Ele teve medo e desespero. Sentiu-se só, desamparado e quase sufocado por uns picos de pânico que de vez em quando lhe assolavam a base da ...


Ele teve medo e desespero. Sentiu-se só, desamparado e quase sufocado por uns picos de pânico que de vez em quando lhe assolavam a base da espinha e por vezes lhe paralisavam a respiração. Fez-se só na vida. Nada de importunar parentes, amigos. Nas noites de insônia, depois de muitas tentativas inúteis de se conectar com um mundo desconectado, percebeu-se com muitas pessoas em suas redes sociais, mas imensamente solitário. Ligou em vão a TV. Como um croupier de cassino que magicamente embaralha as cartas, seus dedos ágeis zapeavam o controle remoto em busca de uma imagem que lhes trouxesse o sono, senão a paz. Talvez a música pudesse lhe tragar os demônios da noite e lhe assentar nos braços dos deuses do sono. Fechar os olhos e rolar na cama era quase dormir numa cama de faquir. O lençol lhe arranhava os músculos das costas tal qual espinhos de caroá, com sua formosura em vermelho e suas garras de gato de folhas. O travesseiro formigava num comichão de urtiga, misturado com o suor que lhe aflorava o corpo todo, como castigo de penitentes.

Havia ruídos muito estranhos. Talvez invasores, gatunos da noite, malfeitores que sorrateiramente pulavam os muros na calada da noite. Ele não dormiu, enfim. Na sua mente, planos de vencer aqueles medos, de se proteger dos contágios de um mundo cheio de infames e tormentos.

Na manhã que já se avisara em seus clarões, esperou, entre xícaras de café e pílulas da felicidade, que também o mundo despertasse de sua inércia do sono. Após algumas ligações, seus projetos enfim estariam a se cumprir.

No mesmo dia, dezenas de homens com máquinas e matérias de construção ali chegaram. Uns fardados com macacões, botas e luvas a descarregar espinhas dorsais de aço bruto, outros a descarregar sacas de cimento e pedras, naquele amálgama da areia, brita, numa alquimia do mundo plástico para o mundo concreto. Ah, o concreto! Ele vislumbrava no concreto a sua salvação. Ele chegou a se ver naquele meio, entre betoneiras e pás, misturado com pedras fundantes e cascalhos. O som da brita se derramando soava como chuva em tempo seco.

A proposta do mestre de obras era de erguer um muro de 2 metros, pensando em proteção, mas em não esconder a beleza da arquitetura da casa, pensada em dois planos, com vigas que se fundiam numa harmonia de esquadros.

Não. Ele queria mais. Pensou em 3 metros. Pensou em 4 metros. Quem sabe 5? Concordou nos 4 metros, mas com uma cerca daquelas da guerra, daquelas que espiralam a dor das farpas, daquelas que mordem a carne e a sangram como castigo.

Ele se via protegido. Imaginava-se tal qual um senhor feudal tutelado por imensos muros. Ou mesmo um abade adargado pelos imensos torreões das construções sagradas. Talvez até - mas isto era uma proibição – como uma donzela encastelada à espera de seu príncipe, seu salvador, seu tutor de uma vida.

Erguerem o muro e ele encastelou-se. Dormiu bem por duas noites, ainda sob efeitos de pílulas de Morfeus. Na terceira noite, o fantasma do luar lhe visitou. Não havia barulhos. Ele foi à janela. Diante dele o muro.

Ao invés de susto, de pânico, ele chorou. Chorou da dor da proteção. O muro era também separação. O muro era também aprisionamento. E não adiantava a tecnologia naquela hora. O concreto do muro solidificou-lhe também a alma. Sentia-se seguro e abandonado do mundo de lá fora. Chorou pela sua impotência. O potente muro lhe tirou a imagem do sol rasgando o véu da madrugada, dos primeiros pássaros tintilando o dia.

Havia o muro. Mas havia um sumidouro. Havia uma não-existir. Um buraco destes que se sente à boca do estômago. Havia um hiato, mas não entre o muro e a vidraça da janela. Um hiato de si. Uma promessa esgarçada da solidez do muro. Não percebeu ele que, ao construirmos muros inauguramos a cisão e a perda. Os muros são nossos assujeitamentos de um mundo de si, só de si. Há no muro a enganação da segurança. Há nos muros, o esvaziamento do outro, do toque, do olhar. Muro é cegueira.

Ele se sentiu no buraco negro da solidão, porque ergueu um muro.



Era setembro e ela recebeu as chaves de sua nova casa. Um molho com umas 6 chaves para lugares diversos. Está ela parada em frente ao muro de sua nova casa. Experimentou ainda duas chaves até conseguir abrir o portão de ferro. Ela já havia visitado a casa. Mas a sensação de ali entrar com as chaves próprias tinha um significado bem diferente. Abriu o portão, por entre rangidos e engasgos.

A vida dela era feita de travessias. De gente que vem, de gente que vai, como as canções de Milton.
Na primeira noite foi sentindo a casa como quem deita pela primeira vez em colchão novo. Ria à toa e imaginava preencher aqueles espaços com muitos quadros e coisinhas de viagem. Caiu a noite e o breu se fez. Do terraço, ela mirou o céu. Buscava a lua e seus prateados. Ela ainda não havia se erguido. Nessa hora deparou-se com o brusco muro e seu impedimento de tijolos que dormiam uns sobre os outros.

