Li e reli o texto de Gonzaga Rodrigues “Carta para um amigo”, publicado recentemente neste blog. De início, até vibrei, achando que o cronista adotara o espaço virtual criado e generosamente disponibilizado pelos Romero, Carlos e Germano. Estaria então, pensei, de alguma forma suprida a sua sentida ausência nas folhas de “A União”. Mas depois percebi que não era o momento para se comemorar, pois Gonzaga afirmava não ter se decidido a respeito. Estava ele ainda a refletir sobre isso (e tantas coisas mais), numa tentativa de se “reacomodar para esse fim de viagem, que começou pela ‘sopa’ de Mestre Chico de Alagoa Nova e não foi além das linhas da Bonfim de Severino Camelo”.
A propósito, a certa altura de seu texto Gonzaga pergunta: “Que vou fazer mais em jornal?”, e a gente sente, com um nó no peito, que a indagação é mais ampla – e mais funda. Na verdade, o cronista, do alto de suas oito décadas de estrada, parece dizer-nos, com um certo fastio: Que vou fazer mais nesta vida?, o que nos deixa quase sem palavras para responder.
Sim, porque o que podemos nós, pobres mortais da planície, dizer, em tal contexto, a alguém que já viu tudo, leu tudo, refletiu tudo, sofreu tudo, enfim, viveu tudo em oitenta anos de rica e plena existência? Seria muita audácia de nossa parte, creio eu. Se ao menos eu lhe fosse pessoalmente mais próximo, ou apenas mero companheiro das lides jornalísticas, boêmias e literárias ... Fosse um Nathanael Alves redivivo, um Marinho Moreira Franco, ou qualquer um dos raros que têm o privilégio de chamá-lo de “neguim”...
Gonzaga RodriguesMas não é esse o caso, pois sou simplesmente um leitor e admirador do filho de Dona Antonina, sem nenhum direito a atrevidas intimidades e a descabidos aconselhamentos. Sendo assim, respeitosamente emudeço diante do desabafo do mestre. Mas não sem antes arriscar-me a afirmar que o compreendo e respeito, face os últimos aborrecimentos que o atingiram. Mas, de qualquer modo, quem somos nós para aquilatar – e penetrar - as mágoas dos nossos semelhantes?
O que sei e o que posso asseverar é que o cronista maior (sem demérito dos demais) ainda tem muito o que fazer em jornal e na vida. Ao que sei, e graças aos deuses ou ao Deus único, sua saúde é boa, assim como sua disposição, não sendo, pois, chegada ainda a hora do recolhimento, salvo o imposto temporariamente pelo vírus.
Deixemos então Gonzaga atravessar em paz seu deserto pessoal, esse Mar Vermelho tardio e inesperado. Deixemo-lo reacomodar-se objetiva e subjetivamente perante o mundo e a vida. Sem nenhuma pressa. Pois que confiamos haver ainda muita viagem pela frente, mesmo que seja apenas em torno da aldeia ou, quem sabe, do seu quarto.
Francisco Gil Messias é ex-procurador-geral da UFPB E-mail
Ela estava lá, quase intacta, repousando por entre papéis também esquecidos pelo tempo das gavetas trancadas.
A gaveta se fez invisível. Às vezes elas o são de fato. Estão lá, mas para ninguém. São quase tampos ou molduras de móveis de canto. Há nas gavetas muitos mistérios. Mistérios de memórias das brumas do esquecimento.
Gavetas são o inconsciente da casa. Às vezes se perpetuam quietas e caladas, quase sonâmbulas. Estão lá nos móveis com pernas que não andam. Acima delas há, não sem espanto, porta-retratos com as memórias que devem ser vistas, aquelas que se compartilham ao alcance dos olhos alheios.
É nas gavetas-inconscientes que dormem as cartas. Aqueles escritos da saudade, dos tempos que insistem em arranhar o presente com os fantasmas do passado. Velhos passaportes de viagens sem fotos, só com carimbos das roletas dos encontros, das despedidas. Botões soltos, não se sabe de onde. De alguma camisa cuja casa sem botão marca nossas promessas de consertos n´algum dia. Um botão que nas noites solitárias testemunhou parte das angustiantes vidas ao lado de um copo de vinho, único companheiro que amansa a fera de existir no mundo de vazios. Há gavetas com flores secas. Quiçá um dia cheias de vermelhos e magentas, de amarelos rajadinhos de estranhas sardas. Estavam um dia viçosas e intumescidas numa lapela em dia de risos. Cheias de memórias dos tráfegos dos amores, como também um passaporte para uma vida de sonhos e eternidades. As gavetas-inconscientes são mudas. Nem rangem. Mesmo sem chaves, são lacradas por um sei-lá de despercebido. São lacradas pelo temor dos seus desconhecidos objetos.
Abri minha gaveta. Andava em busca de algo cuja importância agora se perdeu, um objeto daqueles que somem nos vazios estreitos dos criados mudos, que somem para depois aparecerem quando já importância não têm. Havia quase uma desesperança em mim. Um cansaço daqueles próprios das procuras de objetos quase-botijas. Nem mais sabia ao certo onde e mesmo para que achar o objeto perdido, quando me deparei com aquela gaveta. Estava lá, solitária, como um predador à espreita durante horas. A mim me veio por um triz um desdém daquela gaveta. Pensei mesmo em nem abri-la. Uma decepção a menos. Tal qual um ato falho, deslizei-a para fora do móvel. Como uma boca, ela engoliu minhas mãos, ávidas pela tensão da busca, talvez do encontro, da surpresa.
Quase que no fundo daquela garganta-gaveta, estava ela. Dormida e quieta por anos, quem sabe. Estava ela sob dobras, em três. Perto dela um envelope sem endereço e alguns selos com a cola vencida. As páginas estavam preguiçosas de se abrir. As dobraduras rangiam feito a ferrugem dos que adormecem sem morrer. Uma única folha com aquela icterícia das gavetas-inconsciente que a tudo amarela. Era minha letra. Percebi pelo corte do T. A caligrafia é como uma dança. Nela um casal de a e m, de mãos dadas, como uma ciranda na qual entravam o o agarradinho ao r. A-m-o-r.
Na caligrafia se sabe da alma do redator. Um T mais salteado; um M ondulado; um S encaracolado. No papel, dança o lápis regido pela mão. Parece um pincel, sem cores, mas com enovelamentos de formas conectadas em palavras. Dançam as vogais seduzindo as consoantes ávidas para fazer delas um som, um sentido. E ao impressionarem nossos olhos, fazem com que palato, língua, lábios e garganta se movam também, produzindo num sopro a criação do verbo, do verbo que dá corpo à forma.
É a escrita o artesanato que modula as ideias. Como um pintor e sua paleta de cores, eu escolhi cada palavra, cada frase, cada parágrafo, que modulou o sentido ao meu pensamento.
Era uma carta para quem se foi. Uma carta de partida, de parto, mas não de nascimento e sim de distância. Eu a escrevi para ti, que sumiste quando o sol acordou o dia. Como as sombras da noite, tu te evanesceste. Ficamos eu e aquela presença medonha. Aquela presença que não enche, mas que esvazia.
Eu experimentei o estar-só um segundo depois da sua partida. E não adiantou rolar na cama no meio dos teus cheiros, me agarrar naquele travesseiro tal qual mãe que, arrependida do parto, quer seu filho de volta à barriga. Eu andei meio trôpego depois da tua partida. Ainda tentei lavar os pratos que havíamos usado naquela noite última. Na maresia dos meus olhos sem tua presença, tua taça escorrega e se parte. Fica a minha. Ainda tentei pegar aqueles cacos, sei lá para quê.
Mesmo colados, eles já não mais traduziriam tua sede. No escorrer da torneira que esqueci aberta, quem sabe pra dividir meu pranto, sentei como feto abandonado junto à soleira da porta da cozinha. Por quase um segundo cheguei a escutar o tintilar das chaves e teus mansos passos pelo corredor. Tu agora já quase um fantasma povoando os tijolos da saudade do meu muro de lamentações.
