É oportuno fazer memória do Encontro dos Bispos do Nordeste, ocorrido em Campina Grande, entre os dias 21 e 26 de maio de 1954, quando foram discutidos temas que impactaram a paisagem política, econômica e social do País e, notadamente, do Nordeste. Idealizado por Dom Helder Câmara, então bispo-auxiliar do Rio de Janeiro, o evento foi abraçado pela Igreja da Paraíba.
A reunião dos bispos foi um grito de alerta da Igreja Católica, porque apontou transformações espirituais, sociais e econômicas para melhorar a condição de vida das pessoas residentes em uma região onde as desigualdades sociais eram gritantes.
Missa Pontifical celebrada por Dom Otávio Barbosa Aguiar, bispo de Campina Grande (1954) ▪️ Fonte: Revista O Cruzeiro
Reunindo bispos da Região, estudiosos dos mais diferentes campos da pesquisa científica e agentes públicos, o evento teve a participação do presidente da República e de parlamentares. Estes ouviram vozes de religiosos e de estudiosos preocupados com a situação regional.
Os debates duraram uma semana. Ao final, ninguém poderia descrer do êxito dos trabalhos apresentados, dos estudos elaborados e das medidas aprovadas. Tudo apontava para diferentes direções, visando à recuperação econômica e social do Nordeste.
Os bispos afirmaram:
“A Igreja não tem propriamente soluções técnicas ou econômicas a apresentar, como especificamente suas, aos problemas de ordem econômica e social. Ela não quer interferir no
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campo de ninguém. Tem seus limites no mundo e reconhece as fronteiras de outras sociedades, especialmente as do Estado, com seus direitos, seus deveres e sua missão”.
A colaboração às instituições de caráter temporal apontava apenas que, “por sua doutrina, ensina aos cristãos que, mesmo em um mundo que perdeu sua unidade espiritual, é necessário existir cooperação entre os Poderes Temporais e Espirituais, tendo em vista o bem comum, o bem-estar do povo que constitui a grande família dos filhos de Deus”.
Ajuntadas as preocupações quanto aos problemas sociais e à conjuntura humana — homens sofrendo com a seca, o pauperismo e o baixo nível de vida —, os grupos de estudos apontaram ações para os campos econômico, social e espiritual, visando minimizar a alarmante situação que se arrastava há séculos.
Foi neste Encontro que ganhou força a germinação da CNBB, essa instituição basilar da Igreja no Brasil, que tem assumido firmes posições em favor do povo.
Dom Hélder Câmara ▪️ Revista O Cruzeiro
Ao fazer memória deste Encontro, recordamos os momentos posteriores em que a Igreja no Nordeste foi profética, orientou e esteve junto ao povo, a exemplo dos camponeses, apoiando suas reivindicações. Mesmo que, em parte, a Igreja tenha se tornado mais de louvação, com o surgimento cada vez maior de “pastores mediáticos”, sempre suscitou atitudes proféticas.
As ações contribuíram para amenizar a situação de penúria em grande parte do Nordeste. Surgiram sinais proféticos, apesar de a região continuar agonizando devido a outros males. Apoiando as propostas, o governo sinalizou com ações, a exemplo da criação da Sudene e de outros órgãos.
Cobrando mais verbas para o Nordeste, o plano constava de 22 ações que contemplavam as regiões com obras que trariam melhoria na qualidade de vida da população. “Sabe-se, sem maiores esforços, que os planos se estribam em fatos concretos”, dizia a nota.
Dom Hélder Câmara discursando na Missa Pontifical do Encontro de Bispos do Nordeste de Campina Grande (1954) ▪️ Revista O Cruzeiro
Ficou a certeza de que, todos unidos, buscando os mesmos objetivos, as soluções aparecem. Na conjugação de esforços bilaterais podem surgir bons frutos, tendo um plano de ação exequível e eficiente.
Muita coisa boa aconteceu depois daquele Encontro dos Bispos em Campina Grande. Buscando uma saída, a Igreja abriu-se ainda mais ao diálogo com a sociedade.
Aquelas vozes proféticas deixaram lições. Desde então, as cartas pastorais e pronunciamentos focaram a realidade do campo e das periferias urbanas. Muitas vozes se levantaram para denunciar a opressão dos “coronéis” das usinas e a ineficiência do poder público, que relegava os fustigados pela seca.
Baseados na doutrina social da Igreja, que foca na dignidade humana, os bispos percebiam que somente a partir de uma reforma do sistema de acesso à terra e do fortalecimento da economia seria possível trazer paz e dignidade às famílias agricultoras. O campo produzindo e a cidade industrializando: assim pensava Celso Furtado.
Duas figuras proféticas da Igreja patrocinaram avanços em favor dos excluídos e, por isso, foram perseguidas pelo regime militar: Dom Helder Câmara e Dom José Maria Pires.