Foi no final de 1958, quando concluí a primeira série do curso primário, que recebi de minha professora, Emília Rachid Meira, dois o...

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Foi no final de 1958, quando concluí a primeira série do curso primário, que recebi de minha professora, Emília Rachid Meira, dois opúsculos, dois livrinhos. Um se chamava “Mamãe Coelha” e um outro tinha como título “A Horta do Juquinha”.

Trabalhei com Dr. Lucas Suassuna, irmão do imenso escritor Ariano Suassuna, na Assessoria Jurídica da Universidade Federal da Paraíba (...

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Trabalhei com Dr. Lucas Suassuna, irmão do imenso escritor Ariano Suassuna, na Assessoria Jurídica da Universidade Federal da Paraíba (departamento extinto, há tempo). Ele nos considerava colegas, no mesmo nível dele, nosso chefe. E nós, eu, Luiz Graciano Cabral, de saudosa memória, éramos aprendizes, recém- saídos do forno do Curso de Ciências Jurídicas e Sociais (era o nome oficial e pomposo do Curso de Direito da velha Faculdade, cujo prédio histórico ficava na Praça João Pessoa).

É um dia normal de abril, o céu está com algumas nuvens, mas a temperatura segue abafada e qualquer rasgo de vento que bate vindo do le...

É um dia normal de abril, o céu está com algumas nuvens, mas a temperatura segue abafada e qualquer rasgo de vento que bate vindo do leste é como mãos macias acariciando cabelos, rosto, o corpo pensativo e caminhante. A música suave ecoa na mente como em ondas que se aproximam e se afastam ao ritmo da maré dos pensamentos.

Quando Nabor Vilar me deu a notícia do falecimento da irmã mais nova de Ariano Suassuna, desliguei o telefone com o pensamento voltad...

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Quando Nabor Vilar me deu a notícia do falecimento da irmã mais nova de Ariano Suassuna, desliguei o telefone com o pensamento voltado às turbulências do tempo do nascimento de Germana Suassuna, quando a Paraíba estava revestida de ódio e desavenças entre agentes políticos, uma onda que se espalhou pelas famílias, sem escolha de cor ou credo.

“Devido a sua aproximação com Ariano, achei por bem avisar da passagem de Germana”, assim se expressou o amigo que carrega nas veias o calor de Taperoá.

Nascer numa cidade pequena e ser mulher, há mais de cinco décadas, era por si só um desafio. Existiam códigos escritos que estabelecia...

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Nascer numa cidade pequena e ser mulher, há mais de cinco décadas, era por si só um desafio. Existiam códigos escritos que estabeleciam limites dignos do medievo (a legislação vigente então, por exemplo, rezava que no prazo de dez dias após o matrimônio, o marido podia pedir anulação de casamento, sob o argumento de que desconhecia o fato de sua mulher não ser virgem. Isso era considerado “erro essencial sobre a pessoa do outro cônjuge”, até 2001) e códigos informais, morais, sociais, que também definiam as fêmeas em relação à sua comunidade.

Ontem o tempo enfureceu no brejo. Chuva torrencial, relâmpagos clareavam o céu, água descia em cachoeiras pelas ladeiras acidentadas. V...

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Ontem o tempo enfureceu no brejo. Chuva torrencial, relâmpagos clareavam o céu, água descia em cachoeiras pelas ladeiras acidentadas. Visibilidade prejudicada, limpadores no máximo, atenção e frustração... O céu com suas nuvens azul-arroxeadas prometia mais água. O programa de participar da Vigília Pascal foi suspenso. Impossível seguir em frente. O neto pequeno, entusiasmado com a aventura, perguntou:

A memória afetiva, que está enraizada em um passado e se manifesta na beleza da simplicidade, também é constituída de pertencimento. Ge...

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A memória afetiva, que está enraizada em um passado e se manifesta na beleza da simplicidade, também é constituída de pertencimento. Geralmente uma boa lembrança faz bem à sensibilidade. Esse processo torna o ambiente mais agradável e produz respeito na convivência humana. Considerando isso, o afeto humaniza o indivíduo a adaptar-se às transformações da sociedade, bem como a reconstruir os seus projetos de vida. Diante disso, o exercício de empatia ajuda a colocar-se com compaixão no lugar do outro, isto é, de quem vive ou viveu a própria história.

Qual a melhor imagem para a vida? Alguns costumam compará-la a uma viagem, ou melhor, a uma travessia no deserto com início, meio e f...

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Qual a melhor imagem para a vida? Alguns costumam compará-la a uma viagem, ou melhor, a uma travessia no deserto com início, meio e fim. Essa imagem é boa, mas muito resumida... Outros, em vez do deserto, preferem o oceano; dizem que estamos todos “no mesmo barco”.

O barco pode ser comum, mas se esquecem de dizer que nem todos viajam da mesma forma. Enquanto uns se banqueteiam no convés, outros suam nos porões... É verdade que o barco corre o risco de naufragar e, se isso ocorrer, todos morrerão – mas, enquanto não ocorre, uns gozam e outros trabalham. E trabalham justamente para os outros gozarem, por isso às vezes desejam secretamente que o barco afunde.

As redes sociais podem cimentar muitos empoderados de diversas origens ao mesmo tempo. Basta que seus atos se expressem com tamanho vul...