A carta nunca foi enviada. Na gaveta-inconsciente estava dormida. Também inconscientemente o ato de deixa-la quieta dissesse muito do que não queria. Do que eu não disse para te parar. Do que eu acreditei que só o olhar nos bastaria. Que quando nossos olhares se cruzassem, todas as palavras secariam. A ausência daquela palavra nunca-dita, daquele mal-dito silêncio, do terror do eco quando gritei “volta!” depois da tua partida. O eco é a maldição da própria voz. Gritei para mim. Gritei para os labirintos daquela casa sem ti.
Reli a carta. Mas não toda. Havia nela, nas suas linhas últimas um borrão. As letras se enovelaram e perderam o sentido. Viraram restos de letras, fardos de palavras empilhadas sem nexo. Fonemas de sussurros voláteis. Traços de uma língua sem tradução. Tentei, inutilmente, arrumar-lhe num sentido. Pilhar quem sabe a palavra que nunca foi dita.
Não. Deixei o borrão para o que ele foi feito: a incompletude. Este hoje é o elo que a ti me liga. E a sensação que me invadiu foi a de que finalmente te deixei ir. Porque quando se ama, nos tornamos imensamente desnecessários..
Adriano de Léon é doutor em ciências sociais e professor E-mail
Um instante maestro. Ou será DJ!? Agora é soltar o som e curtir. Enfim, peço um minuto para quem controla a mesa de som para desfilar saudações para algumas vozes da nossa terrinha amada chamada Paraíba. E terra fértil, em particular, no quesito música. É preciso reverenciar suas obras, as canções, composições, interpretações, instrumentalizações, superposições de vozes, ginga, exclamações, ruídos... e aplausos.
E é necessário dizer como é bom ouvir vozes de pessoas mortas que seguem vivas em várias formas. Sivuca e Jackson do Pandeiro, figurinhas carimbadas em conceito de genialidade. Embaixadores da nossa arte, do nosso povo, das nossas cores e amores.
E Marinês cantando a sua gente. E os sons do patoense Dadá Venceslau. E não a voz, mas os acordos produzidos pelos dedos de Francisco Soares de Araújo, filho de Princesa Isabel, o popular "Canhoto da Paraíba", virtuose do violão.
Deixaram os corpos físicos e foram tão geniais nesse plano que suas obras os fazem reviver a cada vez que são escutados, solfejados. "Não morre aquele que deixou na terra a melodia de seu cântico na música de seus versos", dizia Cora Coralina.
Dos que estão por aqui conosco em carne e osso temos a potência cósmica do sertanejo de Brejo dos Santos, Zé Ramalho, recheado de figuras mitológicas, de amor, história. Uma aventura musical. E tem a prima Elba Ramalho, cantando o Nordeste, encantando o Brasil. E ainda o nosso Chico, o César, ouro negro de Catolé do Rocha, poeta musical.
Antônio Barros e CecéuSão tantos os nomes... Cátia de França, Flávio José, Antônio Barros e Céceu, Genival Lacerda, Herbert Vianna, Zé Katimba, Renata Arruda, Fuba...
Ah! Mas também quero bater palmas afinadas para uma turma menos conhecida do grande público nacional, nem por isso menos talentosa. Garantia da continuidade do DNA paraibano de ser musical, de que a terrinha é jazida de onde não cessa de brotar pedras preciosas.
Parafraseando os mineiros Milton Nascimento e Fernando Brant ("Nos bailes da vida"), foi "nos bares (ou rádios) da vida" que encontrei esses criadores mágicos. “A música é o verbo do futuro", embalava Victor Hugo. E claro, é preciso citar o bom e velho Friedrich Nietzsche: "Sem a música, a vida seria um erro".
Para citar, pois não ouso cantar (seria uma nota fora do tom), aqui vão dois nomes. Como não se encantar pelo leão em que se transforma no palco, força com extrema sensibilidade, Val Donato? E ainda tem o jovem talento de voz e criação de Madu Ayá, que coloca amor e afeto nas suas letras e melodias. Sem falar nas vozes e mentes emprestadas de outras regiões do País, que radicados por aqui estão são também nossos talentos: Seu Pereira, Polyana Resende, Mira Maya e Escurinho são ótimos exemplos.
Claro, isto é só uma pequena amostra. Certamente esqueci vários nomes, imperdoáveis silêncios, como é comum acontecer com o velho cantor que sobe ao palco e se perde nas notas, tropeça nas letras. Perdoem-me!
Se hoje os discos de vinil e CDs são raros, podemos encontrar todo esse repertório musical paraibano nas plataformas de música, na internet. Uma pesquisadinha e eles surgem em imagem e, principalmente, som.
Confesso, encontrá-los desfilando vozes e cores abriu mais que os meus ouvidos, escancarou meus olhos e o coração. Oxe! Dá um orgulho danado essa página: a Paraíba musical.
E nos restou A União! O célebre e centenário matutino, cujas “remingtons” tilintavam no varar das madrugadas ao sabor e aroma do café e do pãozinho quente trazido à redação. Jornal A União Este cenário, tendo a praça João Pessoa vista das janelas de então, na fachada neoclássica do lindo prédio demolido, tenuemente iluminada, foi escrito e descrito várias vezes por Carlos Romero. Em memória emocionada, nos contava com prazer sobre a convivência salutar e proveitosa que desfrutou n’A União, desde quando lá chegou para redigir telegramas. E depois como repórter, já na redação, a prazerosa e privilegiada amizade com seu chefe, o dramaturgo e cronista pernambucano, Silvino Lopes, com quem muito aprendeu. Aliás, “foi n’A União que aprendi a escrever” - ele dizia com honroso reconhecimento.
Germano e Carlos RomeroHá poucos anos [creio que já contei por aqui], tivemos a oportunidade, eu e meu pai, Carlos Romero, de folhear os velhos compêndios da coleção antiga, com o prazer de ver e reler colunas, textos, reportagens, crônicas e contos de sua autoria. Como foi bom vê-lo curioso, passando devagar, quase apalpando, delicadamente, as grandes páginas, frágeis e desgastadas, com máscara e luvas [e nem tinha coronavírus…] aquelas edições históricas! Já no carro, ele se virou e me disse: “meu filho, eu desafio a quem aponte uma pessoa que escreveu mais n’A União do que eu”. E é verdade…
E nos restou A União! Foram-se O Norte, o Contraponto, o Jornal da Paraíba, e agora o Correio. Que pena… Mas os impressos não sossobram apenas por aqui. Assim também partiram as edições de papel do Jornal do Brasil, Diário do Comércio, da Gazeta, New York Times, Washington Post, The Guardian, e tantos outros. É o mundo digital engolindo o real, o palpável, o crível. Um mundo que tem suas comodidades, não restam dúvidas, mas que extingue o cheirinho gostoso de papel. E aos poucos - tomara que não -, o cheiro bom das livrarias…
O Correio foi o último dos independentes, da iniciativa privada. Atravessou décadas, fez história, passarela de cronistas, repórteres, articulistas, colunistas dos melhores. Abrigou a coluna cidadã de Abelardo, uma vitrine de informações e atualidades imprescindível ao cotidiano. Crispim, Pereira Nóbrega, Gonzaga Rodrigues, Carlos Romero, Natanael Alves, Virginius da Gama e Melo, Juarez da Gama Batista, João Manoel de Carvalho, Biu Ramos, gente que fez a boa literatura ser diária como o café da manhã, que fazia do Correio seu bom dia à notícia. E foram quase 70 anos de compromisso com a informação!
