Música cheia de vida, planta cheia de vida, cidade cheia de vida. Cheia de vida, expressão cheia de tudo. De brilho, de viço, de ânimo, de...

marcia steinbach kaplan jose alberto kaplan
Música cheia de vida, planta cheia de vida, cidade cheia de vida. Cheia de vida, expressão cheia de tudo. De brilho, de viço, de ânimo, de cor, e humor. De boa conversa, contagiante, enérgica, vibrante. Márcia Kaplan era assim. Cheia de vida. De muita vida.

(por Odilon Ribeiro Coutinho) Creio que há uma relação misteriosa entre o individuo e a paisagem. Quando andei pelas praderias da Mancha, di...


(por Odilon Ribeiro Coutinho)

Creio que há uma relação misteriosa entre o individuo e a paisagem. Quando andei pelas praderias da Mancha, diante das planícies que fugiam, céleres, de minha vista até se perderem no horizonte, demarcadas apenas por uma pequena árvore ou simples arbusto, situados a longo intervalo um do outro, apoderou-se de mim uma sensação de espaço intemporal e o imenso vazio que se fez sentir, comunicou-me a impressão de que o espírito ia, aos poucos se desgarrando da terra

Então, compreendi o delírio do fidalgo manchego Alonso Quijano, que não é outro senão D. Quixote. Na Úmbria aconteceu a mesma coisa. A paisagem desse pedaço da terra italiana está impregnada de uma humildade tão doce, que o coração se enternece a ponto de se depurar de todo orgulho.

As suaves colinas que ondulam na Úmbria têm um ar de tanta mansidão, que logo se imagina que São Francisco de Assis se deixou tocar pela doçura e humildade daqueles arredondados montes, marcados nostalgicamente pela presença, no seu macio cimo, de um cipreste solitário.

Curiosamente, D. Quixote foi o primeiro herói literário que conquistou a imaginação de Ângela Bezerra de Castro. Os sonhos e a impávida galhardia com que o heróico manchego defendeu os ideais da Cavalaria, parecem encontrar no espírito da escritora paraibana, semelhanças e afinidades que se revelam na sua admirável vocação para a resistência e na sua irredutível integridade.

E São Francisco, que Chesterton disse ser o único verdadeiro democrata que existiu até hoje, é o santo da paixão de Ângela, que o quer como companheiro em todos os recantos de sua casa, onde há uma dezena de imagens espalhadas por todas as dependências.

Detrás das muralhas de granito, na solidão de um refúgio que lhe oferecia a segurança de uma cidade, confinada, quase tão somente, à convivência do circulo familial, vigiada pela severidade do perfil de rochedos imemoriais, espreitada pelos olhos invisíveis de seres misteriosos que parecem cruzar os ares da Serra da Confusão, a escritora forrou seu ser moral com metais que não se enferrujam.

(Trecho do discurso do escritor Odilon Ribeiro Coutinho para recepção da Professora Ângela Bezerra de Castro à Academia Paraibana de Letras, em 1999)

(Linaldo Guedes) As coisas as coisas não surgem do mar a não ser na bahia de todos os cantos onde todos os afluentes deságuam negrumes salga...


(Linaldo Guedes)

As coisas

as coisas não surgem do mar
a não ser na bahia de todos os cantos
onde todos os afluentes
deságuam negrumes salgados

tambores em versos gregorianos
temperos no auriverde pendão do pelourinho

- e caetano me falando de outros santos que não rezavam agonias
- e das baianas com estranhas liturgias dentro das anáguas

oração na igreja do bonfim: as coisas só surgem se amar.

Lugares

gosto de estar em lugares que já li
- ser cúmplice das angústias e presepadas
de riobaldo, de quaderna, de macunaíma
(eles sabem mais de mim do que o terapeuta que nunca vou ter)
com eles, construí um pacto com o cramunhão
para ser o gênio da raça brasileira
mas, anti-herói que sou, não sai dos livros
e dos lugares que ainda serão lidos.

Ladainha

um oásis se constrói com desertos
perto
(ou)
longe
um oásis se constrói em desertos
perto
(e)
longe
um oásis se constrói
(e os desertos?).

