E a passagem do ano foi na intimidade do meu canto. Com pernil, lentilha, romãs — que adoro pela cor e textura — e espumante. Assi...

Banho de Mar

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E a passagem do ano foi na intimidade do meu canto. Com pernil, lentilha, romãs — que adoro pela cor e textura — e espumante. Assistindo, desde cedo, aos fogos ao redor do mundo. Gosto desse dia e de ver o calendário rodando mundo afora. Como no Natal, já fui invadida por angústias dessa festa também. Tinha problemas com o álcool em família, e essa apreensão só deixa todo mundo cabisbaixo.

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Praia do Bessa, João Pessoa-PB ▪️ Foto: Ana Adelaide Peixoto
Desenvolvi algumas estratégias para me proteger e não ficar mais triste na virada do ano. Hoje olho para meu horizonte, visto branco e foco alhures. Consegui ficar de boa vida afora. Depois, fomos à beira-mar daqui de casa, pertinho, e o astral é lindo. Muita gente com suas famílias, banquinhos, a farofa, as bebidas, pulando ondas, noite quase de lua cheia, e o mar soberano fazendo a alegria de todos. À meia-noite, para tudo — ou a ilusão do instante plasmado: os coqueiros testemunhando a beleza da noite, as pessoas se beijando, tirando fotos e registrando o momento da confraternização. Fizemos parecido. E tin-tin 2026. Venha! Se achegue!

Depois dessa noite festiva, nada melhor do que ficar na lombra no primeiro dia do ano, comendo os restos do pernil, com arroz de lentilha, para, depois desse acordar tarde e olhar no infinito do ano que se inicia, tomar um banho de mar à tarde.

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Ana Adelaide Peixoto em Baía Formosa, Rio Grande do Norte, anos 80 ▪️ Foto: acervo da autora
Na minha infância e adolescência, tomar banho de mar à tarde era uma experiência transcendental. Sem ouvir nem o CD de Caetano ainda. Com o corpo dourado do sol da manhã toda, pegávamos uma boia imensa e lá íamos nós enfrentar as ondas da maré de janeiro e fevereiro. Caldos e mais caldos. A beira-mar lotada dos veranistas para esse deleite. Por vezes, saíamos do mar já à noitinha, com aquela água morninha, mas tilintando de frio. Na hora de dormir, batia a canseira e aquela sensação gostosa de sono e quietude, nos alguns veraneios que tive a felicidade de viver. Praia Formosa, Poço, Baía Formosa, Pipa foram alguns desses lugares. Mas Formosa e o Poço moram nas minhas mais queridas memórias de praia: pele morena, sargaço, peixe frito, namoro, assustado, Areia Vermelha (num tempo em que só pescador ia), serenata e banho de mar em todas as horas.

Já há algum tempo, com o crescimento de João Pessoa, novos hábitos e calor extremo, as pessoas frequentam a praia o dia todo. E quando cheguei à beira-mar do Bessa, a maré estava alta e muita gente ainda da manhã, ou chegando como eu.
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Foto: Everton Pereira da Silva
Criança jogando bola, casais se beijando no mar, outros bebericando embaixo do guarda-sol, rodas e rodas de amigos resenhando o Ano Novo, o mar verde transparente — e lá fui eu. Uma felicidade nem um pouco clandestina. Horizonte me convidando para minhas preces, enviar mensagens para os queridos que tiveram as suas cinzas nesses mares adentro, e mergulhos infindáveis. Uma festa! Janeiro chegou! E com ele, as férias, o início do ano, o calor grande e a esperança no ano que começa. Gosto deste mês. Aquariana da gema que sou, já estou celebrando os meus dias.

Sai do mar já com os dedos engelhados (aprendi agora a grafia dessa palavra), mas refrescada até mais tarde. Cheguei em casa, passei um café forte, não sem antes saborear o meu sapoti gelado e delicioso. Agora só compro de dúzia. E os lanches estão mais doces. E senti o gosto da alegria desse primeiro dia do ano. Felicidade é isso; sabemos que é um estalo, e lá vem a vida e os compromissos, perrengues, perdas e danos. Mas depois desse banho de sal natural vespertino, talvez eu esteja pronta, semipronta, vai, para abraçar 2026.

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GD'Art
Viva janeiro! E o mar! Essa imensidão azul e verde que me banha a alma.

Mas tudo isso foi para um lugar cinza, quando no dia seguinte ouvimos o que parecia irreal: os Estados Unidos haviam invadido a Venezuela e sequestrado o ditador Maduro e a sua esposa. Que os anjos nos protejam!

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  1. Lendo o texto de Ana Adelaide, fui transportado para os " assustados" , como eram chamados os bailes improvisados da praia Formosa . Ana Adelaide era uma das mais cobiçadas e desejadas moças desses encontros . Dançar com Ana, era privilégio para poucos, ainda bem que tinha um chapéu ( esqueci o nome) que permitia ao portador escolher a moça/menina com a qual desejava dançar e sentir as batidas do coração. Era um momentos sublime . " Velhos tempos , belos dias".
    Alex Maia

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  2. Esse é o tipo de texto que me agrada: uma prosa que traz a poesia como um pano de fundo ao cotidiano observado.. Sonhos, dificuldades, esperança, pequenas coisas, humanidade… O mar… Ah esse mar é sempre poético, sempre nos traz muitas lembranças. Parabéns pelo belo texto Ana. Ótimo ano com muitas outras belas experimentações. Samuel Moraes

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