Agora, nos restou A União. E que União! Ainda bem que, segundo nos informa Naná Garcez, é um jornal superavitário, não dá prejuízo e não precisa dos cofres do governo para nada. Tem renda própria, tem gráfica, propaganda. E cá entre nós, nesse quase século e meio, já é um patrimônio imaterial e intangível, cada vez melhor. E mesmo se um dia for extinto, ocupará lugar de honra na história do jornalismo brasileiro como escola superior da arte de escrever.
Como bradou em crônica um de seus mais ilustres colaboradores: “Que este matutino continue na sua missão. Que nenhum governador se meta a extingui-lo. Que sempre se homenageiem os grandes personagens que transitaram pelos caminhos deste jornal”! (Carlos Romero).
Germano Romero é arquiteto e bacharel em música E-mail
Desde que saiu de João Pessoa para prestar internato em São Paulo que Dr. Manuel tinha uma idéia fixa: ser Intensivista! Logo no início do ano, procurou se “encostar” no CTI do hospital Nossa Senhora de Lourdes, cujo chefe, Dr. Bembom, muito competente, embora homem seco, era atencioso para com os novos alunos, futuros médicos, especialmente aqueles que demonstravam mais interesse por UTI.
Dr. Manuel cumpria o estágio nas diversas clínicas, mas não perdia passagem de plantão na UTI. Numa dessas ficou muito impressionado quando o R1 Dr. Zé Mário passou para o R2 Dr. Demóstenes o caso da velhinha desidratada do leito 7: “Esta é uma paciente liofilizada. Estava tão desidratada que, para poder conseguir um acesso venoso, tivemos que reconstitui-la com 8 jarras dágua.” Noutro plantão foi a vez de Dr. Demóstenes dar o troco: “Esta paciente foi aeromoça do 14 Bis”, disse, passando o caso de uma velhinha bastante idosa no leito 4.
Anos mais tarde, pouco depois de pegar o plantão das 7 horas na UTI do hospital de Carapicuíba da Serra, Dr. Manuel constatou o óbito do Seu Lima, um paciente de idade avançada que morreu de infarto cerebral e do miocárdio, consequente a um priapismo que ele havia desenvolvido mês atrás, durante relação sexual forçada, após a ingestão de 4 comprimidos de Viagra mal-tomados. Precisou de um caixão especial. Manuel lavrou o atestado de óbito e entregou o honrado homem às suas três famílias, que depois de quatro semanas de arranca-rabo na sala de visitas da UTI, haviam chegado a um acordo para prantear o falecido.
Eles levaram o tri-patriarca para o velório anexo do hospital, considerado território neutro pelos herdeiros. Lá pelas 4 da tarde Dr. Manuel estava na ante-sala da UTI (lotada de visitas), prestando esclarecimentos aos parentes dos outros pacientes ali internados. A futura viúva do paciente terminal do leito 13 não se conformava com o pré-óbito iminente do seu marido. Astróloga e numeróloga, dizia que se ele tivesse sido internado no leito 10 não teria se agravado tanto, pois além de 10 ser um número harmônico (“de rombo!”), seus vizinhos de leito seriam Áries, à direita, em conjunção com Virgem, à esquerda, o que proporcionaria uma evolução melhor para o seu marido.
Estava Dr. Manuel pacientemente tentando explicar-lhe que câncer de pâncreas, com metástase para estômago, rins, pulmões e cérebro, às vezes pode ter uma má evolução, quando de repente a porta da sala “explodiu”, e entrou uma enxurrada de pessoas. Eram os 23 filhos e as 3 viúvas do Seu Lima, empurrando o caixão num carrinho, todos gritando: “Tá vivo! Ele está vivo, doutor!” “Doutor, meu pai está vivo!”, diziam eles em uníssono.
Dr. Manuel levou o féretro para dentro da UTI para examinar o de cujus. Perguntou aos filhos o que foi que eles viram, para afirmar tal asneira. A filha mais nova disse que o pai estava com rubor facial, e suando às bicas. E a bisneta mais velha, técnica de enfermagem, pegou no pulso, teve um susto e gritou: “Ele tá vivo!”. Foi quando pegaram o caixão e carregaram no carrinho para Dr. Manuel examinar.
Este afastou os cravos-de-defunto roxos, os copos-de-leite brancos, as gérberas e as gardênias, as rosas-chá e os gladíolos vermelhos, tendo acesso ao corpo. Com um oftalmoscópio examinou as pupilas: ambas totalmente dilatadas, em midríase. Com um estetoscópio auscultou demoradamente o coração: nada! Tomou o pulso: nada! Com um esfigmomanômetro aferiu a pressão: zero por zero! Mas também notou que o defunto estava realmente transpirando e um pouco ruborizado.
Dirigiu-se até ao anexo e tudo se esclareceu. A sala de velório era, literalmente, uma câmara ardente: velas e círios espalhados por todos os lados, temperatura ambiente de Picos, no Piauí. O que deve ter feito o corpo infiltrado do falecido ruborizar e transpirar.
Dr. Manuel retornou ao hospital e disse para a família: “Tirem, agora mesmo, este defunto da minha UTI!!!”.
Não sei do ano. Mas estou certo de que foi na semana do fechamento de A CARTA, a publicação do editor Josélio Gondim que por alguns anos movimentou a cena política e cultural da Paraíba.
Encarregado de matérias para as Páginas Amarelas, eu havia procurado Linduarte Noronha a fim de um bate-papo sobre “Aruanda”, o curta metragem inscrito na lista de precursores do Cinema Novo, movimento que teve em Glauber Rocha sua mais forte expressão.
Entrevista feita e editada, eu era informado da extinção da Revista. Sem mais pensar, dei meia volta com o texto debaixo do braço e segui até o CORREIO, onde o entreguei de mão beijada para publicação no domingo seguinte, se bem lembro.
A iniciativa me valeu apertos de mãos e telefonemas elogiosos, menos em razão de algum mérito pessoal e mais, muito mais, em decorrência do que me contava o entrevistado acerca do filme, um documentário com pitadas de ficção e um marco do cinema nacional que rompera com o velho modelo de inspiração hollywoodiana.
Aruanda foi, neste sentido, a primeira cara do Brasil interiorano miserável, desprezado, entregue à própria sorte. E foi o lançamento de um modelo estético gritantemente inovador.
“O que deve dizer o cinema brasileiro sem dinheiro, equipamento nem sala de exibição?”, perguntava-se, antes, Jean-Claude Bernandet.
Linduarte NoronhaLinduarte Noronha e Rucker Vieira responderam a isso, pouco depois, em 1960, convém lembrar, com os auxílios luxuosos de Vladimir Carvalho, Jurandy Moura e João Ramiro Mello.
Linduarte me contou de viagens ao Rio de Janeiro em busca da máquina de 35mm com a qual rodou o filme, até consegui-la. Me falou da ideia de destelhar casebres da Serra do Talhado, nos ermos de Santa Luzia, para a iluminação das cenas tomadas entre quatro paredes. Também, da improvisação de rebatedores de luz advinda de fogueiras o que garantiu o aspecto fantasmagórico de algumas tomadas.
E o pessoal no Rio, abismado, incrédulo, quando das primeiras projeções: “Como você conseguiu isso?”, “Que refletor foi esse?”, “Onde foi buscar corrente elétrica?”.
“Aruanda”, em preto e branco, é um desses sucessos de crítica longe do olhar e do sentimento de um público desacostumado ao gênero. É cultuado, isto sim, pela gente do ramo mais afeita às técnicas, as propostas e à gramática do cinema. É peça consagradora da “estética da fome”, ao que se dizia dessa vertente do Cinema Novo. Na trilha, outra inovação, modinhas populares e temas do folclore brasileiro.
Acabo de revê-lo, em seus quase 21 minutos e 30 segundos, via Youtube, com a alma em festa. E me bateu uma saudade enorme do Gordo. A última conversa que tivemos deu-se a propósito da necessidade de restauração do Engenho Corredor quando ele então presidia o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico da Paraíba, o velho e sofrido Iphaep...
