Marta Eleonora: assim a conheci, na infância, no Colégio das Lourdinas. Ela não era para o meu bico. Sentava-se na primeira fila da classe e só tirava 10! E em matemática! Estava em outro patamar de aluna brilhante. Eu, humilhada, sentava-me no meio da sala e só tirava 5,0. Em matemática! Meu negócio era dançar nas festinhas, olhar os meninos na saída do colégio, paquerar nas matinês dos clubes da cidade e sonhar. Era uma aluna mediana, longe de ser brilhante.
Marta Pessoa ▪️ Facebook: M. Pessoa
Há alguns anos, nos reaproximamos. E, para minha surpresa, uma outra Marta me apareceu: falante, extrovertida, engraçada. E, junto com a minha turma do colégio, ficamos próximas de novo. Nessa nova onda de amizade, a conversa pairava sobre literatura, vida, viagens, relacionamentos, filhos crescidos, agora netos, cinema, etarismo, e Marta, como não veio ao mundo a passeio, logo passou correndo por mim, escrevendo crônicas, contos e romances lançados, elogiados e premiados. Eu, como uma boa tartaruga que sou, admirando-a e aplaudindo-a.
Ana Adelaide Peixoto, Dodora Diniz e Marta Pessoa (Marrocos, Abril 2026) ▪️ Acervo da autora
Marta Pessoa e Ana Adelaide Peixoto (Marrocos, Abril 2026) ▪️ Acervo da autora
A cabeça de Marta é um mapa. Um GPS. E, mesmo no meio das medinas e suas encruzilhadas para lá de sem saída, Marta se localizava. Assim como na vida. E queria ver as cegonhas, os rooftops, as portas sagradas, os batons artesanais e os regalos para as filhas e netos. Simples e desprendida. No meio das rezas, dos riads ou das estradas
Marta Pessoa e Ana Adelaide Peixoto (Marrocos, Abril 2026) ▪️ Acervo da autora
Só sinto não ter rompido a barreira da timidez e ter feito amizade com Marta no primário e no ginásio. Quem sabe minhas notas teriam sido melhores e teríamos dividido mais a vida. Mas tudo tem seu tempo e suas circunstâncias. Há alguns anos, tive a honra de apresentar o seu livro, *É tempo de cuidar – Eles envelhecem: e agora?* (Ed. Batel, 2017), num auditório lotado da Casa José Américo. Depois li *Zignau – Doze mulheres implacáveis e um homem em pânico* (Ed. Batel, 2020) e, mais recentemente, *Riacho Escuro* (Ed. Sete Autores, 2024). E tenho certeza de que em breve teremos mais livros e histórias, do sertão aos camelos!
Hoje somos amigas de novo, junto com mais algumas queridas desses anos inesquecíveis da infância e adolescência no Colégio das Lourdinas. Tempo tatuado nas nossas memórias e que guardamos com todo o afeto desse luxo chamado amizade.
Obrigada, Marta, por me proporcionar a vivência desse sonho juntas e acolegadas. Que venham outros mapas por aí!









