A filosofia não mora nas bibliotecas, mora na distância entre aquilo que ouvimos e o que conseguimos suportar entender. Talvez por ...

Vivendo em nós

filosofia leitura
A filosofia não mora nas bibliotecas, mora na distância entre aquilo que ouvimos e o que conseguimos suportar entender. Talvez por isso o parto para chegar ao conhecimento, seja tão demorado.

Havia dias em que eu me sentia grávido da filosofia. Esse foi um termo que conheci numa noite de aula desse mesmo tema, quando meu professor filósofo, bebendo um bom vinho,
filosofia leitura
Arte: C. Spitzweg, 1850
desferiu essa pérola. Não é exatamente um estudo, nem uma busca organizada por respostas. É mais um estado, em como carregar dentro de si uma gestação interminável de perguntas que nunca nascem completamente.

Há ideias que passam décadas dentro da gente, crescendo lentamente como raízes subterrâneas. Algumas jamais verão a luz. Outras surgirão deformadas pelo tempo, pelas dores, pelos livros, pelas pessoas erradas e pelos espertos em tudo. Homens velozes que opinam antes mesmo de pensar, como se o pensamento fosse apenas um acessório da vaidade.

Vivemos uma época curiosa. O conhecimento repousa próximo das mãos e dos olhos. Basta um toque, uma tela, uma frase mal pronunciada por alguém excessivamente seguro de si. Ainda assim, nunca estivemos tão perdidos entre aparências quase duvidosas.

O excesso de respostas matou parte da beleza das perguntas. E talvez seja justamente por isso que continuo grávido da filosofia,
filosofia leitura
Arte: Carl Spitzweg, 1860
porque ainda desconfio das certezas rápidas.

Às vezes, no meio dessa confusão de vozes, lembro da poesia da própria poesia, não dos versos impressos, mas daquele instante invisível em que uma palavra toca o espírito antes de fazer sentido.

Ela desfila pelos romances como uma mulher antiga atravessando um salão iluminado por velas. E então, compreendo por que sempre volto a Dostoiévski que não escrevia histórias, escavava abismos humanos com a delicadeza brutal de quem sabe que toda alma é contraditória. Existe um êxtase estranho nisso tudo, um estado quase febril.

Penso na pequena dançarina de Edgar Degas, suspensa na eternidade de uma tela, como se o movimento pudesse sobreviver ao próprio corpo. Há algo profundamente filosófico naquela menina imóvel e dançante ao mesmo tempo. Ela parece saber aquilo que nós esquecemos, que viver talvez seja apenas sustentar o equilíbrio entre a graça e a queda.

filosofia leitura
Arte: Edgar Degas, 1878, Musée d'Orsay, Paris
E então chega Ludwig Van Beethoven.

O primeiro movimento da Nona Sinfonia não começa, ele desperta. Surge como uma tempestade que lentamente toma posse do mundo. Sempre que o ouço, sinto que a existência inteira respira diferente. Há músicas que não entram pelos ouvidos, entram pela memória de algo que nunca vivemos. Beethoven tinha essa crueldade sublime de arrancar do homem emoções que ele próprio desconhecia possuir.

O maestro venezuelano Gustavo Dudamel rege a Orquestra Sinfônica Simón Bolívar, da Venezuela, na interpretação do primeiro movimento da Sinfonia nº 9 de Ludwig van Beethoven, apresentada no Palau de la Música Catalana, em Barcelona, em março de 2017. ▪ YT @gustavodudamel
Talvez seja isso estar grávido da filosofia, caminhar permanentemente à beira de um nascimento interior que nunca se conclui. Carregar perguntas como quem carrega universos silenciosos. Desconfiar dos sábios apressados. Permitir que a arte, a música e a literatura nos desorganizem por dentro.

Porque algumas reflexões não desejam respostas. Desejam apenas continuar vivendo em nós.

COMENTÁRIOS

leia também

Postagens mais visitadas