os móveis, dificuldade de voltar para SP, e saber que, se tudo der errado, tem um lugar para voltar”. Como disse Bachelard: “Nada há que expresse a valentia das paredes, a coragem do teto. A casa não luta”.

A minha alegria não foi por merecimento, como algumas amigas me elogiaram, mas por saber do amor imenso e que, de alguma forma, eu pude criar um espaço físico e subjetivo que o habita até hoje. E esses espaços são sagrados em tudo que fazemos na vida.

Essa emoção me levou também para “Lá em casa”, a casa dos meus pais que era uma casa com problemas, como tantas outras casas, e algumas coisas disfuncionais, também como tantas, mas que era também um canto de “comida, toalha e teto”, como diz Daniel. Um lugar para voltar, como eu algumas vezes voltei, vulnerável e em circunstâncias difíceis, mas que os meus pais me recebiam com esse poder de que fala hoje o meu filho, e que o filósofo arremata:

“A casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa permite sonhar em paz”. “Gostaria que minha casa fosse semelhante à do vento do mar, palpitante de gaivotas”.


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  1. Não lembro de ter feito um comentário anterior, mas sexta-feira, 16 de janeiro de 2026, aconteceu algo que mudou um pouco o meu entendimento sobre esse espaço chamado de a casa da mãe.
    Tenho uma filha que casou com 16 anos e foi morar longe. Isso aconteceu há quase vinte anos. Precisei fazer uma cirurgia , e ela veio me cuidar. Num dado momento, depois da cirurgia, jogando conversa fora, perguntei a ela se não queria ter outra mãe, somos uma o oposto da outra. Ela disse que não, queria essa mãe tão diferente dela.
    Na casa da mãe não entrou em tempestades.Ela tem uma coisa muito diferente de mim, mas é muito mais competente, e valorizo isso. Num dado momento, a cama hospitalar parou de funcionar. Lá estava ela observado onde estava o problema.Encontrado , logo foi solucionado.
    Minha filha aprendeu a ter o seu espaço, e eu o meu.

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  2. Que lindo 👏👏👏👏👏👏👏👏♥️♥️♥️♥️♥️🙏🙏🙏🙏🙏🙏✂️

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