“Que quem sua trova fez não em França, mas em Fez aprendeu tal invenção.” Garcia de Resende , in Trovas a Lopo de Valdevesso / Canc...

Arte e ecumenismo d'Al-Andalus

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“Que quem sua trova fez não em França, mas em Fez aprendeu tal invenção.” Garcia de Resende, in Trovas a Lopo de Valdevesso / Cancioneiro Geral; 1516
A partir do século XIII, o Ocidente começou a sentir admiração pela cultura islâmica embora se se mantivesse relativamente cético em relação à religião. Por via desse interesse e sensibilidade, as obras da filosofia grega voltaram a ser conhecidas na Europa, sobretudo depois da tradução dos escritos árabes para latim.

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Pedro, o Venerável (c. 1092–1156), abade de Cluny, destacou-se pelo diálogo intelectual com o mundo islâmico e pelo patrocínio da primeira tradução latina do Alcorão. ▪ Arte: L. Billardet, Museum Boijmans Van Beuningen, Roterdão, Países Baixos.
Embora o estado muçulmano da Península Ibérica começasse a enfraquecer a partir do século XI, ainda assim atraía muitos homens cultos da Europa cristã, que ali se dirigiam para estudar e aprender. Muitos sábios europeus, incluindo: o monge John of Gorze (reinado de Oto I da Germânia, 936-973) enviado, em 953, para a Espanha Muçulmana, como Embaixador, a Ordem de Cluny; Pedro, o Venerável; o filósofo, matemático, tradutor e astrólogo escocês Michael Scot; o filósofo francês Abelard de Chester; o auvernhês Gerbert d’Aurillac, que se tornaria Papa no ano de 999, sob o nome de Silvestre II; o matemático e astrónomo italiano Plato de Tivoli; Hermann da Caríntia; Gerardo de Cremona; o filósofo e tradutor toledano Domingo Gundisalvo; João Hispano; Marcos de Toledo; Rufino de Aquileia; Simón de Génova; Arnaldo de Vilanova, entre outros. Os sábios afluíam às universidades com o intuito de estudar as ciências, traduzindo alguns dos seus manuscritos para latim, hebraico e outras línguas. Rogério II e Frederico II, da Sicília, foram ambos seduzidos pela filosofia de vida muçulmana e reinaram rodeados de funcionários e de intelectuais muçulmanos.

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Rogério II (1095–1154): fundador do Reino da Sicília, destacou-se pela corte multicultural de Palermo, onde conviviam tradições latina, grega e islâmica. ▪ Mosaico da Chiesa della Martorana, Palermo, Itália ▪ Fonte: Wikimedia
Em Espanha, a cidade de Toledo e a região da Catalunha foram arautos de uma curiosa simbiose de hegemonia, onde os fiéis das três religiões monoteístas conviveram em harmonia e colaboraram numa obra comum. Os judeus desempenharam um papel basilar na transmissão da cultura. O escritor, astrónomo, teólogo e médico judeu aragonês Moshé Sefardi – que pela sua conversão em 1106 se tornou Pedro Alfonso (Petrus Alfonsi) – recolheu máximas e contos árabes e indianos que inspirariam, a posteriori,
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Pedro Alfonso (c. 1062–1140), em litogravura medieval: médico e escritor da Península Ibérica, conhecido por difundir conhecimentos científicos e filosóficos árabes no Ocidente cristão. ▪ Rijksmuseum, Amsterdão ▪ Fonte: Wikimedia
um bom número de autores cristãos, como Geoffrey Chaucer ou Giovanni Boccaccio. O rabi Abraham bar Hiyya, astrónomo, matemático e filósofo, difundiu, a partir de Barcelona, o pensamento muçulmano, traduzindo várias obras para o hebreu e o latim, ministrando o ensino da ciência árabe em vários países da Europa.

A cultura muçulmana da Península Ibérica tinha uma identidade e personalidade próprias. Os seus literatos e poetas revelavam fluidez e expressividade e a sua poesia lírica transmitia profunda beleza e amor à natureza. De um modo geral os seus artistas eram requintados e o seu espírito livre, quase rebelde.

A biblioteca de Córdoba terá tido no seu acervo cerca de 400.000 volumes e o respetivo catálogo. A simples enumeração dos títulos das obras e dos nomes dos seus autores preenchia quarenta e quatro registos de cinquenta folhas cada um, reunindo as obras capitais e mais raras da ciência antiga. Além disso, proliferavam por todo o Al-Andalus as bibliotecas privadas. Não admira, pois, que tenham surgido cientistas, pensadores e teólogos de craveira universal. Pensemos, a título de exemplo, em Ibn Rushd (Averrróis) na Filosofia, ou em Maimónides (Ibn Maymun), na Medicina.

