Marta Eleonora: assim a conheci, na infância, no Colégio das Lourdinas. Ela não era para o meu bico. Sentava-se na primeira fila da ...

Marta Pessoa – Uma amiga viajante

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Marta Eleonora: assim a conheci, na infância, no Colégio das Lourdinas. Ela não era para o meu bico. Sentava-se na primeira fila da classe e só tirava 10! E em matemática! Estava em outro patamar de aluna brilhante. Eu, humilhada, sentava-me no meio da sala e só tirava 5,0. Em matemática! Meu negócio era dançar nas festinhas, olhar os meninos na saída do colégio, paquerar nas matinês dos clubes da cidade e sonhar. Era uma aluna mediana, longe de ser brilhante.

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Marta Pessoa ▪️ Facebook: M. Pessoa
Os anos se passaram. E, mais tarde, descobri uma outra Marta. Uma mulher saltitante, igualmente brilhante à sua vida de menina e admirada pelas amigas. Já mulher, e com dilemas que dividíamos: casamento, filhos, trabalho, amizades e anseios por liberdade. Marta foi embora de João Pessoa. Ganhou o mundo e foi viver outras vidas, outros casamentos, filhos, viagens, e tornou-se uma profissional exigente da área de TI, que teve todo o sucesso e reconhecimento.

Há alguns anos, nos reaproximamos. E, para minha surpresa, uma outra Marta me apareceu: falante, extrovertida, engraçada. E, junto com a minha turma do colégio, ficamos próximas de novo. Nessa nova onda de amizade, a conversa pairava sobre literatura, vida, viagens, relacionamentos, filhos crescidos, agora netos, cinema, etarismo, e Marta, como não veio ao mundo a passeio, logo passou correndo por mim, escrevendo crônicas, contos e romances lançados, elogiados e premiados. Eu, como uma boa tartaruga que sou, admirando-a e aplaudindo-a.

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Ana Adelaide Peixoto, Dodora Diniz e Marta Pessoa (Marrocos, Abril 2026) ▪️ Acervo da autora
Pois recentemente fomos nós, e outras amigas, viajar para o Marrocos, como contei em crônica por aqui. Era um sonho meu viajar com Marta, pois, como viajante que ela é, conheceu o mundo a trabalho e, depois que se aposentou, dedica-se a fazer viagens que igualmente tenho nas minhas listas de desejo: meses na Provence, Itália, Dinamarca e Japão. E agora tive o privilégio de ter Marta como a minha agência, avião, tripulante, guia e amiga. Um exemplo de pessoa objetiva, proativa, prática, divertida, solidária e realizadora. Marta cuida. Cuida dos seus, de Nenên (uma pessoa da sua casa), das filhas, dos netos, das primas, das amigas — e cuidou de mim. Está sempre atenta ao seu redor. Tudo a ficar longe do meu caminhãozinho de novo, porque sou sonhadora, exagerada, subjetiva e pouco prática. Dividimos quarto por duas semanas, mas não sem antes ela nos receber no seu apartamento aconchegante, em Pinheiros, SP, junto com seu marido, Alexandre.

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Marta Pessoa e Ana Adelaide Peixoto (Marrocos, Abril 2026) ▪️ Acervo da autora
Marta é um trator quando se trata de organizar as coisas. E, na vida, fala muito. É eloquente. Mas a sua fala é a de uma historiadora e antropóloga (uma das suas filhas realizou essa sua aptidão). Marta montou o roteiro, encontrou uma agência que nos proporcionou uma viagem de rainhas e sabia de tudo ao chegarmos a cada canto do Marrocos: das rotas, dos templos, dos impérios, e dava um banho de curiosidades e respostas ao nosso guia berbere. Mas Marta também é feita de outro material. Não gosta de academia, mas não tem uma dor no joelho sequer. Andava por todas as ruelas, frugal nas comidas, mas insistiu no hambúrguer de camelo. E, à noite, nós invadíamos a madrugada trocando ideias. Ela a me contar da sua vida sertaneja e de um linguajar da Paraíba profunda, e eu a contar-lhe das minhas quebradas. Muitas risadas, mesmo sem beber álcool algum. Além de Marta não gostar de drink, no Marrocos eram só chás.

A cabeça de Marta é um mapa. Um GPS. E, mesmo no meio das medinas e suas encruzilhadas para lá de sem saída, Marta se localizava. Assim como na vida. E queria ver as cegonhas, os rooftops, as portas sagradas, os batons artesanais e os regalos para as filhas e netos. Simples e desprendida. No meio das rezas, dos riads ou das estradas
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Marta Pessoa e Ana Adelaide Peixoto (Marrocos, Abril 2026) ▪️ Acervo da autora
tortuosas do Atlas, Marta não esquecia dos seus. Destemida também quando, na 4x4, aventurávamo-nos pelas dunas vermelhas do Saara. Logo nós duas engatamos memes diversos e ríamos de nós mesmas. Isso tínhamos em comum. Mas não só.

Só sinto não ter rompido a barreira da timidez e ter feito amizade com Marta no primário e no ginásio. Quem sabe minhas notas teriam sido melhores e teríamos dividido mais a vida. Mas tudo tem seu tempo e suas circunstâncias. Há alguns anos, tive a honra de apresentar o seu livro, *É tempo de cuidar – Eles envelhecem: e agora?* (Ed. Batel, 2017), num auditório lotado da Casa José Américo. Depois li *Zignau – Doze mulheres implacáveis e um homem em pânico* (Ed. Batel, 2020) e, mais recentemente, *Riacho Escuro* (Ed. Sete Autores, 2024). E tenho certeza de que em breve teremos mais livros e histórias, do sertão aos camelos!

Hoje somos amigas de novo, junto com mais algumas queridas desses anos inesquecíveis da infância e adolescência no Colégio das Lourdinas. Tempo tatuado nas nossas memórias e que guardamos com todo o afeto desse luxo chamado amizade.

Obrigada, Marta, por me proporcionar a vivência desse sonho juntas e acolegadas. Que venham outros mapas por aí!

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