O alimento da vaidade é a atenção, assim como o alimento do artista é o aplauso. O que seria da bailarina sem a plateia que se encanta com seus movimentos? O que seria do palhaço sem a graça do riso? E o pintor, que consumiu uma eternidade para compor sua obra em troca do deleite da contemplação? Do mesmo modo é a vaidade, que depende do oxigênio da atenção para alimentar-lhe a infinda chama.
É o que se vê nesse momento tão singular por que passa toda a humanidade. De repente, o asfalto e as calçadas ficaram desertos. Pessoas até que saíram às ruas, mas a aparência ilusória ficou no cabide e no estojo da maquiagem. As regras de etiquetas e os ditos códigos de civilidade foram substituídos por outros, primários e mais humanos, como lavar as mãos e exercitar a compaixão e a humildade, além de compreender que ninguém é tão diferente, como se quis ou se imaginou.
Há quem diga que a vida sem vaidade é quase insuportável, sobretudo no mundo moderno. O cotidiano proporciona mais opções, o que demanda tempo, que pede pressa em tudo. Acontece que o estágio entre o nascer e o pôr do sol continua absolutamente o mesmo, desde a formação do planeta. Daí tanto estresse na atualidade.
Assim como a vaidade carece de mimos e afagos, requer tempo para arrumar-se. Preparação que demora uma vida para uma exibição de um minuto. Imaginemos esse tempo consumido com a família, os filhos, os pais, ou com pequenas tarefas ou atividades do dia a dia. Talvez pudéssemos melhor apreciar o que tanto custou para ser adquirido, mas que a rotina e a cegueira do encantar-se pelo novo deixaram perder a importância. É como mesmo diz a canção de Raul Seixas: “ ...há tantas coisas novas para conquistar, e eu não posso ficar aí parado”.
Para Aristóteles, controlar a vaidade é ter postura para caminharmos em direção à nossa realidade, a fim de entendermos o quanto imperfeitos somos. Sobre esse pensamento e preocupado com as próprias imperfeições, um famoso marqueteiro paulistano decidiu fazer a famosa peregrinação dos caminhos de Compostela, cujo trajeto demora semanas. A rota escolhida envolvia um trecho mais longo e enladeirado. Depois de dispensar o guia, ele colocou a mochila nas costas e pôs-se a seguir. No terceiro dia de caminhada estava exausto e tinha os pés inchados e cheios de bolhas. Ao anoitecer, do albergue, ligou para o guia. Conhecendo o quanto era vaidoso, este mandou abrir a mochila. E falou: “ Você não vai conseguir desse jeito, meu amigo. Sua bagagem está pesada! Livre-se do que não precisa!”
As crises sempre existiram, e ocorrem por ciclos. Assim como a chegada da chuva, depois da estiagem prolongada, e assim como o surgimento do sol, depois do inverno sombrio, o efeito delas é o renascimento das espécies, pois o que parecia cansado, revigora-se, e o que se fizera gasto e cego, afia-se e se enche de energia e vida.
Ao fim dessa pandemia teremos vivido muitas experiências, feito reflexões e abraçado oportunidades, e certamente renascidos num mundo novo, mais leve e menos desigual. E talvez tenhamos aprendido pequenas lições, como a que disse Honoré de Balzac: “ deixemos a vaidade aos que não têm outra coisa para exibir.”
Discreto ao modo do conquistador sonso, ei-lo, camuflado entre seus pares, se bem que de maneira inócua diante do brilho prateado que o reveste, sorrindo para mim como o menino traquino que se regozija quando sua má-criação, engenhosamente levada a cabo, finalmente lhe é atribuída, garantindo-lhe, apesar da pisa, a massagem no ego travesso. Ali está, na imagem clonada pelo espelho, todo faceiro, o meu primeiro cabelo branco. Um pêlo branco! Qual não é a surpresa de se deparar com o primeiro cabelo branco?
Ele me aparece num lugar estrategicamente escolhido: sobre o peito esquerdo. “E por que não no couro cabeludo?”, pergunto-me, curioso. Poder-se-ia atribuir tal escolha a um fato nobre. O tórax em vez da cabeça, o coração em vez do cérebro, a emoção em vez da razão. Seria sua escolha uma indicação de que o envelhecer deve ser compreendido pelo lado espiritual e não pelo caráter estritamente biológico, material? Não, a sua escolha não tem nada de transcendental, é apenas uma esperteza que deve aqui ser relatada. A cabeça não lhe era lugar seguro, pois os seus primos que ali residem estão partindo cedo com a calva proeminente. Nas têmporas poderia ser, pois os cabelos que ali fixam morada são como flagelados da seca, que mesmo diante das vicissitudes da vida dura na caatinga, mantém-se na terra inóspita de onde brotaram, nutrindo-se com calangos e fé. Mas ali também não, pois há o risco de um surto de vaidade – sempre ela – culminar numa tintura, e a sua condenação a uma eterna cor violeta – apesar de na embalagem constar preto – ou “acaju”. A barba nem se fala. Uma navalhada e lá estaria ele, caído, gosmento pelo creme de barbear, sujeito a toda sorte de encontros desagradáveis no sistema de esgoto.
No peito, ali sim é um bom lugar. Um porto-seguro. Os cabelos do peito não caem. Pelo contrário, para cada cabelo da cabeça que se vai parece que nasce uma tropa no resto do corpo. Que lógica! E quem danado pinta os cabelos do peito!? Nunca se ouviu falar, pelo menos não é fato divulgado pelas propagandas de tintas. Raspar o peito!? Não se tratando de um nadador profissional ou de uma dragqueen, ninguém raspa o peito, pelo menos é o que se pensa. Um lugar estrategicamente escolhido.
O que dizer do nosso primeiro cabelo branco? Aos vinte e oito anos apareceu-me, no peito, meu primeiro pêlo branco. Com a queda de cabelo e as rugas eu nunca me preocupei. Esses sinais do passar do tempo acontecem devagar, acompanham nossas venturas, são companheiros numa longa viagem de sabores e dissabores. Mas o cabelo branco não. Ele não fica claro aos poucos. Da cor original passa ao branco, sem nenhum pudor.Um dia está você se olhando no espelho, escovando os dentes ou tirando sujeira do nariz, e lá está ele, todo branco. E o fatídico e inevitável pensamento – e não quero aqui fazer terror com o leitor que já tem mais que o pioneiro cabelo branco no corpo – vem a minha mente: “terei, finalmente, chegado ao ponto descendente na parábola da vida? Será que após o glorioso e inconseqüente aclive da mocidade cheguei na ladeira vertiginosa da maturidade? Afinal de contas, estou ficando velho!?” E lembro-me do filme “O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas”, cujo título se torna sugestivo quando você descobre que ele conta a história de pessoas que acabaram de concluir a faculdade.
E agora me pego a pensar se devo extirpá-lo [sim, o cabelo branco] do meu corpo, e viver da doce ilusão de que o tempo não passa, “relativisando-o” como na teoria do gênio alemão, procrastinando o envelhecimento, olvidando que “a vida é uma contagem regressiva”, como alguém apropriadamente já observou, escondendo-me das recordações do passado, preferindo que a morte me pegue sorrateira, numa emboscada, pois assim a vida seria bem mais agradável; ou se devo mantê-lo e orgulhosamente cultivá-lo como a maior lembrança de que passei por todos esses anos, e que, feliz – de longe em sua maior parte –, vivi cada idade, lembrando da infância, de quando minha linda mãe carinhosamente ensinou-me a amarrar os cadarços dos sapatos, das brigas no colégio, das quais saía sempre derrotado pelo colega mais robusto, dos mimos dos meus irmãos, que mesmo depois desse cabelo branco ainda continuarão a tratar-me como criança, do namoro adolescente e afoito na varanda, flagrado pelo pai da moça, dos muitos amigos, uns que permanecem outros que partiram, do banco de reservas, conseguido a duras penas, no time da escola, das paixões correspondidas, e de outras nem tanto – tudo bem, estas em maior número que aquelas –, dos grandes companheiros da faculdade, do sublime amor, vacilante e inseguro, que, contrariando os contos de fadas, insiste em não ser eterno, do elogio, ainda que suspeito por vir de um amigo, à crônica mal acabada.