(Do livro, ainda inédito, "Cabo Branco e outros lugares que não estão no mapa")

(Lustração: Pintura de Bruno Steinbach."Cabo Branco, visto da Praia do Seixas". Óleo/tela, 50x70 cm, dez 2006, João Pessoa, Paraíba, Brasil. Coleção: Marcelo Steinbach Silva (in memoriam)

Nem sei mais quando conheci Gonzaga. Faz tempo! Mas confesso que, só mais recentemente é que leio sua coluna com mais assiduidade. Sempre ...



Nem sei mais quando conheci Gonzaga. Faz tempo! Mas confesso que, só mais recentemente é que leio sua coluna com mais assiduidade. Sempre o encontro nos eventos literários. E também sabia que tinha conhecido meu pai, Romero, nos tempos de outrora.

Gosto do seu estilo de crônica (simples, sofisticada, única e poética), e assim como toda a torcida de todos os times, o seu talento. Confesso que, quase sempre não conheço as pessoas de quem fala nas crônicas, seus lugares queridos, Alagoa Nova, e tantos outros recantos da sua prodigiosa memória. Pouco importa. Para quem tem aquele saber, aquela facilidade poética das esquinas, seus amores pela cidade, pelos amigos, e pela vida, nem se precisa conhecer os atores. Um passeio pelas suas vírgulas, já basta.

Também já tive oportunidades de ouvi-lo falar – com maestria. Homem simples, direto, erudito, simpático, e que tenho no seu olhar, uma ternura à toda prova. Uma empatia que sinto. Amor à primeira vista. Com todo o respeito. Ele sempre solícito e sempre carinhoso com meus afagos, abraços e cordialidades.

Nos últimos tempos, por conta dos livros, eventos comuns, e encontros mais costumeiros, esses afagos e abraços sempre mais assíduos. E eu, de longe, aproveitando sua fala, seu humor, e seu sorriso de olhos fechados. Uma unanimidade esse Gonzaga! Que tem no nome, ritmos de outro mestre. Um ritmo que vislumbra em passos devagarzinho, através do seu corpo magro, bem vestido em cortes de linho azul claro, cabeleira vasta, e olhos negros, hoje com uma ligeira névoa de quem já viu, olhou, contemplou , um tanto da vida – Longing day and night! Eu diria em outra língua.

Pois semana passada, fui convidada por amigos, a ir almoçar com alguns, e dentre eles estaria Gonzaga , o Neguinho, como é carinhosamente apelidado pelos seus. Imagina, o luxo de, dividir uma galinha de capoeira, uma cervejinha, cachacinha, ou o que fosse, com esse moço dos olhos risonhos.

Foi uma tarde inteira com ele sentado à minha frente. A discorrer sobre as ladeiras e percalços de suas histórias maravilhosas. Causos. Piadas até. Sua singeleza (sim! Essa é uma palavra boa para adjetiva-lo) e boas risadas de alegria, fizeram meu coração pinotar feito criança com brinquedo novo.

Lá pelas tantas, como se a felicidade não bastasse, comecei a situá-lo em relação ao meu pai. Ele arregalou os olhos – aqueles que riem de espanto, e identificou direitinho o meu pai querido, e o seu lugar de trabalho na Praça Antenor Navarro. Lembrou do seu escritório, das visitas, da generosidade do meu pai, contou até alguns segredos dos dois , confianças, admirações mútuas. Gentil e surpreso, mostrou sua alegria em me descobrir nos teclados das Remingtons que meu pai vendia. Teclados esses através dos quais, escreve suas preciosidades, reconhecidas e aplaudias pela vida toda. E eu ali, com o olhar perdido no passado, ouvindo emocionada, esse elo de afeto!

Sou uma leitora anônima, assim como toda uma cidade, que lê entusiasmada , seus passeios públicos e mais íntimos; sobre suas perplexidades diante do Ponto de Cem Réis; seus pertencimentos da vida; suas alegrias/tristezas da existência.

Ah! Gonzaga! Arvoro-me à essa pequenina sobremesa, ao nosso mais que idílico almoço, que ainda teve direito à performance de João Batista de Brito e seu texto sobre O Anjo Azul e Marlene Dietrich, e gargalhadas com o pai de Brooke Shields! Aí é assunto para uma outra crônica.