Na sétima manhã ela decidiu pela derrubada do muro. Feito.

Ela viu o mundo crescer e abraçar aquela casa, como um náufrago abraça a terra firme. O mundo é aberto, sem fronteira. Logo plantinhas cresceram onde antes eram as fundações do muro. Matinhos com flores singelas pululavam da terra, entremeados por uns verdores de vida que nem se sabe de onde chegaram. E daí caracóis que rastejavam, formigas e sua incansável lida, e depois beija-flores feito helicópteros de ré, lado e frente.

Ela havia construído uma ponte sobre os nãos do muro. Havia o sim. Havia agora pessoas que passavam e sorriam de estranhamento ou de encanto. Mesmo uns gatunos que já vislumbravam facilidades pra suas artes de surrupio, resolveram não invadir uma casa sem muro, pois que lá nada de valor poderia haver.

Nas outras manhãs e à tardinha, um bando de crianças corria num esconde-esconde e pega pelo jardim dela. Atravessavam a ponte-jardim, o espaço de intermédio que me conduz ao outro. A casa estava ligada ao mundo, aos transeuntes e ela nunca estava só. À noite, naquelas mais escuras, um vigilante sempre atento, passava pelo jardim e a ela acenava.

A vida dela era feita de travessias. De gente que vem, de gente que vai, como as canções de Milton. A ponte é a aventura de ir-se e poder voltar, de transitar para um mundo outro, quando a ponte nos leva para o outro lado de um rio atrevido.

Quantas pontes de rios e abismos teremos atravessado antes de chegarmos ao mar?

Um humano não é uma margem que apenas existe de um ou de outro lado. Um humano é algo como uma terceira margem, uma ponte que sempre me leva para um outro. Um sinal de que somos contato, nunca distância.


Adriano de Léon é doutor em ciências sociais, professor e escritor

No começo era um recado e um portador como meio Depois um bilhete ousado e um corvo ou pombo-correio Foi-se a emoção e o segredo ...


No começo era um recado

e um portador como meio

Depois um bilhete ousado

e um corvo ou pombo-correio

Foi-se a emoção e o segredo

é poste é guife é torpedo

já é vintage o emêio...



A poesia é meu bilhete

é nela que uso gravar

aqui escrevo a mensagem

engarrafo e lanço ao mar

Leva os segredos e as dores

notícias dos mil amores

e arroubos que temo ousar...

(Falando da evolução dos recados n”A Mensagem” da Nilza Freire)


Stelo Queiroga é engenheiro e poeta

Palavras. Com o tempo, se transformam. Viram eco. Sombra. Do que foram, um dia. Eco da própria sonoridade. Sombra da imagem que pretendeu f...


Palavras. Com o tempo, se transformam. Viram eco. Sombra. Do que foram, um dia. Eco da própria sonoridade. Sombra da imagem que pretendeu formar. Mas sempre elas, palavras. Ditas lá no seu início e para surpresa de quem, desde muito cedo, passou a acompanhá-lo aonde fosse, levado, a princípio, por sua mão, ele naquele seu ímpeto. Dos bons tempos. Vocação quase missionária, na mais nova e corajosa iniciativa que despertava comentários pela porção do mundo adulto em volta. Mas lá, de qualquer forma, a lhe seguir os passos na aventura de terminar de criar o homenzinho que viera não se sabia de onde. Do “Forno Velho," diziam uns. Da Piedade, outros.

Ficavam a lhe monitorar progressos, muito possivelmente com a observação fundeada nalgum substrato daquela velha ideia que se desenvolveu nos trópicos, desde que uma primeira leva de brancos aportou por aqui, para logo descobrir que o paraíso não só existia na terra como estava assentado sobre uma montanha de ouro, e que, consequentemente, toda forma de integração social era legítima desde que se desse após o grande assalto.

Mas de qualquer forma tratava-se ali de um ajuste que fosse aos poucos integrando a criança ao núcleo drasticamente reduzido daquela família, esforçando-se o homem para lhe passar os rudimentos desse novo mundo que tinha pela frente, dessa nova vida, como se cansaria o menino de ouvir.

Havia a lista estafante de comportamentos e hábitos obrigatórios, que começavam cedo da manhã. As abluções. O ritual de vestir-se. O lanche para a escola. Alguma aventura lacustre de não molhar os pés naquela passagem, etc. E às quais lançou-se, de início, com todo o empenho que aquela desigual carga de estímulos, provinda do homem, fosse capaz de injetar no garoto magrinho, negro e desengonçado. Aquela dose diária de ânimo a que fazia jus como uma espécie de boneco inflável, que, por sua vez e para merecer o nome, fosse incapaz de passar sequer algumas horas sem requisitar nova injeção pneumática. Sem a qual, nem esse próprio beneficiário final, lembrando-se agora, apostaria um vintém que fosse no sucesso da empreitada. Até porque o homem, enérgico, e que às vezes o vinha pegar pela perna para que acordasse e já saltasse da cama, não haveria nunca de erguer a mão para esse, em vez nenhuma, nem mesmo o assustaria ou amedrontaria usando de rispidez nas palavras.