As duas opções são legítimas e têm lá suas vantagens. Por enquanto, vou ficar com a segunda. O cabelo branco não é um mau presságio, mas um marco comemorativo que me mostra que já faz vinte e oito anos que meus pulmões receberam a primeira carga de ar poluído, e que continuo inspirado na arte de viver. Já fui agraciado com vinte e oito, espero que venham mais alguns anos. Afinal, ainda não escrevi nenhum livro, não plantei nenhuma árvore e sequer, assim suponho, tive um filho, que é o mais fácil – e mais esperado! Mãos à obra, então.
O tempo passa rápido e a saudade revela três anos da passagem de Ivonaldo Corrêa, ocorrida a 29 de abril de 2017, nosso colunista social mais amado, talentoso e que não gostava de glamour.
Para homenageá-lo, vejo-me na obrigação de destacar momentos deste jornalista que carregava consigo a honestidade, a sinceridade e o silêncio construtivos como marcas.
Estes aspectos ele não exibia, mas eram visíveis no seu modo de viver e no trato para com as pessoas.
Fomos de uma amizade profissional satisfatória e menos confidencial do que como em relação a Gonzaga Rodrigues, ou meu conterrâneo Nathanael Alves, que ajudaram na edificação do ambiente para esperar a minha epifania.
Tínhamos encontros casuais de recíproca fraternidade, mas da parte dele, que tinha muito mais a ensinar do que partindo de mim, eterno aprendiz, observador de seus escritos bem elaborados.
Sempre me aproximei de amigos que poderiam contribuir para o meu aprendizado, quando dava os primeiros passos como repórter e que continuam nos tempos atuais. Com gestos de louvável afeição, Ivonaldo me ensinou a utilizar os braços para nadar nas águas turvas.
Ivonaldo CorrêaDe redator no jornal O Norte, nos anos de 1970, assumiu a vaga de colunista social na ausência de Heitor Freyre, que passou a atuar na atividade médica.
Ele modernizou a linguagem da página social na Paraíba, passou a abordar temas diversificados, como já faziam jornais de outras grandes cidades que sempre lhe serviram de referências.
Alguns amigos me deram prumo na vida de jornalista e de leitor. Com Nathanael e Gonzaga aprendi a escolher os livros e como os ler. Carlos Romero e Dom Marcelo Carvalheira ajudaram a voltar meu olhar para o transcendente, a observar nos gestos místicos o caminho para a paz. E Ivonaldo, ao seu modo, me ensinou a sintetizar o texto.
Com eles constatei que o homem é um grande ensaio, como definiu Thomas Mann. Um ensaio composto por cada livro degustado e cada ensinamento recolhido de amigos que nos cercam. Neste sentido, Ivonaldo muito me ajudou.
Não poderia falar dele sem citar estes outros mestres que tiveram e continuam me dando sentido para buscar a literatura e o lado místico da vida. Outros que me ajudaram estão silenciosos na página de minhas recordações. Poetas e escritores que nem os conheci, a não ser por meio de suas obras. Outros anônimos, homens rudes com os quais convivi em Serraria e Arara, vieram se juntar à legião de amigos que fatidicamente não os reconheceria sem leituras, poesia e música.
Esta quarentena a que estamos nos submetendo por recomendação médico-científica, para enfrentamento da pandemia do coronavírus, tem feito com que nos dediquemos a reflexões sobre a vida. E ficamos nos perguntando porque fomos surpreendidos com algo tão ameaçador quanto esta doença que desafia o mundo inteiro. Uma ocorrência que surpreende, não só pela forma como vem se estabelecendo, mas, principalmente, porque foge ao conhecimento humano e ao seu controle. Provoca a inteligência, o poderio e a capacidade de entendimento do homem. Daí chegarmos à conclusão que se trata de um acontecimento que independe da vontade humana. É determinação de Deus.
A propósito, gostei muito do sermão dominical ministrado pelo pastor Robinson Granjeiro, da Igreja Presbiteriana de Tambaú. Ele, com a sabedoria que lhe é peculiar, nos mostra que “Deus tomou a agenda de nossas mãos”, até para demonstrar que jamais fomos donos dessa agenda. Quem define a construção da História da humanidade é o Ser Supremo. É plano dEle.
Não adianta ficarmos procurando explicações. Somos incapazes de compreender. Façamos do infortúnio circunstancial a oportunidade para recebê-lo como uma advertência. O vírus chega de maneira avassaladora sem respeitar autoridades constituídas ou o [até então] presumível poder do dinheiro e das forças da economia mundial. Evidencia-se o que a humanidade estava ousando desconhecer: o arbítrio de Deus sobre o nosso destino.
No olhar dEle estávamos absorvidos pelas ambições desmedidas, pelo desprezo ao que Cristo nos ensinou como conceito de fraternidade, pela agressão à natureza que Ele criou, pela falsa ideia de que “podemos tudo”. Por consequência estamos experimentando uma overdose de angústias e medos. Não vejo a catástrofe mundial como “punição” divina. Assimilo como uma reprimenda, que nos obriga a rever comportamentos e valores equivocadamente considerados importantes. É como se Ele quisesse nos dizer: “Basta! Vocês têm que aceitar a existência de um Ser Supremo a quem devem louvor, veneração e obediência. Estão passando dos limites na liberdade de agir, sem o Meu consentimento”. Ele está nos chamando à responsabilidade.
Esta invasão abrupta em nossas vidas, interrompendo sonhos, modificando projetos, contestando ideais, ainda que nos leve ao pranto e ao desespero, deve ser enfrentado com a consciência de que necessitamos ser submissos à vontade dEle, que é o Deus soberano que tudo sabe, tudo vê e que, nas entrelinhas, nos ensina a depositar nEle toda a confiança.
Como disse o pastor Robinson, devolvamos para Ele a agenda que jamais foi nossa. Fomos muito pretensiosos em achar que poderíamos determinar os caminhos da História da humanidade sem cumprir as regras que Ele nos apresentou. Através das tragédias Ele amplifica a Sua voz de comando sobre tudo o que acontece no universo. A humanidade precisa admitir sua fragilidade. A pandemia está nos convocando a entender isso.
Há amigos ou amizades que fazemos no trato com a vida, com o tempo; e há os que vêm por obra de alguma divindade. Os inventores da alta sabedoria, filósofos e gênios das ciências exatas não negam o poder dos deuses, ou do Deus único. Não é sem motivo pois que acredito na amizade concedida por um Deus.
Como disse meu amigo Ivan Bichara, você está entre os amigos que Deus nos dá. Silvio Osias, Vladimir Carvalho, Rubão (Nóbrega), Milton Marques Júnior são da mesma forja. Viveram lances e silêncios do batente, têm sangue da mesma tinta, cada um reagindo à sua maneira, como o Martinho Moreira Franco, que reagiu em meu favor, junto aos amigos do seu círculo. Você vem em sua pureza de espírito, e vem de longe, de terras do coração..
Li hoje uma entrevista de Alain Touraine, 95, criança na crise de 29, jovem, quando surgiu de um vazio destes o Hitler, e me vejo igualmente encerrado. Sem um ator próximo, ou na China, que possa me dizer que guerra é esta de ninguém, de uma humanidade completamente desarmada, lavando as mãos com sabão como único recurso contra a monstruosa máquina biológica invisível e devastadora, quando o homem se julgava no ponto mais universal de falas e ações mais instantâneas.