Obrigada Gonzaga! Martinho Moreira Franco, João Batista Brito, Mariângela Wanderley, e Luiz Paiva. Voltei pra casa literalmente rodopiando feito bailarina, não sem antes ter te dado um grande abraço que máquina nenhuma conseguiria registrar. Essas coisas do instante! E do afeto!

Meu quintal mede poucos metros e é lindo. Dele eu enxergo o mundo. De um lado, vejo uma nesga do mar, do outro, vejo o entardecer colorido ...


Meu quintal mede poucos metros e é lindo. Dele eu enxergo o mundo. De um lado, vejo uma nesga do mar, do outro, vejo o entardecer colorido com todos os tons de laranja. No meu quintal cabe uma rede e pequenos vasos de plantas que cuido com o carinho de mãe zelosa. Às vezes, sou presenteada com flores e me sinto a pessoa mais privilegiada do mundo.

Tudo se resume em ter um olhar que saiba enxergar.

Olhar é o mais comprometido, descomprometido ato da nossa percepção.

Olhar é exercício de vida e entendimento. É captar na retina da memória e do coração o que nunca esquecemos: a emoção quando desvendamos o rosto do filho recém-nascido, o olhar de aconchego quando enxergamos reciprocidade nos olhos de alguém por quem estamos apaixonados e o mais dolorido olhar, cheio de pavor abissal, é quando enxergamos a vida se findando no olhar de quem amamos.

Olhar o tempo é sentir certa melancolia de quem sabe que a vida é passageira e por isto mesmo, bela. Olhar é um ato de humildade diante da eterna dívida de haver nascido em um mundo absurdo e detonado pelo caos, mas que ainda nos dá a oportunidade de enxergar e reverenciar uma natureza pródiga de céu azul, mares verdes e flores amarelas.


Cristina Lugão Porcaro é bacharel em artes plásticas, psico-pedagoga e escritora

(José Nunes) No livro “O Idiota”, uma das obras-primas da literatura universal escrita pelo russo Fiodor Dostoievski, encontra-se a frase qu...


(José Nunes)

No livro “O Idiota”, uma das obras-primas da literatura universal escrita pelo russo Fiodor Dostoievski, encontra-se a frase que remete à mediação da beleza como princípio para salvar o mundo. Os gregos apontavam nessa direção do belo como fundamental à união das pessoas num único sentido da vida, da mão estendida na mesma direção. Foi com esse sentimento que há dois mil anos Jesus, que viveu nas terras áridas da Galileia, propunha o ensinamento da fraternidade.

“A beleza salvará o mundo”, escreveu o autor russo acreditando que seria possível harmonizar os sentimentos humanos de partilha. Mais tarde, retornaria a esse mesmo tema no romance “Os irmãos Karamazov”, aprofundando a questão do relacionamento harmonioso entre as pessoas como forma de conquistar a paz.

Na história por ele narrada no livro “O Idiota”, um ateu questiona como o mundo seria salvo pela beleza, ao que o príncipe Mynski nada responde, no entanto, fica junto a um moço de 18 anos que agoniza no leito da morte, cheio de compaixão, silencioso até este expirar. Gesto de profunda beleza, de amor ao próximo no momento da extrema dor, provando que atitude dessa natureza ajudará a salvar o mundo.

O romancista russo achava que belo era não roubar a dignidade dos outros, ter um espírito dominador, consumista. Repetia que “seguramente não podemos viver sem pão, mas também é impossível existir sem beleza”.

Também quando lemos ou contemplamos uma obra de arte, seja uma pintura, um poema, uma fotografia, por exemplo, captamos o alimento para nossa alma e, abastecidos do belo, somos impulsionados a conduzir outras pessoas para vivenciar o mesmo sentimento e, lentamente, ajudando a formar a paisagem da harmonia entre nossos semelhantes.