Ia ser preciso aprender. O costume da terra - diziam. O que isso significava. Queria dizer o quê? Fosse o que fosse, era sempre difícil para quem se vira obrigado a se desfazer das próprias lembranças que trazia, e que de nada lhe iam servir naquele lugar. Ninguém lhe havia dito que assim fizesse, mas elas foram sendo deixadas num canto. Onde não eram de causar mal nenhum. Uma espingarda descarregada, num canto. O último fio delas a que pôde, de fato tocar, pegar, o menino o trouxera colado ao corpo. Aquela pequena trouxa sobre a carga do caminhão continha uma insignificância de roupas amarfanhadas e impregnadas pelo muquifo, que, naquela madrugada mesmo o menino havia deixado para trás, no lugar onde se cozinhava em fogo de chão. E com aquela fumaça de mato verde subindo e tisnando a parte superior da taipa e das telhas, e pela qual, anos depois, de alguma forma voltaria a se sentir sufocado. Para isso bastando apenas rever-se naquele cenário confuso e de sonho confuso. Bastando evocá-lo. A nele sobressair-se, no entanto, havia aquela incessante ação humana. A mulher. A imprevisível, mas constante movimentação da mulher, a entrar e sair.

pintura alberto lacet
Arte de Alberto Lacet
Podia vê-la (do lugar onde sempre ficava) agachar-se, podia ver como era sempre extremamente flexível, de cócoras no limiar da porta, onde uma tábua serve de soleira, e por onde assoma a luz oblíqua. Ou mais na penumbra, dentro do muquifo e a servir-se de abano, tição, caneco de cabo comprido, vassoura de ramos silvestres. 
A mulher e seu corpo de mil possibilidades. Vale-se de algum entalhe anatômico com a mesma assertiva com que uma embarcação tira proveito dos relevos da costa. Estava sempre retirando algum apetrecho do vão da orelha, de debaixo do queixo, de entre os dentes, dos seios, da amarração do lenço nos cabelos, onde provisoriamente o alojara, para dele servir-se na tarefa diária de algum corrugue, depeno, moqueio, etc. Mas agora revendo-se escanchado em sua cintura, sob o sol.

Uma grande clareira. Neg' Ana a mover-se entre a multidão de cascos avermelhados. Empilhados de borco e feitos de terra amassada e torneada. São dispostos em volta dos grandes montes, redondos feito iglus de fogo crepitando nas bocas, à altura do chão, e em volta dali toda aquela gente, de cócoras, a maioria, e cuspindo as vozes que ouve também como uma crepitação. Enquanto a mulher, aqui e ali, com um simples solavanco de quadril rearruma a carga no vão da cintura, de modo a que o menino permaneça lá escanchado, a tiracolo, com uma perna sobre seu ventre e a outra sobre a bunda, literalmente sentado nas cadeiras dela.

O garoto, às vezes, percebendo quando ela firma a perna sob a anca que o sustém, assumindo, assim, postura de toco, ou árvore, com a parte superior do corpo em forte inflexão para o lado oposto, que se mantém em equilíbrio devido ao posicionamento da outra perna que abriu compasso no mesmo sentido. E o menino, então, apercebendo-se ali como numa forquilha do tronco, numa altura em que pode relancear em tomo, enquanto conversa ela com o homem de pele clara, e, também, de cachimbo na boca.

Depois, na sombra, de volta, no interior do muquifo, ouvindo a voz que interrompe o resmungar com um grito lacônico que é quase latido de cão, e que responde a alguém fora dele, talvez àquele do cachimbo. Mas sempre aquela voz, irrompendo às vezes num canto abrupto e que pode depois amainar para som cavo, cantante e ininteligível de reza. Que por sua vez poderá se interromper em algum intempestivo, blasfemo imprecar por pano voado de varal, incontinência de vento ou de fogo, de fervura derramando-se.

Toda aquela movimentação seguida do cortejo de luzes atravessando o dia, embora aqui ou ali entremeada por períodos de silêncio e incerteza, até o momento, sempre esperado por esse, em que não via mais nada, a não ser a luz ardendo para contraste das sombras fortes, e que, por um momento, deixariam de ameaçá-lo. Pois que havia sido finalmente tomado e erguido e envolvido por aqueles braços para que mergulhasse e se perdesse em sucção, a quase afogar-se no cheiro avassalador e minado da natureza mais íntima, e de cuja fonte extrairia aquele sumo debelador de acidez e ânsia. Aquele líquido morno, invisível e latente, e que parece sair da pele da mulher e evolar-se pelo ar, impregnando por completo o ambiente, para completa acalmia de sua incipiente estrutura física, envolta ali num sudário esgarçado por uso e sarro de pobreza antiga. Sentindo, apesar de tudo, passar através de si aquela corrente indomável, eficaz e cheia, e pela qual a vida lasciva, infalível, aprestou-se em lhe transmitir seu primeiro e genuíno calor humano.


Alberto Lacet é artista plástico e escritor

O que faz de um homem um homem? Um homem nunca deveria deixar outro homem dormindo, embaixo das marquises, no frio. Tampouco passar fom...


O que faz de um homem um homem?

Um homem nunca deveria deixar outro homem dormindo, embaixo das marquises, no frio.

Tampouco passar fome deveria um homem deixar outro homem.