Que vou fazer mais em jornal? Touraine se diz encerrado. Que irá dizer um velho que nunca saiu de Alagoa Nova, que vai lá, senta na praça em plena luz do meio dia… e ninguém dá por ele?…
Estou me acomodando à nova situação do duplo isolamento, o do vírus e o imposto pelos jornais, que parecem não me reconhecer, e tentarei me conceber na versão online. Recebi convites e a nenhum aderi logo agora. Vou me reacomodar para esse fim de viagem, que começou pela "sopa" de Mestre Chico de Alagoa Nova e não foi além das linhas da Bonfim de Severino Camelo.
Abraço-te com o Coração.
Gonzaga Rodrigues
Gonzaga Rodrigues é escritor e membro da APL E-mail
De papel, couro, plástico, pano... Esfera mágica de valor inquestionável, capaz de criar e destruir sonhos, derrubar muros, fabricar sorrisos e compor lágrimas. Objeto ímpar, dona de uma força descomunal. A bola de futebol. E não importa a precisão do seu formato, que seja até mais oval que circular, porém ainda capaz rolar, girar, viajar e conquistar o mundo.
Do inglês "foot-ball", cujo "foot" é pé e "ball" é "bola". Por que não magia, encantamento, alegria, felicidade e dezenas de outros sinônimos e antônimos também?
Paixão nacional, sonho de conquista, sobretudo pelos pés que buscam ter com ela infinidade. Desejo de pequenos corações espalhados pelos rincões. Poliglota ao falar uma única língua chamada encantamento.
E não importa o tamanho. Ao ser chutada ganha nova dimensão. Sim, o chute, o contato do matrimônio perfeito entre pé e objeto esférico. Tudo bem, a cabeça, o joelho e o calcanhar bailam quando colocados a chocar-se com força e fúria com a bola, tornam-se poesia, arte. Definitivamente não banaliza-se!
O instante da explosão do encontro entre o corpo humano e a bola é como uma recriação da existência. Deus sabe o que faz. Não é apenas um jogo, mas jamais deve se transformar em guerra.
O melhor é jogar bola. O correr e disputá-la, criar jogadas, dividi-la, escorregar em meio à lama, à poeira, na grama irregular ou tapete, campos desnivelados de várzea, com peito aberto, sem camisa, cabelo ao vento. Pés protegidos ou não pelo requinte de uma chuteira, meião e caneleira.
E ir até próximo ao gol, sentir a sensação da vitória. Pode ser a defesa memorável. Instantes gravados na memória do garoto. Infalível remédio para quem é apresentado à senhora bola desde pequeno. Sim, sentir-se um craque, incorporar o ídolo, comemorar com os companheiros de time.
Mágica sem varinha, a bola é um sonho a ser chamado de você e com intimidade colocá-la em repouso numa rede. E mais uma vez voltar a correr, pular, escorregar para dominá-la. Até o apito final, para descanso da bola.
* A ilustração é um acrílico sobre tela da violonista e artista plástica Alaurinda Padilha Romero
A meu sobrinho Johnny Formiga, professor como eu, diante da pergunta impertinente e descabida que lhe fizeram – “Para que serve ser índio?”
Um dos momentos sublimes da Literatura Universal é a parte VIII do poema “I-Juca-Pirama”, de Gonçalves Dias. Desconheço outro texto – é possível que haja –, em que um pai se dirige a um filho amado com uma fala mais violenta e mais infamante do que esta. O que nos impacta não é a diatribe do discurso, de que a literatura está cheia. O impacto é causado pela beleza da emoção, em defesa da dignidade. O ritmo do poema, um eneassílabo bem marcado, com pausas na terceira, sexta e nona sílabas, faz reverberar dentro do filho o poder da invectiva do pai, como se um chicote um açoitasse numa frequência inalterável, expressando uma homologia inquestionável entre fundo e forma.
Motivado por um suposto acovardamento do filho diante do sacrifício antropofágico, o velho Tupi, alquebrado pelos anos e cego, faz questão de saber o porquê de o filho ter chegado à sua presença com todos os sinais da preparação para o sacrifício, percebido pelo toque das suas mãos no corpo do filho – cabeça raspada, muçurana atada do colo à cintura, corpo pintado com a pintura sacrificial, canitar cingindo a cabeça, enduape à cintura...
Em chegando às terras inimigas, embora com dificuldade, diante do chefe Tupi, o velho tem notícia de que o filho chorou e implorou para ser poupado, tendo sido libertado por sua covardia – “Não queremos/Com carne vil enfraquecer os fortes” (Parte V). A história do filho não bate com a dos Timbiras: o filho pediu pelo velho pai e voltaria para o sacrifício, após a sua morte; os Timbiras o consideram apenas um covarde que chorara diante da morte:
“É teu filho imbele e fraco!
Aviltaria o triunfo
Da mais guerreira das tribos
Derramar seu ignóbil sangue:
Ele chorou de cobarde;
Nós outros, fortes Timbiras,
Só de heróis fazemos pasto.” (Parte VII)
A resposta do chefe Timbira é um duro golpe para um pai que quer ver no filho a continuidade do seu próprio heroísmo. O discurso não poderia ser outro, a ética guerreira exige o cumprimento do ritual antropofágico, para exaltação do valor do herói.
O poema, porém, vai mais além do que o heroísmo individual. A negação ao sacrifício, assim entendida pelos Timbiras e pelo velho pai, não fere apenas a dignidade de um homem, fere a dignidade de uma nação, que se empenhou em mais do que se dizer digna, provar-se digna. Não são as palavras que nos definem, mas as nossas ações e a distância ou a proximidade que elas apresentam com relação às nossas palavras.
Eis a beleza da poesia. Quando pensamos que Gonçalves Dias está apenas tratando dos valores indígenas e nos mostrando a sua cultura, ele com o poder da criação poética (perdoem-me e aceitem o pleonasmo enfático, por favor!) está falando da dignidade humana, de que não devemos abrir mão, mesmo em prejuízo próprio. O prejuízo aparente de hoje será o ganho moral de amanhã, com que construímos a virtude e a justiça. Somos uma só espécie e só teremos respeito mútuo, quando os valores começarem a ser reconhecidos e cumpridos.
Fiquem com o poema e a com a grandeza poética de Gonçalves Dias, celebrando a dignidade humana.
VIII
"Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranhos choraste?
Não descende o cobarde do forte;
Pois choraste, meu filho não és!
Possas tu, descendente maldito
De uma tribo de nobres guerreiros,
Implorando cruéis forasteiros,
Seres presa de via Aimorés.
"Possas tu, isolado na terra,
Sem arrimo e sem pátria vagando,
Rejeitado da morte na guerra,
Rejeitado dos homens na paz,
Ser das gentes o espectro execrado;
Não encontres amor nas mulheres,
Teus amigos, se amigos tiveres,
Tenham alma inconstante e falaz!
"Não encontres doçura no dia,
Nem as cores da aurora te ameiguem,
E entre as larvas da noite sombria
Nunca possas descanso gozar:
Não encontres um tronco, uma pedra,
Posta ao sol, posta às chuvas e aos ventos,
Padecendo os maiores tormentos,
Onde possas a fronte pousar.
"Que a teus passos a relva se torre;
Murchem prados, a flor desfaleça,
E o regato que límpido corre,
Mais te acenda o vesano furor;
Suas águas depressa se tornem,
Ao contacto dos lábios sedentos,
Lago impuro de vermes nojentos,
Donde fujas com asco e terror!
"Sempre o céu, como um teto incendido,
Creste e punja teus membros malditos
E oceano de pó denegrido
Seja a terra ao ignavo tupi!
Miserável, faminto, sedento,
Manitôs lhe não falem nos sonhos,
E do horror os espectros medonhos
Traga sempre o cobarde após si.
