Há desenhos que a gente vê na infância e simplesmente acha engraçados. Depois, muitos anos mais tarde, descobre que alguns deles eram grandes lições disfarçadas de entretenimento.
Há livros que nascem de uma história monumental; outros, de uma necessidade íntima de compreender o mundo. Bazar de Sonhos, de Germano Romero, pertence a essa segunda categoria. Publicado em 2011, o livro reúne crônicas e outros textos que transitam entre a observação cotidiana, a reflexão social, o lirismo e a contemplação da natureza.
“Uma geração passa, outra fica no seu lugar, desde o tempo dos antepassados.
Os deuses que viveram outrora repousam nas suas pirâmides, assim como os bem-aventurados, enterrados (...).
Construíram casas, mas o seu local desapareceu. O que foi feito delas? (...) As suas paredes esfacelaram-se. Desapareceram como se nunca tivessem existido.
Ninguém volta do lugar (onde se acham) para contar como estão, para dizer o que precisam, para serenar o nosso coração até irmos para onde eles foram.”
“O Canto de um Harpista”, tumba de Intef, XI Dinastia
No que diz respeito à terra dos Ciclopes, objeto deste ensaio, a tradição aponta, como localização mais provável, a Sicília, a chamada Ilha Trinácria, por causa dos seus três promontórios – o Peloro, a nordeste; o Lilibeu, a oeste; e o Paquino, a sudeste, formando um triângulo. Na narrativa homérica, não se nomeia a Ilha dos Ciclopes, de modo a se imaginar uma
possível localização. Além dessa grande ilha não nomeada, Odisseus faz referência a uma ilhota, onde ele fundeou o grosso de sua frota (Canto IX, versos 116-117; 136-151).
Fim de tarde. Meus pés pisam as folhas úmidas enquanto caminho na mata fechada. Desvio das urtigas, esmago saúvas e sinto o cheiro da baunilha no ar abafado. Piso com cuidado, atenta aos ruídos. Ela me espreita. Ouço seu respirar leve e quase posso ver o sangue que lhe pulsa nas têmporas, inundado de urgências. Ela está aqui, eu sei. Ergo a cabeça e farejo o ar. Atrás! Volto a cabeça para o filho que caminha a um passo de mim e tento avisá-lo. Tarde demais. O bote é certeiro, exato. Mal vejo uns olhos amarelos e manchas no pelo, e a musculatura poderosa já desaba sobre o pequeno, sem tempo para um grito. As presas se cravam no pescoço fino e a fera desaparece com ele em meio às folhas grandes como sombrinhas. Um uirapuru pia ao longe.
Não foi um crime… Foi um colapso da humanidade dentro de um homem só. Quando um pai mata os próprios filhos, mata um e o outro, para ferir a mãe, não estamos mais falando de ódio. Estamos falando de falência moral absoluta. De um lugar tão escuro que já não existe linguagem que explique. Só silêncio constrangido. Porque filhos não são extensão de vingança. Filhos são território neutro. Sagrado até para quem não acredita em nada. Aquele homem não quis matar duas crianças. Ele quis assassinar emocionalmente uma mulher… usando o que ela tinha de mais vivo. Isso não é sobre separação. Não é sobre disputa. Não é sobre guarda ou ciúme. É sobre posse. Sobre a incapacidade de aceitar que o outro é livre.
Jornalista Flavio Ferraz (Instagram)
A definição de feminicídio vicário é: “uma forma extrema de violência de gênero em que o agressor mata filhos, enteados(as), ou outras pessoas próximas à mulher (como animais de estimação) com o objetivo específico de causar sofrimento, dor insuportável e punição à mãe, agindo como um ‘feminicídio indireto’”. É uma ferramenta de controle, poder e vingança utilizada após o fim do relacionamento ou para subjugar a mulher, atingindo-a “onde mais dói”.
GD'Art
Ao comentar o caso em Itumbiara, o Instituto Maria da Penha, organização não governamental (ONG) que atua no enfrentamento à violência doméstica e familiar contra mulheres, confirmou que casos de violência vicária não são exceção. “É uma forma de violência de gênero que atinge mulheres por meio de crianças e adolescentes. Quando filhos e filhas são usados como instrumentos de controle, punição ou chantagem” (Agência Brasil).