Nunca deveria um homem perder a confiança de uma criança ou de um cachorro. Nunca.

Um homem nunca poderia sujar as águas de um rio.

Derrubar uma árvore.

Um homem deveria aprender com a árvore a lição da generosidade e da resiliência. A fruta no verão. A folha que retorna verde depois do inverno.

Nunca um homem deveria chorar sozinho. Para isso existe o colo acolhedor de uma mulher ou o braço forte de um amigo.

Um homem nunca poderia ter poder sobre o corpo de outro homem. Seja qual for o preço.

Nem deveria ter poder sobre o corpo de uma mulher. Tampouco chamar isso de amor.

Nem sobre o corpo de um cavalo. Ou de um elefante. Muito menos de um passarinho.

Zombar de outro homem. Nunca um homem deveria. E deveria ensinar isso aos seus filhos.

Nunca poderia um homem ferir outro homem, ou mulher, ou criança. Nunca.
Nem matar outro homem. Seja com faca, revólver ou negligência.

Poderia um homem envenenar a comida de outro homem? Não, não poderia.

Nunca um homem poderia deixar outro homem agonizando no corredor de um hospital. Ou na solidão de uma unidade intensiva de qualquer terapia.

Nunca um homem poderia deixar outro homem morrer sozinho. Nunca.

Nunca um homem deveria ter medo de outro homem. Ou causar medo a outro homem.

Não é isso que faz de um homem, um homem.

Serei eu, um dia, um homem?

Será você?

O que, para você, faz de um homem, UM HOMEM?


Nelson Barros é psicólogo e cronista

Muito criança, ficava encantado quando via um senhor tocar um instrumento, num bar de Alagoa Grande, minha terra natal. Eram momentos de de...


Muito criança, ficava encantado quando via um senhor tocar um instrumento, num bar de Alagoa Grande, minha terra natal. Eram momentos de deleite que ainda hoje ressoam no meu peito. Muito tímido perguntei a um conhecido o nome “daquilo” e obtive como resposta: - É um Clarinete!

Ao emigrar para João Pessoa, muito novo, procurei estudar Música. Sempre tive um fascínio pelos músicos. Lembro que em cidades do interior são denominados “santos musgueiros” os que tocam em procissões e solenidades sacras.

Tendo me matriculando no Conservatório Antenor Navarro, na época na rua Duque de Caxias, não consegui concluir nem a “Percepção Musical”. Embora adolescente, tinha uma responsabilidade grande. Era arrimo de família e tinha que estudar e trabalhar num jornal. Não havia como conciliar Música, trabalho e estudo, pois no Jornalismo só temos a hora de entrada no expediente, haja vista que notícia não estabelece tempo para acontecer.

joao leite clarinete
Prof. João Leite
Ao me aposentar, decidi estudar Música. Tenho a felicidade de encontrar o Professor João Leite, conceituado docente da Universidade Federal da Paraíba, Primeiro Clarinetista da Orquestra Sinfônica da UFPB e da Orquestra Sinfônica do Estado. Cerimonioso, falo com ele e o mesmo me aceita como aluno.

Sem saber absolutamente nada de Música, a cabeça dá nó quando João Leite tenta me explicar “Círculo das Quintas”, “Harmonia”, “Enarmonia”, “Acordes”, “Métrica”, “Compasso”, “Ritmo” e outros pontos. Para não expor tanto a minha obtusidade, faço semelhante ao personagem Armando Volta – da Escolinha do Professor Raimundo – e passo a chama-lo “Amado Mestre”!

João, o Amado Mestre, tem uma virtude rara. É paciente e dá aula rindo. Na sua presença os exercícios de percepção, mecanismo, embocadura e agilidade parecem coisa simples. Quando chego em casa o “desgraçado” do Clarinete apita e não dá a nota certa. Sem paciência, dá-me vontade de metê-lo no chão. Por outro lado, até a gatinha Samantha e o gatinho Boy saem de perto quando tento fazer os exercícios. Pagamos muito mico estudando música!

Por prerrogativa profissional fui obrigado a fazer um novo curso de atualização, desta vez na Espanha. A primeira coisa que faço é abandonar o “bichinho” do Clarinete.

Nessa involuntária quarentena ligo para o Amado Mestre. Batemos aquele papo gostoso. Lá pelas tantas digo que não está “saindo nada” no instrumento. Incisivo João Leite pergunta-me: - Você tem pego no Clarinete, Josinaldo?

Respondo-lhe:

Tenho, Amado Mestre! Olhe, pego, limpo, lustro, passo a flanela e o guardo de volta.


Josinaldo Malaquias é jornalista, advogado e doutor em sociologia

O homem sempre foi observador e, por conseguinte, apreciador de tudo que o cerca. A fauna e a flora, meio de sustento e subsistênc...

samuel cavalcanti passaros na musica

O homem sempre foi observador e, por conseguinte, apreciador de tudo que o cerca. A fauna e a flora, meio de sustento e subsistência são, ao mesmo tempo, fontes de inspiração. Há, no Evangelho segundo Mateus, admoestação aos que se preocupam com o vestir, por meio de um elogio à natureza: “Considerai como crescem os lírios do campo [...] nem Salomão, em toda sua glória se vestiu como qualquer deles” (Mateus 6: 28-29).

