Me sinto esquisito; muitos me acham esquisitíssimo, simplesmente porque reajo. Reajo feliz e perguntando; reajo quando algo não fecha,...

Esquisito de ofício

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Me sinto esquisito; muitos me acham esquisitíssimo, simplesmente porque reajo. Reajo feliz e perguntando; reajo quando algo não fecha, não bate no meu juízo, nem a pau. Procuro lógica, busco um denominador comum para um sentimento que me atinge quando querem que eu seja de outro planeta.

Em espanhol, "exquisito" é requintado. Coisa diferente, inusitada, com bom gosto, preciosa.

No Brasil, com S, no Nordeste, na Paraíba, "esquisito" virou rótulo para quem incomoda. Para quem pergunta antes de assinar, quem não aceita o absurdo da hipocrisia cínica e cega.

Meu esquisito acende quando tentam me fazer de idiota. A sociedade pede silêncio, que a gente engula os erros sem olhar do outro lado. Às vezes, penso que empatia é coisa do outro mundo.

Dias atrás, fraturei o calcanhar. Recebi uma bota ortopédica. Em dez dias, ela quebrou no ponto fraco do projeto. Acabamento ruim. Estrutura descartável, que não deveria significar "inútil para recuperação". Mas a bota não imobilizava, não protegia.

Na minha esquisitice de "pentelho", questionador, fui pedir para trocar. Na clínica, o atendente avisou que a diretoria havia determinado que trocaria "desta vez". Argumentou que o motivo fora o mau uso. Retruquei: mau uso de um produto que não permite correr nem caminhar rápido; só permite mancar até o banheiro.

No Brasil, a culpa sempre pousa no paciente, no consumidor ou no cidadão.

O cidadão leva multa porque a prefeitura precisa arrecadar para campanha política de reeleição, com uma empresa amiga cobrando e fazendo caixa dois, como laranja. Paga conta que não chegou, paga por aviso que não recebeu. Tudo invertido. Tudo esquisito.

Eu reclamo. Tento colocar cada coisa no seu lugar. As pessoas não enxergam e exclamam pela minha cegueira. Preferem chamar o outro de chato, complicado ou demente.

Lembro de um mandado judicial executado na porta errada e amplamente divulgado nas redes sociais. O endereço era o da vizinha. Derrubaram o portão, deram um tapa na cara do cidadão e da sua mulher porque reclamaram da invasão às três horas da manhã.

Queriam mostrar autoridade para o ilícito, ainda por cima. Bateram primeiro. Tentaram algemar.

A família pediu, sob coação:

— Olha o que estão fazendo. Leiam a intimação. Mostrem a ordem de busca.

Só então viram o engano. Ficou por isso mesmo. O casal saiu desmoralizado diante dos filhos e dos vizinhos. Viraram suspeitos porque a polícia errou a porta. E a polícia não educa. Acha que todos têm o mesmo nível de compreensão e educação dela. Delegado, tenente, corporação: supõem que o outro pense igual, aceite calado e assine rápido.

Sou esquisito. Serei enquanto defender meu direito e reconhecer o do outro. Enquanto praticar empatia. Enquanto exigir que o outro se veja no meu lugar. Assim, a esquisitice diminui.

Porque esquisita mesmo é a cena absurda em que vive o país. A polarização virou piada de mau gosto. Tudo é possível. Um ministro do STF acumula papéis de vítima, acusador e executor. Outro ministro livra empresas desonestas em troca de quantos trocados? Basta rever os perdões dos criminosos e das empresas da Lava Jato? Nada mudou, só trocaram os abutres do império.

A sociedade nivela por baixo. Transforma a mediocridade em regra. Quem pensa atrapalha; quem exige qualidade é chato; quem pede respeito é rebelde. O projeto é claro: quanto mais raso, mais fácil controlar. Ministros do STF alegam vícios processuais para amealhar trocos para escritórios parceiros.

Nivelar por baixo é baratear a bota e culpar o pé.

O esquisito, nesse jogo, é quem acredita que produto deve funcionar. Que serviço deve ser prestado. Que autoridade deve ser honesta e prestar contas à sociedade. É quem lê antes de assinar. Quem devolve a bota e não pede desculpas.