"Um amigo não tenhas piedoso
Que o teu corpo na terra embalsame,
Pondo em vaso d’argila cuidoso
Arco e frecha e tacape a teus pés!
Sê maldito, e sozinho na terra;
Pois que a tanta vileza chegaste,
Que em presença da morte choraste,
Tu, cobarde, meu filho não és."
Milton Marques Júnior é professor, escritor e membro da APL E-mail
Chamava-se “Livraria do Bartolomeu”. Porém, mais do que do amigo Bartolomeu de Oliveira, a livraria pertencia a uma clientela que, se não era numerosa, era fiel. E melhor: escolhida a dedo. Ficava na Duque de Caxias, próxima à Praça Rio Branco, perto do edifício onde funcionava o Ministério da Fazenda, em que eu trabalhava como advogado da Delegacia do Serviço do Patrimônio da União.
Estou a vê-lo, vindo dos Correios, no sol a pino, carregando pacotes de livros. A calça, bem acima da cintura, diminuía ainda mais o tronco e encompridava as pernas. Mas, pernas mesmo, e de sete léguas, eram as dos livros que me permitiam, sem passaporte e muito menos vistos alfandegários, dar “a volta ao dia em oitenta mundos” com o menino impossível Jorge de Lima; com o alumbramento de Bandeira quando viu pela primeira vez uma moça nuinha em pelo; com a musicalidade de Cecilia Meireles ou com a sensibilíssima poesia racional de João Cabral de Melo Neto. E com as cigarras que, às cinco em ponto da tarde, nas árvores da Praça Rio Branco, recitavam o “Se”, de Kipling, fornecendo-me, nessas minhas idas e vindas entre o Ministério da Fazenda e a Livraria do Bartolomeu, o embrião da ideia que eu desenvolveria quase quarenta anos depois: “São guitarras trágicas. // Plugam-se/ se/ se/ se/ nas árvores/ Em dós sustenidos. // Kipling recitam a plenos pulmões. // Gargarejam/ vidros/ moídos. // O cristal dos verões”. (Poema “As Cigarras”, livro “Zoo imaginário”, Editora Escrituras, São Paulo, 2015).
Só eventualmente passo na Praça Rio Branco, mas, nessas poucas vezes, lembro alguns versos de “Elegia de Verão”, do poeta Manuel Bandeira: “O sol é grande. Ó coisas/ todas vãs, todas mudaves*./ (...) O sol é grande. Mas, ó cigarras que zinis, / Não sois as mesmas que eu ouvi menino. / Sois outras, não me interessais...// Deem-me as cigarras que eu ouvi menino”.
Já na casa dos setenta, faço coro com Manuel Bandeira: as cigarras que hoje zinem não são as mesmas que engarrafavam o canto e o explodiam – qual coquetel molotov – de encontro à tarde moída em vidro dos meus trinta e poucos anos. Ah, cigarras de hoje, deem-me as cigarras de antigamente, a Livraria do Bartolomeu e, sobretudo, o amigo Bartô, sobraçando/abraçando pacotes e mais pacotes de livros.
*Propositalmente, Bandeira emprega “mudaves” por “mudáveis”.
Eu estava deitado no sofá, quando aquela cabeça assomou por sobre a porta de baixo, da entrada da casa e, depois da pergunta, ficou me encarando, interrogativa. O homem estava do lado de fora da casa, posicionado uns dois batentes abaixo do umbral daquela porta no velho estilo saia & blusa.
Corria o ano de 1974, contava eu então 19 anos de idade e estava passando férias da faculdade em casa de minha mãe, em Campina Grande, na Avenida Getúlio Vargas, 447, centro.
O homem, relativamente jovem, era gente das mais simples. Vai ver, um serviçal doméstico, e – mas não exatamente por isso --, sem a menor chance de suspeitar que suas palavras acabavam de ser importante vetor no destino de uma vida. O pintor no qual eu, incertamente sonhava me tornar um dia, acabara de ser convocado por ele, de uma forma clara, inequívoca, carregada de convicção. Aquela certeza me contagiou e me emprestou suficiente coragem para, pegando na palavra, responder:
-- Aqui mesmo. Sou eu!
Ele trouxera um recado da d. Lisete (a quem conhecíamos por ser amiga de nossa mãe), que queria contratar um trabalho, e naquele momento estava esperando por mim, um mero estudante de Arte, em sua casa – não muito distante dali – para acertar os detalhes. Ele deu o recado e se foi. Logo em seguida, ainda surpreso com aquilo, coração agitado, parti no rumo daquele endereço, descendo pela calçada da rua. Passei a Mercearia de Seu Adauto, cruzei a Rua Indios Cariris, passei na frente do Cine Avenida, no quarteirão seguinte, dobrei à esquerda na Rua Siqueira Campos, e logo me encontrava diante da casa.
D. Lisete me fez entrar, e, ali mesmo, no jardim, fez a primeira pergunta: se eu sabia mesmo como fazer retratos a óleo. Acontece que, naquele momento, eu me achava ainda contaminado pela dose de autoconfiança, há pouco inoculada, e com isso, passei a responder afirmativamente aos questionamentos sobre minha capacidade artística. Me lembro de vê-la parar, depois de preenchido seu questionário de dúvidas, e me examinar em silêncio por algum instante, antes de entrar na casa para buscar a fotografia em tamanho 3x4 do falecido. De volta, perguntou: ‘’Você acha que dá para fazer por aqui?’’
Era o pai do marido dela, Seu Arnóbio, numa foto antiga e semiapagada. A mulher logo me explicou que estava preparando uma surpresa para o dia do aniversário de seu marido, em data próxima. Ela conhecia bem o tipo de apego que unia Gonzaga, gerente de uma transportadora, à memória paterna. Seria uma enorme surpresa para o filho de Seu Arnóbio, isso a mulher fez questão de salientar. Pelo que dela ouvi, e pelo que ouviria depois do próprio Gonzaga, posso afirmar sem receios que a ligação afetiva que ele mantinha com seu pai em nada devia àquelas que Amadeus Mozart, William Turner, ou o Arquiteto Germano Romero, haviam, pela vida inteira, mantido com seus respectivos progenitores. Mais que amor, veneração.
Minha mãe me adiantou o dinheiro para comprar tela e tintas, e nessa altura, é preciso explicar que, por aqueles dias, eu até já havia participado de uma primeira Exposição Coletiva de Artes Plásticas na Capital, ao lado dos colegas Dalberto Henriques, Bruno Steinbach, Elpídio Dantas, Guilherme Lira, Marcos Pinto, Antonio Lucena e Sandoval Nóbrega, embora tudo que eu tivesse feito até então com pincéis e tintas não fosse mais que algumas pinturas cubistas, alguns pastiches naquela linha mais Picassiana possível, estando portanto ainda bastante longe de possuir o traquejo técnico suficiente para pintar um retrato a óleo, cuja fatura exige do artista não apenas domínio de recursos pictóricos, mas também da sutileza presente em convenções sociais desse tipo. Desenhar eu bem que sabia, sim, e por isto estava ali. Havia feito um retrato, 10 ou 12 anos atrás, quando era apenas um menino e morava em Patos-Pb. Naquela ocasião, porém, fazendo uso exclusivo de lápis grafite sobre papel cartolina.