Apesar de, no momento em que vivemos, a apreciação do que nos está à volta não ser prática comum, e termos, cada vez menos, tempo para contemplações – haja vista o modo paradoxal com que tratamos a natureza (queimadas, extinção de espécimes, desmatamentos, etc.), temos uma relação intensa, no plano artístico, com o meio ambiente.

kierkegaard musica figurativa
Kierkegaard
Ao observar as coisas naturais, o homem monta analogias em relação a si próprio, ou à sua condição; o pensador dinamarquês Søren Aabye Kierkegaard, a esse respeito, expressou: "Se um dançarino desse saltos muito altos, poderíamos admirá-lo. Mas se ele tentasse dar a impressão de poder voar, o riso seria seu merecido castigo, mesmo se ele fosse capaz, na verdade, de saltar mais alto que qualquer outro dançarino. Saltos são atos de seres essencialmente terrestres, que respeitam a força gravitacional da Terra, pois que o salto é algo momentâneo. Mas o voo nos faz lembrar os seres emancipados das condições telúricas, um privilégio reservado para as criaturas aladas".

O artista – esteja ele em quaisquer que sejam as áreas de atuação – vê de modo transcendente a realidade, transcrevendo-a em sua arte, por meio de associações ou puros recortes do que vivemos. Uma pintura ou uma escultura, mesmo que pretendam retratar, assim como a fotografia, deformam, transformam e transcendem a realidade pela observação interpretativa. A percepção do artista, neste sentido, se torna mais aguçada e, a cada instante, ele tende a reparar mais no que está à sua volta.

Os questionamentos de filósofos e cientistas, por um lado, são maneiras de observação que não implicam, necessariamente, em conclusões imediatas; o artista, por outro lado, transcreve para sua obra, de maneira literal ou não, a realidade; e sua arte, em muitos aspectos, já se constitui numa resposta mediata, mesmo que não esteja conscientemente baseada em nenhuma teoria, porque, dizia Rubem Alves, "é do desejo que surge a música, a literatura, a pintura, a religião, a ciência e tudo o que se poderia denominar criatividade”.

Os poetas, com toda sua simbologia, imprimem, com palavras, emoções às suas observações. João da Cruz e Sousa assim se referiu acerca de sentimentos próprios no poema Beijos: “Dentro de mim se projeta a luz cambiante dos prismas e batem asas as cismas qual passarada irrequieta”.

O músico, por semelhante modo, comunga dessa vivência de observações e transcrições, pondo em música, sob fortes associações, o seu contexto: natural e cultural. Assim, vemos como a elaboração musical pode estar diretamente relacionada com a observância do meio.

clement janequin
Clément Janequin
Desde antes mesmo de a Idade Média findar, os poetas e depois os músicos já haviam dirigido sua atenção ao canto das aves. Na renascença é notório o exemplo de canções onomatopaicas como o ciclo Le chant des oiseaux de Clément Janequin (1485 - 1558). Cada época, portanto, desenvolveu uma maneira particular de expressar o canto de pássaros em música, e hoje é possível traçar as várias formas de associação da matéria extramusical com o produto artístico final.

Existem vários graus de associação paisagística de pássaros à música, desde canção em homenagem a um pássaro significativo, ou mesmo sagrado de uma civilização (sem recursos onomatopaicos), até a inclusão em música de um registro fidedigno de seu canto, por meio de um espectógrafo. A paisagem sonora pode ser composta da “fauna” e da “flora” em volta do foco que se quer musicar. Os pássaros foram, em muitas ocasiões, focados dessa maneira, e seu habitat funciona, em alguns momentos na história da música, como acompanhamento paisagístico-sonoro (por exemplo, em Olivier Messiaen).

Seja pelo seu canto ou pelo que representam em determinadas culturas (um mito, por exemplo), as aves têm inspirado obras diversas e multifacetadas: de caráter épico, heróico, lírico ou mesmo patético e pastoral. As técnicas composicionais utilizadas ao longo do tempo para a referência aos pássaros são muitas, em função da relação associativa, ou da transcrição.

Berry Witherden, em resenha crítica do CD Anjos e Visitações, acredita que a maioria dos ouvintes, mesmo que nada saibam sobre o finlandês a quem muito admiro, Einojuhani Rautavaara, vão associar a sua música a paisagens árticas ao ouvirem sua orquestração clara, suas harmonias ásperas, suas melodias “cheias de suspiros e vibrações”. Segundo o autor, o próprio Rautavaara não somente endossou as palavras do romancista Milan Kundera, como também, tomou-as para si, quando este comparou a música sinfônica a ‘uma viagem por um mundo sem fronteiras’.


Samuel Cavalcanti é mestre em música e escritor

Se dizem que a nossa terceira visão vem da glândula pineal, uma espécie de olho que nos serve de antena para a conexão eletromagnética com ...


Se dizem que a nossa terceira visão vem da glândula pineal, uma espécie de olho que nos serve de antena para a conexão eletromagnética com as energias sutis do universo, certamente os poetas devem ter um quarto olhar.

