O Ateliê itinerante de Pedro Américo: no ateliê de Cogniet (1859-1864)
Pedro Américo chegou a Paris com uma bolsa anual de 4.800 francos franceses. Ele se inscreveu na École des Beaux Arts em 6 de outubro de 1859 e entrou, como era costume então, em um ateliê, o de Léon Cogniet, conforme desejo de seu mestre Manuel de Araújo Porto Alegre e foi morar junto da Beaux Arts na Rua Bonaparte n. 1314. Apresentado por Léon Cogniet à Escola de Belas Artes como de praxe, Américo foi recebido como aluno daquela instituição em 1859.École des Beaux-Arts, no século XIX, tradicional escola superior de artes de Paris, centro do ensino acadêmico francês e referência internacional em pintura, escultura e arquitetura. ▪ Arte: C. Meyer Hilburghausen, 1850, via Wikimedia
A maioria dos biógrafos de Pedro Américo lhe dá como mestres, durante seu período de estudos parisienses, os pintores Ingres, Léon Cogniet, Hippolyte Flandrin e Horace Vernet. Horace Vernet não deu aulas na instituição
Léon Cogniet (1794–1880), pintor e professor francês, reconhecido pela formação de numerosos artistas no século XIX. ▪ Arte: Charles Champmartin, 1840, Musée Carnavalet, Paris
Um ateliê bem sucedido, quase uma empresa, com cerca de cento e nove alunos, contando com o auxílio de vários monitores e tendo como mascote o festejado Meissonier, funcionava como escola paralela à Beaux Arts onde o mestre também ensinava. Foi nesse espaço de trabalho que Pedro Américo recebeu parte da sua formação parisiense.
Interior do ateliê de Léon Cogniet em 1831 ▪ Arte:
Catherine-Caroline Cogniet, 1831 ▪ Musée des Beaux-Arts d'Orléans
O Ateliê itinerante de Pedro Américo: um ateliê na mala de viagem (1865 -1869)
Pedro Américo deixou a França e chegou ao Rio de Janeiro em 1864 para participar do concurso público da Academia Imperial de Belas Artes. Venceu o concurso, foi nomeado e, logo em seguida, foi autorizado a retornar à Europa. Américo não dispunha de qualquer recurso para enfrentar esse novo período europeu: estava sem bolsa ou salário. Seu espírito romântico, seu gosto pelas aventuras e sua vontade de terminar seus estudos científicos o motivaram a pintar vários retratos e, com o dinheiro obtido, tomar o primeiro barco para a França, onde chegou a fins de 1865.Nu masculino ▪ Arte: Pedro Américo, 1865 ▪ Museu Dom João VI, Rio de Janeiro
São Jerônimo ▪ Arte: Pedro Américo, 1867 ▪ Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro
Essa temporada foi marcada por vários contratempos de ordem financeira. Em Paris, ele passou por sérias dificuldades e mesmo a fome não lhe foi estranha. Em uma carta para o seu amigo de infância Daniel Pedro Ferro Cardoso, alguns anos mais tarde, Américo lamenta não ter tido tempo de visitá-lo em Paris, na época, e relembra aqueles tempos duros. Suas aventuras continuaram e, segundo Cardoso de Oliveira, ele recebeu e aceitou convite de um capitão de nome Dubosc para viajar para a Argélia que, na época, era a Meca dos pintores românticos franceses atraídos por cenários e temas exóticos. Foi admitido na expedição como desenhista e viajou pelo interior do país registrando cenas, hábitos e fauna. Voltou alguns meses mais tarde para Paris com várias aquarelas sobre esses temas que conseguiu comercializar.
Edifício da Universidade Livre de Bruxelas no Século XIX, demolido em 1931. ▪ Fonte: Wikimedia
A licença da Academia terminou definitivamente em 6 de novembro de 1868, porém ele continuou na Europa. Finalmente, em 8 de junho de 1869, o artista comunicou à academia brasileira que já estava de partida para o Brasil e que havia casado com Carlota, filha de seu antigo mestre Manuel de Araújo Porto-Alegre, então cônsul do Brasil em Portugal.
O Ateliê itinerante de Pedro Américo: a Academia Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro (1869-1874)
De volta ao Brasil, Pedro Américo era um professor da Academia Imperial de Belas Artes, selecionado por concurso dois anos antes, mas sem ainda ter exercido as funções do seu cargo uma vez que logo depois do referido concurso o artista retornou à Europa em período de licença. Autor de uma pequena produção pictórica executada principalmente na França ele era, na época, um completo desconhecido do grande público de seu país e, mesmo, de grande parte do meio mais erudito brasileiro.Edifício da Academia Imperial de Belas Artes, no Rio de Janeiro, demolido em 1939. Imagem: Marc Ferrez (adapt.), 1890s, via Wikimedia
Louis Philippe Gaston d'Orléans (Conde d'Eu, 1842—1922), marido da princesa Isabel e integrante da família imperial brasileira. ▪ Foto: Alberto Henschel, c. 1882 ▪ Wikimedia
Americo iniciou a tela em 1870 e utilizou como ateliê para a sua confecção o espaço da Academia Imperial de Belas Artes, onde seus amigos e a própria família imperial o visitou para ver o esboço do trabalho. Em paralelo, o artista iniciou uma atividade intensa na imprensa brasileira em uma hábil estratégia para divulgar seu quadro ainda em projeto. Graças à doação de suas netas, Virgínia e Carlota Cardoso de Oliveira, ao Museu de Petrópolis de uma coleção de recortes de jornais sobre o quadro A Batalha de Campo Grande, com anotações pessoais do artista, nós pudemos seguir essa campanha concebida, desenvolvida, executada e bem sucedida através dos veículos de comunicação da época.
Américo conseguiu vender seu quadro ao governo. De acordo com suas próprias anotações, o Estado comprou seu trabalho em 27 de janeiro de 1872. O artista recebeu por ele 13 contos de réis. A tela ainda não havia sido exposta o que só aconteceu dois meses após sua aquisição na XXII Exposição Geral da Academia Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro inaugurada em 6 de março de 1872.
Batalha de Campo Grande ▪ Arte: Pedro Américo, 1871 ▪ Museu Imperial, Petrópolis



