Tout travaille à tout – Tudo trabalha para tudo – é o que afirma Victor Hugo, em Os miseráveis (Parte IV, Livro 3, Capítulo 3, p. 701), em um capítulo, cujo título em latim, “Foliis ac frondibus”, recupera um verso de Lucrécio, do Livro V, verso 971, do poema De rerum natura.
É esse o título do mais novo livro da escritora tão jovem e tão consagrada, Aline Bei. Já havia me encantado com os seus dois romances anteriores: O peso do pássaro morto e Pequena coreografia do adeus. A capa já tem uma aquarela de duas flores vermelhas e um título que dança. Dança? Mas esse não era o título do segundo livro? Sim. Tudo se interliga de uma certa maneira. Essa coleção. Essa delicadeza. Essas ausências.
O que difere Aldo Lopes de outros escritores contemporâneos, mesmo os que se consagraram recentemente no cenário nacional, não é só a forma, mas maneira de usá-la para expressar o conteúdo de sua narrativa. Aldo Lopes sabe que mais importante do que aquilo que se conta é a maneira como se conta.
As coleiras com espinhos, consideradas um dos primeiros dispositivos de proteção para cães, tiveram sua origem na Grécia Antiga. Embora hoje possam parecer rudimentares, desempenharam um papel crucial na segurança dos cães da época, especialmente contra uma de suas maiores ameaças: os lobos.
Hoje trago para vocês um pouco da minha leitura sobre o novo livro do escritor Helder Moura - A INSANA LUCIDEZ DO SER - uma fábula
O livro inicia, já na dedicatória, com uma provocação sobre a insanidade da lucidez.
Há pouco mais de 20 anos, nós, povo brasileiro, éramos conhecidos por nossa bonomia, por sermos um povo cordato e alegre, independente de quaisquer questões. Éramos um povo brincalhão que exaltava a mulata, que fazíamos piada com o gordo, com o magro, com o míope, com o gay e com o machão. Porém as piadas, as troças não eram para machucar, apenas para tornar a vida divertida.
É a lei da natureza. O leão come o antílope, o lobo come a ovelha, a raposa come a lebre, e assim por diante. É a lei da selva, mas também dos oceanos, onde os peixes maiores comem os menores e estes, por sua vez, se impõem aos seres que lhes são subalternos. Por ser natural, essa lei é isenta de considerações morais e religiosas, ou seja, antecede e ultrapassa o mundo da cultura, existindo simplesmente como algo que “é”, o que significa, filosoficamente falando, que pertence à esfera do “ser” e não à do “dever-ser”.
Desde o início de 2020, a humanidade tem sido sobressaltada pela disseminação de um vírus letal, em escala planetária, que só no Brasil
matou mais de meio milhão de pessoas. É difícil imaginar quem não tenha
sido afetado pela radicalidade de tal acontecimento. As estatísticas apontam
novas formas de “psicopatologia da vida cotidiana” e a imprensa reporta os
sintomas da neurose: sensações de medo, aflição, desespero. Irrupção de
afetos tristes que, até novembro de 2021, ainda não se dissiparam.
Segundo os vernaculistas, a palavra “fiança” significa o direito que se tem através do valor pecuniário depositado por um acusado de crimes menores, a fim de que se possa responder a um processo em liberdade. Em outras palavras mais simplificadas: significa ficar livre mediante pagamento em dinheiro, o que é, para os lúcidos, uma leviandade notória ou um privilégio discriminador, não somente no Brasil, mas na maioria dos países desse mundo tresloucado.
Inspirado no belo texto de Germano Romero, "Poema de fogo e luz", sobre a sinfonia de Scriabin, resolvi escrever um pouco sobre Prometeu. Considero o mito de Prometeu um dos mais importantes da cultura grega. Há outros que rivalizam com ele, como o de Édipo, que envolve o parricídio e o incesto.
O politicamente correto chegou às cantigas infantis. A partir de agora devemos ter muito cuidado com o que cantamos para as crianças. Uma simples canção de ninar pode embutir um significado nocivo, capaz não só de amedrontá-las como também de marcar-lhes negativamente a personalidade.