Ser esquisito dói. Dói ver a engrenagem girar contra você. Ver o atendente repetir o script do patrão, o policial agir com força bruta sem admitir o direito do outro. Ver o político voltar de quatro em quatro anos e repetir o slogan de que fez isso e aquilo, mas só amealhou. Ver ministros e juízes vendendo sentenças às corporações sem nada acontecer. Ver um juiz ganhar uma fortuna em salários e dizer que não é bem remunerado.

Todos estão esperando sua submissão. Não repito submissão; questiono, faço perguntas, solicito: "Mostre onde está escrito". Repito: "Isso não está certo". Se eu parar, eles ganham. Eles me apagarão do espelho.

A mediocridade é cultivada. Ver a cara de pau dos desonestos e aceitar a hipocrisia estabelecida como se fosse normal está se tornando regra.

A escola decora em vez de ensinar a pensar. A notícia vira manchete sem contexto. O debate vira rótulo sem argumento. "PeTralhas" e "Bolzolóides" substituem nome, história e projeto, polarizando tudo e correndo atrás dos próprios rabos sujos.

Eu falo, com o pé engessado, da bota quebrada. Escarro ao ver a cena da porta arrombada, do outro que não foi respeitado. Falar é o mínimo que ainda nos resta, ainda que seja triste espernear.

Quero uma bota que segure o pé corretamente. Quero ver uma intimação com o endereço verificado. Multa com motivo real.

Talvez o esquisito seja o último padrão. A lembrança de que produto bom dura mais que dez dias. De que autoridade explica antes de bater. De que democracia escuta antes de decidir. E de que juiz é isento e não vende sentença nem protege bandidos ou banqueiros.

Se isso é esquisito, quero ser para sempre.

Imagine que um ex-governador, o "Excrotinho", investigado e acusado de corrupção, com processos na Justiça, venha, cinicamente, pedir votos para se eleger e obter imunidade. E tenha a cara de pau de dizer que foi perseguido, que todos são idiotas e que ele é puro.

Tenham santa paciência com tamanho cinismo e com os eleitores que votarão nesse salafrário. Coisas realmente de "Paraíbas".

Nivelar por baixo é projeto de longo prazo. Começa na bota barata, termina na lei torta. Começa na porta arrombada, termina na consciência corrompida e no político ladrão que não é punido.

Com o que roubou, esse político corrupto compra a Justiça, pois sabe que tudo é perdoado com o dinheiro roubado, que repassa para comprar juízes e ministros.

A gente se acostuma com o absurdo pequeno, e o grande entra sem bater. Veja o que está acontecendo com o caso do Banco Master: para absolver e livrar ministros do STF, supostamente envolvidos, um ministro parceiro quer desmoralizar o ministro que tenta ser sério e investigar até o fim, doa em quem doer.

Resisto na esquisitice, perguntando. Resisto devolvendo a bota, pedindo a leitura do mandado judicial e que analisem o projeto da bota. Resisto lembrando que o cidadão não pode votar em políticos corruptos ou que tenham processos por roubo ao erário em aberto nas cortes judiciais.

Sou o cliente maltratado do Estado. O cidadão que é dono da sua consciência, que cobra pelo produto com defeito, do político corrupto e do juiz que compactua com bandidos.

Se me chamarem de chato, agradeço. Chato não impede o desastre, mas pode e deve alertar. Se me chamarem de esquisito, sorrio. Em espanhol, é um sabor diferenciado. Prefiro um sabor com requinte à repetição amarga da corrupção reproduzida pelos mesmos.

No fim, a sociedade quer todos iguais por baixo. Quietos por medo. Conformados com migalhas. Eu quero ser diferente, pois, enquanto houver um esquisito perguntando, haverá uma fresta de luz.

Sigo aqui. Esquisito. De pé manco, coluna reta. Perguntando. Cobrando. Esperando. Nivelar por baixo só vence se aceitarmos o chão. Recuso o chão. Prefiro a mesa, o diálogo e o que é direito.

Se isso é ser esquisito, que sejamos muitos. Que a esquisitice vire maioria. Que o Brasil entenda que "esquisito" pode ser elogio, sinônimo de quem recusa a mediocridade como destino. Ser esquisito, no Brasil de hoje, é o último ato de lucidez.

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