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Ilustração medieval de estudiosos reunidos em uma biblioteca do mundo islâmico medieval. ▪ Fonte: Wikimedia
Mas não foram apenas as cidades de Córdoba, Granada ou Sevilha os faróis do “Al-Andalus”. A mais modesta escala, é certo, Alcácer, Beja, Coimbra, Évora, Faro, Lisboa, Mértola, Santarém e Loulé, em Portugal, conheceram enorme animação cultural e figuras do maior valor espiritual (de que são disso exemplo Ibn Qasi, Al-Mu’tamid e Ibn ‘Ammar).

Sugestão de leitura: Al-Mu'tamid, poeta do Destino.
No campo da Arquitetura, o reino nasrí (ou nazarí), na Espanha árabe, foi o único que sobreviveu à “reconquista” cristã no século XIII, estendendo-se desde o Mediterrâneo ao sul da Península, até Granada (o centro magno do ocidente islâmico entre os séculos XIII e XIV) e algumas cidades a norte. A arte nasrí teve duas manifestações importantes: a militar e a palaciana-doméstica que alcançou a máxima expressão no ínclito conjunto de Alhambra (em Granada). Nessa construção, pode observar-se a solidez e a opulência dos recintos militares junto à sensualidade dos interiores da residência palaciana que culminou com o processo
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Salão decorado com arabescos, mosaicos geométricos e arcos rendilhados da arquitetura nasrí da Alhambra, antigo palácio dos sultões muçulmanos de Granada, Espanha. ▪ Foto: S. Been
artístico da Espanha muçulmana: linha simples, decoração bastante elaborada, fusão com a natureza.

A Madinat al-Hamra (“a vermelha”), Alhambra, foi a cidade áulica (palaciana) do império nasrí, construída na colina al-Sabika, com todos os elementos de uma ordenação urbana do Islão da Idade Média - palácios reais, palácios aristocráticos, mesquita, oratórios, banhos, cemitério real, bairro dos servidores etc. Admiravelmente situada nos primeiros contrafortes da serra Nevada, Alhambra impressiona, antes de mais, do lado de fora, pela robustez e sobriedade das muralhas e das altas torres ameiadas. Dez palácios muçulmanos, dois deles justapostos - o palácio de Comares e o palácio dos Leões - formam o traçado do Palácio Real. A sua decoração, rendilhada, suportada por finas colunetas de mármores, assinala o triunfo do gesso esculpido e da cerâmica. O conjunto produz um efeito de excepcional requinte. O famoso autor muçulmano Al-Jatib (século XIV) descreve que “as hortas contíguas à régia mansão de Alhambra produziam tantos cereais e hortaliças, que só um príncipe poderia pagar os seus preços com ricos tesouros”.

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Vista da Alhambra ao entardecer: complexo fortificado e palaciano dos soberanos nasridas de Granada, tendo ao fundo as montanhas da Serra Nevada. ▪ Foto: J. García
Fundado em 936 d. C. (ano 325 da Hégira), o palácio de Madinat al-Zahra ou Medina Azahara é outro paradigma de beleza e identidade da cultura árabe-muçulmana no “Al-Andalus”. Construído a cinco quilómetros de Córdoba, numa encosta virada a sul, no sopé da “Montanha da Noiva”, este complexo terá levado quarenta anos a ser edificado, vinte e cinco no reinado de ‘Abd Al-Rahman Al-Nasir e quinze do seu sucessor, Al-Hakam II.

Medina Azahara: sítio arqueológico da cidade-palácio construída no século X pelo califa omíada Abd Al-Rahman (Abderramão III), nos arredores de Córdoba, na Espanha islâmica medieval. O complexo simboliza o auge político, artístico e arquitetônico do Califado de Córdoba.
Um autor muçulmano escreveu que, ao morrer, uma concubina de Al-Nasir deixou uma grande fortuna destinada ao resgate dos muçulmanos cativos em mãos cristãs. Dado que não havia nenhum muçulmano prisioneiro dos cristãos a quem pagar, sobrou muito dinheiro do legado. E coube a outra escrava, Zahra, aconselhar o califa a erigir o novo palácio. O seu amante achou tão boa a ideia da sua favorita que, quando acabou de ser construído, mandou colocar uma estátua da rapariga por cima da porta principal. A ideia agradou, obviamente, à jovem que, no entanto, se lamentou ao califa que a sua figura marmórea não se destacava suficientemente sobre a montanha escura. Al-Nasir ordenou então que, por todo o monte, fossem supridas as árvores de folhas pardas e plantadas figueiras prateadas e amendoeiras para que estas, ao florescer, cobrissem de branco toda a ladeira.
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