Criei-me num sítio onde vivíamos no mesmo nível de pobreza, as famílias partilhavam-se na mesma dor, repartindo a nesga de mistura para deixar saboroso o prato com feijão e farinha. Na dor e na angústia estávamos juntos e chamávamos de “de belo gesto” quando alguém ajudava o desprovido de alimento, sobretudo da alimentação. A cuia com farinha, o punhado de açúcar, sal ou café trazia alívio à fome e expunha a beleza daquele gesto.

Reconheço quanta beleza nos gestos que nossos vizinhos protagonizaram quando a cacimba deixou de fornecer água, a lavoura não brotou, com dias em que a panela ficava vazia na trempe, salvando-nos da aflição do estômago vazio.

Jesus implantou na alma das pessoas que a generosidade dos gestos nos faz irmãos todos os povos, deixando a lição de que a beleza está acima do estético e que possui uma grandeza moral e religiosa. O belo está expresso quando não se litigia a Deus, mas quando se vence o mal.

O belo não está na formosura do corpo que atende ao apelo do marketing, mas nos gestos que transformam e moldam o relacionamento humano. A flor nasce sem desejar ser contemplada, mas paramos para olhar e admirá-la por menor que seja. A flor é bela porque já nasceu assim, e nos fascinamos quando a contemplamos.

(William Costa) Olho para as nove horas brancas e rosas que o sol acaba de abrir no meu jardim. Não sei por que, me vem à memória a frase fi...


(William Costa)

Olho para as nove horas brancas e rosas que o sol acaba de abrir no meu jardim. Não sei por que, me vem à memória a frase final do romance Nadja, de André Breton, que li, há muito tempo, salvo engano em um artigo ou epígrafe de livro do escritor W. J. Solha: “A beleza será convulsiva ou não será”

Não devo ter lido Nadja com muita atenção – aliás, o livro me foi emprestado pelo próprio Solha -, pois não me recordo da frase por associá-la ao romance do surrealista francês, mas pela citação do autor paulista, radicado na Paraíba, este sim, um dos leitores mais vorazes e de excepcional memória que conheço.

A beleza do mundo me encanta e assusta exatamente por ser fugaz. Efêmera como as nove horas dos meus jarros, que desabrocham no meio da manhã e murcham muito antes do Sol se pôr. Não se pode retê-las, e sim contemplá-las, deixando de lado a vontade de questionar os motivos de sua existência.

Acontece de, às vezes, sentirmos a sensação de que algo maravilhoso irá se revelar a respeito da natureza. Mas permanecemos em suspense, como se não nos fosse permitido romper, pela razão, os limites da intuição. A sensação agrada e desespera, e, também neste caso, o melhor é respirar e relaxar-

Em momentos como este aplaudo em silêncio o cineasta Richard Donner, que dirigiu o longa-metragem O feitiço de Áquila. No filme, o Bispo de Áquila (John Wood) transforma os amantes Isabeau (Michelle Pfeiffer) e Etienne Navarre (Rutger Hauer) em predadores, aprisionando-os em mundos paralelos.

Durante o dia Isabeau transforma-se em uma águia e, à noite, Etienne toma a forma de um lobo. Eles são apaixonados e tentam se tocar no tênue instante que separa a noite do dia, quando ambos voltam à forma humana. Mas não conseguem, sendo este o verdadeiro castigo imposto pelo bispo feiticeiro.

Podemos associar a felicidade à beleza e esta às flores, uma vez que todas são transitórias - como nossas próprias vidas, aliás. E se tudo é passageiro, a alegria também é um estado de espírito momentâneo, como todas as formas de beleza, sendo o seu oposto, ou seja, a tristeza, oriunda dos inevitáveis espinhos.

Na tentativa de ser feliz, exatamente pela certeza dos espinhos, procuro andar pelo mundo atento aos seus jardins, para flagrar o momento de suas flores. Um amigo que encontro é um desses instantes, assim como o verso do poema e o excerto de conto ou romance que, ao lê-los, me emociono.

Cada vez que o mundo me agride, por meio de atos ou palavras, não escondo as lágrimas. Que a terra consuma minhas mágoas, para que, neste húmus sem rancor, vingue a esperança de uma rosa sem espinho. E quando sou eu o agressor, sinto-me como um ladrão que roubou a flor de um jardim celestial.