Poeta, aquele que capta e transcreve à criação o que é capaz de modular sentimentos como soa o que é música. E não precisa ser em versos. A simples habilidade de montar frases, contadas e rimadas, está muito longe da poesia, que nem de alfabeto carece. Está no olhar, no ouvir, no sentir, no dizer. Na melodia de uma pintura, na paisagem de um sorriso, no voo da borboleta, ou de um pássaro no jardim…

O cronista que possui essa visão, que somada à pineal, anteninha que regula nossos ciclos, produz substâncias neurotransmissoras e nos conecta às sutis camadas do plano espiritual, é capaz de ser poeta.

Físicos teóricos já concluíram haver dimensões imperceptíveis, além das três espaciais e da quarta que é o tempo. Dimensões sensíveis à tal glândula, que “vê” e percebe além da córnea, detecta sutilezas invisíveis ao olhar comum. É o pequeno radar que está relacionado à clarevidência, à telepatia, premonição e mediunidade. Está tudo na “Teoria das Supercordas”, um capítulo impressionante da Física Quântica.

Dessas elucubrações, teóricas ou práticas, visíveis ou invisíveis, palpáveis ou sutis, vem a ideia de que o poeta sabe, não sabe que sabe ou vê por todas essas brechas. É das réstias ou filetes de luz que perpassam tais canais da intuição, sussurram ao olhar e vibram pela privilegiada epífise de quem enxerga a vida com seus encantos que descende a poesia.

gilberto amado
Gilberto Amado
Um fenômeno não menos quântico que faz artistas como Sérgio de Castro Pinto colocar toda a bicharada num “zoo” mais grandioso do que o que Noé juntou na Arca. Um milagre que fez as letras de Shakespeare ferverem na paixão que a alma sente ao se enebriar com o bafo ardente e flamejante do amor. Que tornou Gilberto Amado capaz de abrigar a beleza de todos os oceanos numa gota de poesia com gosto de mar. Que faz um cronista como Gonzaga Rodrigues (foto) juntar frases e ideias, tecendo dramas, cheiros e cenários arcabouçados com a habilidade de um “joão de barro”.

Assim se vê a poesia verdadeira, muito acima da rima, do simplório versejar, do baldo cordelista ou trovador loquaz, tantas vezes amarrotados com a forçada imposição de uma regra além da conta. A poesia é bem maior. Quântica e sutil como quarks e neutrinos, além do que é risível ou da cota do visível.

A poesia está na crônica. No cronista que vê coisas, por mais pífias e sem graça com uma grande diferença. Mas a ele são vultosas, brilhantes como a lua, falantes como o grilo, gritantes como o amor.

suely cavalcanti dias
Suely Cavalcanti Dias
Lembrei disso ao receber recentemente da amiga Suely Cavalcanti Dias, confrade e educadora espírita, amiga de meu pai, Carlos Romero, um recorte de uma crônica escrita há 73 anos, n’A União. Em que fala de uma época, quando foi designado para fazer reportagens sobre os debates no plenário da Assembleia Legislativa de então. “Com o decorrer do tempo e da rotina”, ele foi observando, pouco a pouco, “num desses deslizes do olhar”, a fisionomia cansada e atenta de um dos frequentadores das galerias - um funcionário público aposentado “que trazia no semblante desbotado pela vida, a tortura e os restos de suas últimas decepções” - Isso é poesia!

Segundo o cronista, o curioso personagem não faltava a uma sessão sequer. E, “apesar da madureza de sua idade, da severidade doentia de seu aspecto, entremostrava um certo fulgor de encantamento no olhar” - Que beleza!

Este foi um encontro de olhares que se fitaram apenas pela sintonia da emoção vivida nos instantes puros de uma observação sensível. Através daquele semblante perdido nas galerias, e quiçá da pineal privilegiada pela fina intuição do cronista, um personagem marcado pelas perspectivas sombrias da desesperança foi criado. Como símbolo de uma realidade muito humana e de um sentimento de empatia pela condição do semelhante.

Empatia essa que se traduz no bálsamo que enleva a alma embevecida com a arte que os bons escritores têm brindado o mundo e nos feito mais felizes.


Germano Romero é arquiteto e bacharel em música

“Se Deus quiser”. Não encontramos outra expressão que possa substituir um “Se Deus quiser”. Quando dizemos para nosso interlocutor que dará...


“Se Deus quiser”. Não encontramos outra expressão que possa substituir um “Se Deus quiser”. Quando dizemos para nosso interlocutor que dará tudo certo, é inevitável que ele diga “Se Deus quiser”. Poderia ser um “tomara”, um “oxalá”, mas nenhuma delas tem a força de um “Se Deus quiser”. “Graças a Deus” também é expressão insubstituível. Quando dizemos que deu tudo certo, o interlocutor, como que um autômato, dirá “Graças a Deus”. Poderíamos substituir o “Graças a Deus” por um “felizmente” ou mesmo um “ainda bem”, mas da mesma forma não teria o mesmo efeito mágico. Um “Se Deus quiser” ou um “Graças a Deus” elevam os problemas humanos a um patamar divino, afinal de contas Deus estará diretamente, sem subalternos, envolvido no caso.

