Fui acordado pelas batidas insistentes da chuva na janela do meu quarto. O tempo parado. As gotas de chuva como goteiras dos que sente...

A erosão dos dias

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Fui acordado pelas batidas insistentes da chuva na janela do meu quarto. O tempo parado. As gotas de chuva como goteiras dos que sentem saudade de sabe-sei-lá-o-quê. É... A saudade às vezes chega como aquela goteira de casa sem forro. Uma xiringa de chuva que insiste em escorrer pelo chão da sala, que, atrevida, atravessa as fissuras das telhas como pingos paraquedistas que se explodem no molhar.

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Ainda sonolento, cambaleando de preguiça, segui ao banheiro. A umidade fazia os azulejos suarem, e o chão tentava se encolher na sua rigidez de piso. O vaso abriu sua bocarra para receber os jatos quentes de xixi.

Uma outra boca me aguardava: a pia. Esta, menos gulosa e mais seletiva. Diante de mim, ele, o que me esvazia não de meus líquidos, mas do meu tempo: o espelho.

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Toda manhã, ele me inaugura e me põe de volta nos trilhos do tempo. Fora os meus cabelos desgrenhados nas tempestades dos travesseiros, arrepiados das reviravoltas dos sonhos, o espelho me mostra os sinais do seu fiel parceiro: o tempo.

A fim de não me espantar, desvio o olhar e inundo meu rosto com a enxurrada de água fria. Mas, ao me defrontar de volta com o espelho, vejo a água inundar uns sulcos da minha face que, até um dia, não existiam. O tempo é inclemente em suas escavações. Enfim, a água inunda estes leitos secos de rugas e desaba em cachoeira rumo à garganta da pia.

O tempo é sol causticante, craquelando a pele. Eu me assombro. E, antes de tentar assorear os sulcos naturais com uma camada de cremes miraculosos, eu me deparo, lenta e descuidadosamente, com minhas temporalidades.

Antes, lembro-me das negações que se fazem do tempo: terceira idade, melhor idade, idade dos sábios. Não. O tempo não cessa nem como metáfora.
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É inclemente e incessante, como um garimpeiro que escava um terreno em busca de gemas e metais, criando uma cratera, um buraco sem tamanho ou do tamanho da sua ambição, depois do abandono da terra pobre.

Só quem sabe do tempo são os poetas.

Há quem se esconda do tempo nas academias que prometem um corpo definido (por quem?). Há outros mais corajosos que o escondem entre bisturis, agulhas e suturas. Há outros que engolem seu tempo por meio de químicos. Há os que meditam e os que usam filtros solares. Há uns tantos que imitam Dorian Gray nos salões das redes sociais.

Eu resolvi caminhar com o tempo. Não com o tempo vadio dos homens e suas batalhas sem fim. Não com o tempo da estética e suas vulgaridades hedonistas. Não com o tempo que se foi ou o tempo que virá, ilusões metafísicas para contar as horas.

Meu tempo é o agora. Tempo das rugas que são riscos das minhas memórias ao longo da vida. Vida que é hoje. Neste momento em que, como o tempo, minha caneta também rasga as nervuras do papel que ora escrevo. Tempo das palavras que se emaranham em tessituras de versos
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soltos e textos amarrados.

Tempo de existir. Existir na ternura, num abraço de amigos, num beijo de amores, nos suores dos amantes. Existir no outro, no que me causa amparo, no que ri comigo, no que me escuta entre um trago e outro.

Tempo de existir. Existir nas minhas faltas. Existir nos meus vazios.

Tempo de criar.

Tempo de bem fazer. Tempo de imaginação. Tempo de consertar coisas quebradas e machucar os dedos. Tempo de não fazer. De dormir sem fim e de existir no ócio. Tempo de conhecer um lugar exótico e detestar aquela comida que todos elogiaram.

Meu tempo é o agora. Sou esse jogo de palavras soltas que tomam sentido quando combinadas. Meu tempo não passa pelo ter. Meu tempo é a possibilidade de ser.

Perdi-me entre palavras como os átomos se perdem na imensidão dos espaços vazios entre eles.

Meu tempo é o mago, a roda da fortuna, a estrela.

Meu tempo é o sou.

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