(Thiago Andrade Macedo) Seu nome se confunde com a própria arte à qual se dedicou por toda a vida, desde muito pequeno. Há pouco mais de 330...


(Thiago Andrade Macedo)

Seu nome se confunde com a própria arte à qual se dedicou por toda a vida, desde muito pequeno. Há pouco mais de 330 anos, nasceu, um dos mais prolíficos e talvez o maior compositor da música ocidental: Johann Sebastian Bach. O número exato de suas obras é desconhecido, mas o catálogo BWV assinala mais de mil composições, entre elas inúmeras peças com vários movimentos e para extenso conjunto de executantes.

Além de ter sido um dos organistas mais talentosos da história da música (tinha dedos ágeis e velozes e uma habilidade incomum no uso dos pedais do instrumento), o alemão, nascido numa família luterana de longa tradição musical, também foi um mestre na arte da improvisação, o que seria, mutatis mutandis, o equivalente ao que hoje fazem os músicos de jazz. Como ninguém nunca escreveu improvisações, jamais saberemos como eram essas suas viagens alucinantes.

Bach foi bastante produtivo, e não só no terreno da música: teve vinte filhos (haja vitalidade!) – ao menos tomou conhecimento da existência desses. Entre os mais famosos, podemos citar Wilhelm Friedemann Bach, Carl Philip Emmanuel Bach e Johann Christian Bach, os quais também ajudavam o pai na cópia de suas composições musicais.

A vastidão da obra de Bach fica ainda mais evidente quando se sabe que possivelmente metade dela se perdeu ao longo do tempo. Produziu concertos, suítes, oratórios, cantatas, solos para cravo, órgão, flauta, cordas. Apesar de ser protestante, Bach compôs um pequeno número de missas latinas. Revelou-se um gênio na arte da fuga e do contraponto. A fuga era uma espécie de composição extremamente complexa, em geral escrita para quatro linhas ou vozes musicais. Cada melodia é semelhante às outras, mas só começa depois que uma outra já começou. O impressionante é que todas elas soavam bem juntas! Já o contraponto eram duas, três, quatro ou mais linhas melódicas tocadas a um só tempo, produzindo incríveis harmonias.

A música do gênio alemão é universal e vai além do Barroco, estilo musical que cultivou e do qual foi o nome mais importante. A lista de compositores notáveis ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX que demonstraram ter recebido sua influência é extensa: Mozart, Haydn, Beethoven, Brahms, Chopin, Liszt, Wagner, Mahler, Debussy, Ravel e nosso fabuloso Heitor Villa-Lobos (as Bachianas brasileiras são sublimes). Seu alcance foi tão poderoso que reverberou até mesmo na cultura popular: ele se tornou uma imagem icônica, chegando a ser incluído no rol dos santos da Igreja Luterana (sua data é comemorada no dia 28 de julho), tendo sido homenageado como compositor ilustre no calendário da Igreja Episcopal dos Estados Unidos.

O impacto de sua música não mais se restringe à música erudita: vários de seus formatos foram utilizados também na música pop, no rock progressivo e pesado e até mesmo no jazz, por nomes como Dave Brubeck. O melhor de tudo é que, a despeito de muitas de suas composições terem se perdido, um imenso número de obras-primas foi salvo, o que nos permite, até nossos dias, ouvir suas camadas de sons celestiais. A música de Bach, transcende, alimenta e nos põe em contato com as esferas superiores. Ela é a prova inconteste de que, em espírito, o homem não é só miséria.
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Nota: Link para o vídeo sobre a vida e obra do compositor à disposição no canal do arquiteto e bacharel em música, Germano Romero, produzido na Alemanha, em 2016: http://bit.ly/2XyS9Af

Para quem estranhou o título, gostaria de esclarecer alguns pontos, antes de iniciar a discussão sobre o assunto. De literatura entendo...