Na primeira hipótese, a do “Se Deus quiser”, como o evento futuro é incerto – por óbvio –, parece que nos livramos das responsabilidades. Entregamo-las nas mãos da providência. Deus – o leitor poderá substituir Deus por qualquer outra divindade em que acredite, seja Ogum, Santo Antônio, Odin etc. – é o maior álibi do ser humano. Com Ele o homem tira de suas costas o fardo da responsabilidade pelo que está por vir. Atribui a Deus tal ônus. No segundo, o do “Graças a Deus”, o homem, que já havia imposto a Deus toda a responsabilidade pelo que poderia ocorrer, humildemente agradece-Lhe pelo evento favorável. Mas se Deus não cumpriu bem o seu papel aparecerá a terceira expressão insubstituível: “foi Deus quem quis assim”, e voltamos a impor-Lhe responsabilidades pelo que se sucedera. – Pobre menino, estudou tanto, mas não passou no vestibular. Foi “Deus quem quis assim”, dirão. E o garoto, que ocupou o tempo de Deus com seus exames de admissão, terá uma nova chance no ano que vem.

Esse Deus-álibi é uma das duas causas que nos levam a crer em divindades. O homem, enquanto não descobre a realidade irrefutável de alguma coisa, atribui a Deus sua causação. Isso porque não nos conformamos com a incognoscibilidade dos fatos. Tudo tem que ter uma explicação, nem que seja mística. Daí que, ainda hoje, para alguns povos indígenas, relâmpagos e trovões mais que fenômenos climáticos são expressões de sentimentos de deuses. Isso explica também porque enquanto não se provar por a mais b a teoria da evolução das espécies e a de que o universo nasceu de uma grande explosão, existirão pessoas acreditando que nossos avós foram Adão e Eva e que o mundo foi feito em uma semana, pois assim se estaria, metafisicamente, explicando o que ainda não tem explicação racionalmente convincente.

A segunda causa da fé é o nosso medo da morte. Teimamos em desacreditá-la, apesar de termos-na como companhia desde sempre. Conquanto algumas pessoas dispensem a burocracia da natureza e dêem cabo da vida, principalmente da dos outros, por conta própria, pensar que tudo termina quando aquele músculo chamado coração deixa de bombear sangue para o resto do corpo não é idéia com que o homem possa se acostumar. Daí vem a crença na longevidade do espírito em contraposição a efemeridade do corpo. A morte é vírgula e não ponto final, pensamos. Não é agradável crer que tudo acaba com o cerramento dos olhos. Então estendamos nossa vida para além dela. Um juízo-final e pronto, lá estaremos novamente, aptos para a vida eterna. Desencarnar? Sem problemas, a reencarnação está aí para voltarmos.

Não é agradável crer que tudo acaba com o cerramento dos olhos.
Gostaria de crer que existe um paraíso a esperar-me, depois de uma temporada expiando pecados no purgatório, e que lá reencontrarei quem me é precioso. E várias virgens, se a crença for mulçumana. Ou que meu espírito caminha em progressão, e que voltarei para esse mundo ou um outro, até minha alma chegar num estágio avançado de evolução. Seria bom acreditar no “Pai Danguê” e que ele, após um pequeno “trabalho”, afortunar-me-ia com a mulher que amo e mostrar-me-ia quão inúteis foram meus galanteios e gracejos não correspondidos. A solução estava logo ali, embaixo do nariz, num simples jogo de búzios e numa oferenda de perfumes e guloseimas a Iemanjá. Quem sabe crendo numa dessas igrejas novas, após participar da sessão do descarrego ou da vigília dos 318 pastores, eu não encontraria a felicidade nos negócios, agora, já, ainda nessa vida. Ou poderia tornar-me adepto do hinduísmo e cultuar uma vaca ao invés de devorá-la – pelo menos para o pobre bicho seria uma redenção. Mas acredito apenas na capacidade humana de desvendar através da razão. O que não se descobriu, um dia se descobrirá através do conhecimento racional.

Porém, não tenho como caro esse meu posicionamento puramente cético. Não desprezo a fé no ser humano, desde que isso não implique em proibir o uso de anticoncepcionais, no preconceito contra homossexuais, mulheres e principalmente contra outros cultos – ou na descrença neles, na vedação do sexo por prazer, na aversão ao avanço da ciência, na imposição de uso de vestimentas... Compreendo que necessitamos do Deus-álibi para explicar as lacunas do conhecimento humano e para fugir do tormento do inevitável fim da vida. A crença em divindades cumpre esse papel. A religião, o culto, a fé são necessárias ao inquieto e amedrontado homem. A inexorável morte, como a todos, também não me é bem-vinda.


Douglas Antério é advogado e escritor

Somos todos poetas. Quem nunca escreveu um verso, ou pelo menos uma quadrinha para alguém que admira? Confesso que muitas vezes tentei e ig...


Somos todos poetas. Quem nunca escreveu um verso, ou pelo menos uma quadrinha para alguém que admira? Confesso que muitas vezes tentei e igualmente vã foi minha experiência. Quem lê poesia é o poeta que não escreve poesia, disse alguém.

Cedo houve uma tentativa de ver meu nome na capa de um livro de poemas. No redemoinho dos quarenta anos de idade, em desobediência a Nathanael Alves que me pedia cautela antes publicar algum livro, como ele havia procedido na juventude, na insistência de Nonato Guedes, há vinte e seis anos, coloquei asas na minha produção de poemas.

Não renego o que publiquei, até porque foi prazeroso, com boa acolhida.