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As redes sociais podem cimentar muitos empoderados de diversas origens ao mesmo tempo. Basta que seus atos se expressem com tamanho vulto que ultrapassem o número de seguidores, vidrados em suas estripulias digitais.

Alguns têm interesse em algo como "ficar no topo" ou "entrar para a história", através de um ato frequente ou quem sabe extremo, como o fez Heróstrato em 21 de julho de 356 a.C.

Aos poucos estão trocando o piso das calçadas de Vitória; novas normas para tornar mais seguro o dia a dia dos pedestres. Podem achar ...

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Aos poucos estão trocando o piso das calçadas de Vitória; novas normas para tornar mais seguro o dia a dia dos pedestres.

Podem achar estranho, mas não me atraem calçadas regulares. Os buracos, as irregularidades e os desníveis me servem como camuflagem do relógio do tempo, como um sinal de que mantenho momentos de distanciamento, de contemplação, de ausência.

    FOLHA AO VENTO Sinto-me como folha ao vento, Folha amarelecida pelo tempo, Que ousou brincar de primavera Em pleno out...

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FOLHA AO VENTO
Sinto-me como folha ao vento, Folha amarelecida pelo tempo, Que ousou brincar de primavera Em pleno outono da existência. E o vento me leva Ao sabor da sua vontade, E me deixo guiar, Por sonhos e saudade. Sou folha ao vento, Procurando uma brisa favorável, Que me guie para campos floridos, Para noites estreladas. Sou folha que busca o viço Que quem sabe caindo em fértil coração, Sem posse, sem ilusão,

Os intelectuais normalmente não andam junto de Deus. Compreende-se. É a força da razão, da racionalidade, do ver-para-crer. É como se...

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Os intelectuais normalmente não andam junto de Deus. Compreende-se. É a força da razão, da racionalidade, do ver-para-crer. É como se a inteligência fosse incompatível com a fé, com a crença no sobrenatural, na divindade. É a força da matéria sobre o espírito, da física sobre a metafísica, da imanência sobre a transcendência, do objetivo sobre o subjetivo, do substantivo sobre o adjetivo. Dá para se ver, só por estas poucas linhas, como a questão é ampla e complexa. E o homem vai, ao longo da história, caminhando entre essas antíteses, uns mais seguros, outros, não.

Logo que o juiz se assentar, tudo o que está oculto, aparecerá: nada ficará impune. O que eu, pobrezinho, poderei dizer? Mozart , Requ...

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Logo que o juiz se assentar, tudo o que está oculto, aparecerá: nada ficará impune. O que eu, pobrezinho, poderei dizer?
Mozart, Requiem em ré menor (K. 626). Tuba Mirum.

“Quando o anjo da morte lhe cobrir com seu sudário, sua vida não terá sentido se você não tiver feito algum bem na terra". Esta nota — que o pintor francês William-Adolphe Bouguereau anexou ao esboço de sua pintura Egalité devant la mort (Igualdade perante a morte) em 1848 – foi o primeiro pensamento que me ocorreu quando comecei a elaborar meu testamento esta semana.

Todos os sábados eu leio as crônicas do engenheiro Carlos Pereira de Carvalho, de quem sou leitor assíduo. Assim que recebo o meu ex...

Todos os sábados eu leio as crônicas do engenheiro Carlos Pereira de Carvalho, de quem sou leitor assíduo.

Assim que recebo o meu exemplar, o primeiro caderno que pego é o de Cultura. Lá na segunda página me deleito com os deliciosos passeios no passado em nossa cidade, promovidos por Carlos Pereira.

Geralmente ele escreve sobre o seu bairro de meninice e adolescência, Jaguaribe. Mesmo considerando a diferença de idade dele para mim, naquele tempo os anos passavam lentamente, e a vida nos bairros de João Pessoa, inclusive no Tambiá que eu morava, eram muito parecidas. O fato é que o seu tempo parecia-se muito com o meu tempo, mesmo anos depois, com pequenas diferenças.

Juca era uma dessas figuras ímpares, que surgem em grandes intervalos de tempo, como os cometas, era uma rara unanimidade, em nosso m...

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Juca era uma dessas figuras ímpares, que surgem em grandes intervalos de tempo, como os cometas, era uma rara unanimidade, em nosso meio intelectual e cultural. Não quero crer que houvesse alguém que não gostasse de Juca.

Sempre gentil, educado,  cordato, sempre calado, do pouco falar e do muito fazer,  Juca nos acolhia com o sorriso, de boca e olhos, como era o seu habitual. Não era de rir, mas o sorriso nos conquistava, por estar ali a prova indelével e inquestionável do acolhimento do amigo.

Acordei de madrugada com a notícia da passagem de Juca Pontes . Tive um choque na hora e não acreditei, saindo a perguntar a um monte ...

juca pontes poesia paraibana
Acordei de madrugada com a notícia da passagem de Juca Pontes. Tive um choque na hora e não acreditei, saindo a perguntar a um monte de gente.

Juca era um amigo muito bom, de todos que o conhecia. Nunca o vi falar mal de ninguém e ajudava quem podia. Era um dos nossos melhores poetas.

E também um dos melhores editores de livros que conheci.