Por aqueles dias, alheamento profissional combinado com excesso de confiança em relação às dificuldades que me aguardavam, foi o pretexto para que o Arquétipo conhecido como ‘Loucura da Juventude’, se apressasse em invadir meu processo criativo, o que de fato aconteceu quando escolhi para cenário de fundo daquela pintura uma sombria paisagem de canavial ao entardecer (considerei – pasmem! -- que um certo clima sobrenatural ‘caísse’ bem para um homem que já falecera!)... e, como se não bastasse, resolvi colocar uma espécie de lacrau passeando sobre a lapela do paletó da personagem, num arroubo de sinceridade (própria talvez de certo traço cultural inerente a paraibanos rebentos da primeira metade do séc. XX, por herdade do poeta Augusto dos Anjos) que pretendesse lembrar os vermes que foram seus verdadeiros companheiros durante a última viagem!…
Comecei a pintar o lacrau, mas aí, um pequeno filete de luz alcançou-me na mente, aspergindo ali um restinho de bom-senso para que eu, pelo menos, passasse a desconfiar de que talvez os familiares do morto não fossem gostar daquilo... e apressadamente tratei de retirar aquele inseto dali. O forte Tenebrismo canavieiro, porém, um mal menor, esse permaneceria. Quando, finalmente, terminei o trabalho, assinei-o e tratei de rapidamente entregá-lo, pois a data limite já se expirava.
Quando transpus o portão e exibi a tela para d. Lisete, ali mesmo no jardim, ela permaneceu por um tempo muda e espantada com o que via. Na sequência, eu tive o extremo dissabor de, aos poucos, ver sua expressão cambiar do inesperado espanto para um misto de angústia e raiva. “Os olhos até que parecem’’, ela foi dizendo, ‘’a boca também, mas ele não tinha bochechas grandes assim. Seu Arnóbio não era inchado desse jeito. Ele nem bebia’’. E foi ‘pegando ar’ à medida que falava. Não se cansava de citar defeitos, sobretudo os das tais bochechas. Nesta altura eu já buscava um buraco onde me socar, feito um daqueles vermes, os tais amigos derradeiros do falecido, mas, num dado momento, a dona Lisete se deu conta do quanto eu estava constrangido, e foi então que se lembrou de recorrer à viúva do retratado para que emitisse ela também sua opinião sobre a obra. Afinal, a dona Alice vivera a vida inteira com o suposto retratado, opinião esta que a dona Lisete – foi logo adiantando --, havia de ser equivalente à sua, desabonadora de qualquer suposta fidelidade naquele retrato à feição de Seu Arnóbio, e, se assim fazia, era para que eu não pensasse que ela estava com algum tipo de má vontade para com meu trabalho, e procurasse compreender que ela estava apenas muito decepcionada com o fracasso da empreitada, com aquela tremenda falha de fidelidade na pintura.
Hoje eu me arrisco a dizer que o que ela tentara me explicar, na verdade, é que estava com muita raiva de si própria por ter sido tola ao ponto de acreditar que um jovem inexperiente feito eu fosse capaz de cumprir à risca um compromisso daqueles. Dito aquilo, porém, a mulher entrou novamente em casa e foi buscar a sogra anciã.
Depois de uma espera interminável, a dona Lisete e uma empregada da casa, segurando cada uma num dos cotovelos de dona Alice Gonzaga, já de idade bastante avançada, apareceram na porta. A anciã bem que era frágil. Bem decrepitazinha. Levaram um tempão para fazê-la descer o desvão de uns poucos centímetros entre a sala e o terraço. Por fim a sentaram numa cadeira, e enquanto a dona Lisete, considerando a avançada miopia da sogra, posicionava o quadro sobre as coxas dela, a outra mulher tratava de colocar-lhe os óculos no rosto. Nesse momento, e eu digo aqui com sinceridade, senti um tênue fio de esperança me reanimar: é que naquelas condições em que a viúva se encontrava, tudo podia se esperar. Era possível ATÉ MESMO que ela viesse a identificar naquele retrato as feições do companheiro que o destino um dia lhe designara para seu convívio. Mas, quando a idosa, finalmente, pôs seus olhos no quadro e neste se concentrou, demoradamente, um silêncio se fez. Depois de um tempo que me pareceu um século, a d. Alice Gonzaga, com uma energia insuspeitada quanto súbita, fez aquele gesto de afastar o quadro de si, e com seu filete de voz, ergueu a cabeça e exclamou para que todos ouvissem:
--- Este aqui nunca foi o finad’Arnóbio!
Ato contínuo, a nora sentou-se ao lado dela, e passou a salientar, para ela, os traços cuja infidelidade condenavam o retrato, e só depois, quando percebeu, num relance, o lamentável estado psicológico em que eu me afundara, voltou-se pra mim, e, preocupada, quis minimizar a situação. Tentava agora me consolar, dizendo que a pintura era, apesar de tudo, de excelente qualidade, o quadro era bonito, etc., apenas não concernia à pessoa do retratado. Que eu não ficasse assim, porque ela iria me pagar segundo o combinado, etc. Disse ainda que, de qualquer forma, eu havia feito o possível para cumprir com meu papel, que havia entregue o quadro no tempo combinado. Apenas ela desistira de presenteá-lo ao marido. Só isso.
Quando eu subia de volta a ladeira da Avenida, o desânimo quis tomar conta de mim. O dinheiro que eu tinha colocado num bolso da calça, em contato com minha coxa, parecia queimar. Como se fosse dinheiro roubado. Teve um momento em que parei junto a um poste. Estava confuso e angustiado depois do enorme vexame a que fora submetido, mas foi aí que subitamente me ocorreu um pensamento redentor: o de que havia alguma coisa errada com o que eu acabara de experienciar.
Em seguida me lembrei da recorrência biográfica sobre todos que são vocacionados para alguma profissão, dos primeiros testes a que são submetidos na vida, e sobre os quais obtêm sua invariável superação. Portanto, aquelas mulheres estariam certas, caso eu não possuísse vocação para a pintura. E erradas, em caso contrário. De qualquer forma eu não havia pintado aquele quadro para elas, mas para aquele que era filho e marido delas. Este raciocínio, bastante claro, me acalmou, e eu consegui assim, são e salvo, estar em casa de volta naquela manhã.
Mas não demorou. Aproximava-se o final das minhas férias e lá estava eu, deitado no mesmo sofá, quando aquele mesmo rosto assomou sobre aquela mesma porta. “Seu Gonzaga mandou lhe convidar para almoçar com ele. Hoje. Ao meio dia”. Lembro bem desse domingo. Quando entrei na sala vi o retrato aposto, de frente, na copa ao lado, a mesa estava posta. Havia vinho sobre ela, taças de cristal e muita comida. Gonzaga ergueu-se para me receber e começou a falar. “Ontem, eu cheguei em casa às pressas, no final do expediente, pois precisava vestir uma roupa social para me fazer presente a um evento da Empresa. Lisete não se achava em casa, e eu comecei a procurar meus sapatos, sem encontrá-los. Nisso, me veio a ideia de verificar sobre o guarda-roupa, e após subir em uma cadeira, passei a mão lá por cima, e esta bateu em algo que caiu com grande barulho na parte de trás do guarda-roupa, desci da cadeira e fui ver o que era aquilo. Com aquele quadrado nos braços o meu susto foi enorme. Era meu pai, olhando para mim. A primeira coisa que fiz foi cancelar o evento social. Inquiri primeiramente minha mãe, que estava em casa. Passei ordens depois para os empregados, para que fossem procurar a Lisete nos lugares aonde ela costuma ir. Quando por fim me explicaram tudo, tim-tim por tim-tim, eu falei para as duas: vocês humilharam esse pobre artista. Este é o meu pai tal qual trago na memória esses anos todos da minha vida. Ele com suas bochechas, que a doença varreu de seu rosto nos anos da longa enfermidade que acabou com a vida dele, mas vocês rapidamente se acostumaram com sua imagem descarnada do final. Mas este é e sempre será o pai que tive e tenho, e vocês esconderam de mim o retrato fiel dele. Eu falei para Lisete: no meu aniversário você substituiu o quadro por um par de sapatos novos, dos quais, aliás eu estava mesmo precisando, mas foi esse mesmo par de sapatos que, antes mesmo de serem calçados pela primeira vez, acabaram me conduzindo para o esconderijo do quadro. Vamos agora fazer para esse moço, um pequeno almoço de desagravo. Acredito que ele possa nos perdoar”...