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W. J. Solha
O poeta, artista plástico, ator e romancista Waldemar José Solha, com a visão universal que lhe é peculiar, à época falando da minha poesia, sapecou um punhado de palavras elogiosas que me deixou tonto, comparando-me ao que faziam os antigos pintores chineses que, com poucas pinceladas numa tela em branco, diziam muitas coisas. Recolhi-me, escondendo as palavras a respeito daquilo que o autor de “Israel Rêmora” tinha escrito sobre meu livro. Afinal, sou um poeta que ler poesia mais do que escreve.

De poeta bissexto na juventude imitador dos românticos, escrevendo sobre o choramingar do coração, continuei dando asas à imaginação, colocando no papel o produto das lucubrações, aquilo que não conseguia reter comigo. Na época em que foi publicado “Lira dos 40 Anos”, tinha esperança de tocar na sensibilidade da musa que me inspirava. Meia dúzia de leitores, igualmente apreciadores de poesia, deu guarida ao que publiquei.

A partir daí, então, recolhia ao silêncio das gavetas a poesia que produzia. Lendo mais do que escrevendo, consumia meu tempo a descrever outras paisagens da literatura.

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Nathanael Alves
Não dando cabimento nos conselhos de Nathanael, encontrei em Horácio o ensinamento como conforto que tanto esperava, pois o mestre dos mestres afirma que “o trabalho do poeta não se restringe ao momento singular da criação, mas representa o acúmulo da experiência criativa”. Uma bofetada em tudo o que tinha feito. Mesmo assim insisti na publicação das poesias. Vinte e seis anos depois, eu continuo satisfeito porque publiquei aquele livrinho, mas relendo agora os poemas com olhar crítico, constato que alguns merecem reparo. Nathanael tinha razão.

O tempo passou, voltei-me a outras ocupações literárias, enveredei pela pesquisa acerca do passado de minha cidade e seus habitantes, de minha família, consumindo o tempo escrevendo sobre o que pesquisava. Mas sem nunca abandonar de vista a poesia, algo prazeroso de ler.

Tempos atrás, quando menos esperava, novamente estava produzindo poesia. A Musa que desde cedo amava, trouxe-me a inspiração para cantar os ímpetos da alma na voz da terra e dos rios. Poemas que às vezes são incursões autobiográficas, contendo a visão do relacionamento entre duas pessoas que o tempo se encarregou de modelar.


José Nunes é poeta, cronista e membro do IHGP

São pequenos feixes de luz em castanho, negro, verde, azul, caramelo, mel. São misteriosos avisos para serem desvendados, clamam por terem ...


São pequenos feixes de luz em castanho, negro, verde, azul, caramelo, mel. São misteriosos avisos para serem desvendados, clamam por terem os segredos revelados. Incansáveis percebem qualquer movimento, capturam sombras e sonhos ainda no ar. Sentinelas da guarda permanente da alma, vigilantes da insana ânsia por descobrir. São faróis no oceano infinito, percorrem pegadas deixadas pelo luar no mar em rastro prateado

À noite, mais ainda, são como armadilhas lançadas de catapultas para captura de outros seres, iscas faceiras recheadas de malícia para conquistar outras luzes. São fatais quando misturados a um bom vinho. São puro desejo à meia luz, ao luar. Formam cenários pinçados de páginas de romances clássicos e banais, folhetins espalhados embaixo das marquises do Ponto de Cem Réis em tempos idos.

eyes power look power
Poderosos, têm o dom de penetrar o corpo, gelar a espinha, mergulhar no desfiladeiro do íntimo d'outros seres postos à sua frente. E sem tocar conseguem tirar-lhes a roupa, acariciar-lhes a pele, desnudar-lhes o sorriso tímido, jogá-los à lona ou à cama.

São ameaçadores se lhes for negada a chave do coração, largados fora da caixa de batimentos. Se trancados atrás de grades ou amordaçados com lenços, ficam atônitos. Sim, são cachoeiras por vezes de tristezas ou alegrias, ou por coisa pouca, um cisco permanente chamado saudade. Lubrificados brilham mais, ganham novos contornos, tons diferentes, como final de tarde na linha do horizonte.

São sábios. Sabem obter as respostas das profundezas, torturam sem deixar cicatrizes, só as invisíveis. Se emoldurados percebem mais, ou saem do foco. Desastre in loco, cabeça virada ou mesmo sobre o nariz, eis que são lentes sem consenso.

Quando piscam são apaixonantes e buscam o reflexo dos pares, a carta perfumada do vento no rosto, a magia de algo novo. Conquistados e conquistadores, avançam quase antropofágicos para saborear o outro. E mastigam sem dentes a essência da desconstrução de outrem.

Por vezes são loucos. Lançam indagações crônicas, torturantes, desarmônicas, aos montes. Às vezes, são vermelhos, seja por transformação ou pelas nuvens da fumaça ao seu redor. Zumbis da madrugada ou da manhã da noite varrida e errante, que desemboca na manhã da extrema luz, são quase extrema-unção.

São perdidos ao se fecharem na última olhada, o fim de tudo ou o do quase nada, apenas piscadela ao passar por um novo túnel de uma longa estrada. Quem sabe, eis o momento do encontro...


Clóvis Roberto é jornalista e cronista

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