Para quem estranhou o título, gostaria de esclarecer alguns pontos, antes de iniciar a discussão sobre o assunto. De literatura entendo alguma coisa, devido à minha vivência de professor na área, já com três décadas de atuação. De psicografia, por outro lado, nada entendo, a não ser por alguns testemunhos que tenho visto e por algumas leituras que, ultimamente, ando fazendo. Leituras teóricas e leituras literárias. Aproveito também para esclarecer que o que passarei a discutir não pode e não deve ser confundido com proselitismo, pois não professo nenhuma religião, ainda que o Espiritismo me seja muito simpático. Mesmo que professasse alguma religião, aqui não seria o espaço para isto.

(Germano Romero) Quando o meu amado pai ficou subitamente sem poder andar, por causa de uma estenose lombar aguda, encontrávamo-nos em Tel-A...


(Germano Romero)

Quando o meu amado pai ficou subitamente sem poder andar, por causa de uma estenose lombar aguda, encontrávamo-nos em Tel-Aviv, numa viagem que ainda tinha pela frente três dias em Londres. Com 89 anos, e mesmo novinho em folha, o imprevisto nos preocupou.

Após o diagnóstico recebido no hospital israelita, fomos tranquilizados pelos médicos daqui, por telefone, de que não havia gravidade nem urgência. Que poderíamos seguir viagem. Mesmo porque, sentado ou deitado, nenhum incômodo ele sentia. Só não conseguia andar. Que coisa.

Esquecidos os problemas, chutamos a bola para a frente e tomamos o avião para Londres, com uma breve escala em Zurique. Já instalados no hotel, com muita dificuldade com o nosso paraplégico, eis a questão: e agora? Três dias pela frente, sob um surpreendente céu azul e a capital da Europa a nossos pés. Pés? Nem pensar! Só se fossem rodas… Eureka! Eis a ideia, junto com a dúvida: será que ele topa?

Bem, conhecendo o cronista, amante da vida e da saúde, elegante e apreciador da elegância, era natural supor que ele não topasse andar de cadeira de rodas numa cidade que conhecia tão bem com a palma dos pés.

Arriscamos. Através das facilidades da internet, em minutos o mais apropriado e confortável veículo para a ocasião era entregue na recepção do St. James, da Pall Mall.

Agora, o suspense. Pois nada havíamos lhe dito sobre a iluminada ideia. Na expectativa de sua reação, batemos na porta de seu quarto, com a cadeira em punhos.

“Vamos passear?” – perguntamos, já adentrando e empurrando a bendita em sua direção. Ele estava sentado na lateral da cama, esfregando os olhos, como já se preparando para ver a novidade. Levantou a cabeça, olhou para a cadeira de rodas, e, imediatamente esboçando um largo sorriso, sapecou: “Só se for agora!”

Ora vejam só, e nós receando sobre a sua impressão diante da situação e do inesperado convite. Mas, logo entendemos que aquele era o Carlos Romero que conhecíamos, há 90 anos, tão bem vividos com alegria e bom humor.

Foram três dias inteiros na rua. Livrarias da Charing Cross, concerto no Royal Festival Hall, balé no Coliseum, pontes, parques... como é bom andar numa cidade inteiramente acessível, sem ao menos 2 centímetros de batente.

Não era surpresa que o bom humor do cronista estivesse sempre presente. Dava gosto vê-lo sorridente, cumprimentando as pessoas, completamente esquecido da estenose. Chegou a olhar para mim, o seu “motorista”, e disse: “Se eu soubesse que era tão bom, já teria alugado uma cadeirinha dessa antes”. E todos gargalhamos.

Numa das movimentadíssimas esquinas da Leicester Square, aguardávamos o sinal abrir para atravessar pela faixa de pedestres. Então ele percebeu, ao lado, um rapaz segurando o carrinho de seu bebê, também à espera do sinal. Cutucou-me, falando baixinho: “Diga-lhe que, no futuro, eles trocarão de lugar e ficarão como a gente”.

É, meu pai, como foi bom trocar de lugar com você, nesses últimos anos. Quantas vezes você dizia aos outros, carinhosamente, que, agora, eu é quem era seu pai… E como foi bom poder, na hora do banho, lhe dizer: “Feche os olhos que agora vou ensaboar seu rosto”… Que sensação inesquecível era passar minhas mãos por suas pálpebras macias, que, há poucos meses se abriram para definitivamente enxergar o caminho, a verdade e a verdadeira vida...


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