Sempre colecionei histórias sobrenaturais. Não por aquela curiosidade de quem passa a noite procurando fantasma para ter assunto no café da manhã, mas porque algumas histórias, quando escutadas com o coração desarmado, ajudam a conservar uma coisa que anda muito maltratada neste mundo: a esperança.
O vento que passa pelas árvores facilita a comunicação entre elas. O farfalhar das folhas embaladas pelo vento permite os cantos no coro das árvores; suas falas se interligam na língua das folhas. A Natureza é a grande mestra de tudo que somos, sentimos, pensamos, sonhamos e realizamos.
“Uma geração passa, outra fica no seu lugar, desde o tempo dos antepassados.
Os deuses que viveram outrora repousam nas suas pirâmides, assim como os bem-aventurados, enterrados (...).
Construíram casas, mas o seu local desapareceu. O que foi feito delas? (...) As suas paredes esfacelaram-se. Desapareceram como se nunca tivessem existido.
Ninguém volta do lugar (onde se acham) para contar como estão, para dizer o que precisam, para serenar o nosso coração até irmos para onde eles foram.”
“O Canto de um Harpista”, tumba de Intef, XI Dinastia
As ruas desta cidade já foram mais curtas quando andávamos a pé. O desembargador Osias Gomes, advogado dos mais solicitados, secretário de Estado, não via enfado em lombar a pé de sua casa, um daqueles chalés de quatro águas no alto da Almirante Barroso, até ao tribunal ou ao antigo convento dos jesuítas, quando secretário do Interior e Justiça.
Impressões de leitura de:
Crônicas, ensaios do escritor Francisco Gil Messias Editora Ideia
Logo que li o título das crônicas de Gil Messias, me veio à lembrança um livro de contos de Virginia Woolf, A arte da brevidade, achando que um de seus contos possuía o mesmo título. Na verdade, intitula-se A marca na parede. Em inglês: The Mark on the Wall. Os títulos se assemelham, há um parentesco entre eles. Todo leitor faz esse tipo de ilações; os livros se comunicam de uma forma ou de outra, consciente ou inconscientemente.
Pássaro cativo
teu canto é um chamado
para a liberdade. Neide Medeiros. Relicário
Livros de pequenos formatos sempre me atraíram. O menorzinho que tenho mede (2cm x 2.5cm). Foi adquirido em uma Feira de Livros em Barcelona no dia 23 de abril, não me recordo o ano. Traz o título de Sant Jordi. Nesta data, comemora-se o Dia Mundial do Livro e do Direito do Autor. A cidade de Barcelona fica em festa, as pessoas saem para as ruas, compram livros e flores e presenteiam para os amigos, namoradas(os). É romântico dar livros acompanhados de flores. Tenho uma amiga que costuma presentear livros na companhia de uma garrafa de vinho no período natalino. É um presente também bem-vindo.
O Sertão Educa não é apenas um livro sobre o sertão; é um livro escrito a partir do sertão. Essa distinção é fundamental para compreender a força estética e intelectual da obra de Gilmar Leite Ferreira. Nascido da sua pesquisa de doutorado e posteriormente transformado em livro, o trabalho propõe uma reflexão singular: o sertão não é um espaço de carência ou atraso, mas uma instância pedagógica capaz de formar sensibilidades, valores e modos de existir.
No que diz respeito à terra dos Ciclopes, objeto deste ensaio, a tradição aponta, como localização mais provável, a Sicília, a chamada Ilha Trinácria, por causa dos seus três promontórios – o Peloro, a nordeste; o Lilibeu, a oeste; e o Paquino, a sudeste, formando um triângulo. Na narrativa homérica, não se nomeia a Ilha dos Ciclopes, de modo a se imaginar uma
possível localização. Além dessa grande ilha não nomeada, Odisseus faz referência a uma ilhota, onde ele fundeou o grosso de sua frota (Canto IX, versos 116-117; 136-151).
Na minha juventude, era comum a gente se apaixonar por algum artista famoso. Isso fazia parte da vida e era um acontecimento especial. Nossos ídolos eram como super-heróis: míticos e inatingíveis. Restava-nos sonhar com a possibilidade de conhecê-los pessoalmente, um dia.
IGARAKUÊ significa “canoa virada”. Era assim que os povos nativos reconheciam e nomeavam o peixe-boi quando ele subia para respirar. Mamífero aquático, o Trichechus manatus expunha o dorso arredondado sobre a água e, por um instante, seu lombo lembrava o casco de uma canoa emborcada. O nome nasceu de uma observação precisa e, ao mesmo tempo, imagética: subir, respirar e desaparecer novamente.
Não, eu não tinha perdido para sempre, como supunha, nem emprestado sem retorno o “Zélins, Flamengo até morrer”, livro contendo crônicas esportivas de José Lins do Rego selecionadas por Edilberto Coutinho. Encontrei-o, com o coração em festa, no fundo da grande caixa de papelão esquecida num quartinho da casa antiga onde hoje mora o mais velho dos meus três filhos. Ali, ainda jaziam outros livros e uns 150 recortes de matérias minhas no “Jornal do Commercio”, do Recife,
Não será novidade a sensação de estranheza que acomete boa parte da Humanidade terrestre nesse período de ocaso expiatório-provacional e de alvorecer de uma Nova Era de regeneração.
A obra não se entrega à leitura passiva, tampouco se acomoda à linearidade do discurso tradicional. Seu projeto poético parece nascer justamente da recusa ao conforto, da negação de qualquer estabilidade semântica. Aqui, a linguagem não funciona como ponte: ela é abismo.
A indignação que surge ao perceber o abismo entre o cidadão comum e o poder público é tão antiga quanto a própria civilização. Gastar energia, tempo e afeto defendendo figuras que sequer sabem o nosso nome é uma das maiores ilusões da vida moderna.
Aqui, nessas latitudes menores, que revelam nossa proximidade com aquela linha que divide o Hemisfério em duas partes, não é possível distinguirmos as quatro estações que aprendemos nas aulas do colégio ou que lemos nos alfarrábios de geografia. Aqui são só duas as estações: a das águas e a do Sol. Nesse primeiro domingo de setembro, recebemos as últimas chuvas da temporada das águas; lavaram meu quintal, aquietaram minha alma.
Reflexões éticas sobre a prudência, o arbítrio e a integridade da consciência
Era uma daquelas noites em que a conversa escapa do controle e vira algo maior. Estávamos na varanda, tínhamos vinho, petiscos e um longo tempo para conversar. O charuto ainda estava apagado, enrolado entre os dedos, esperando o momento certo. Foi quando a porta se abriu pela última vez e já estávamos todos prontos para nossa confraria de todo mês. Agora era dar início ao ritual, pois bons papos sempre começam com um certo ritual. Não havia pressa, não precisávamos chegar ou correr, pois já estávamos agora. Era só dar força às memórias e aos temas, sempre sobre algo que presenciamos durante o tempo de nossa ausência de convívio.